KÁTIA NASCIMENTO
Episódios mundiais dos últimos dias levaram-me a pensar sobre os caminhos do mundo que se abrem e se fecham conforme o tamanho do passaporte, ou da nossa mente. E, por causa disso, o quanto agarrados estamos em fronteiras, obstáculos, em tudo que nos impede de simplesmente sermos neste universo. Tenho pensado, sem filosofias baratas, sobre o que é passar daqui para lá, ou de lá para cá, numa viagem de mão dupla a caminho do alcance dos nossos propósitos. Tento pensar, sem ser piegas, para encontrar a resposta. Mas sei que ela, a resposta, me deixará em suspenso até o final porque ir daqui para lá, ou de lá para cá, tem suas complexidades conforme o ponto de partida.
O que me leva a pensar, também, sobre o cerne da minha tese de doutoramento, as cosmologias encontradas nas obras da moçambicana Paulina Chiziane e do brasileiro Cuti, como forma de decolonialidade. A meu ver, eles têm a coragem de mostrar, do seu ponto de partida, a realidade e cultura de um povo que foi oprimido pela colonização, e que, até hoje, mesmo sendo independentes, sofrem resquícios dessa colonização tão introjectada, que chamamos de colonialidade. Já que a colonialidade é consequência do colonialismo, é de se entender a decolonialidade como um estado constante de resistência perante essa colonialidade. E essa resistência, esse não desistir de si mesmo e dos seus, percebemos na obra desses autores.
Quando Cuti poetiza: “prosa/ em cruz/ ilhada/ versoebó antitabu/ livre livro na estrada/ laroiê/ exu!”, está resistindo a um mundo de açoites sobre sua ancestralidade. Quando Chiziane escancara as suas crenças, como em O Alegre Canto da Perdiz: “Vozes de espíritos distantes sacodem-lhe a mente. Ouve tambores mágicos e canções dos mortos. Crescem-lhes línguas de fogo no peito. Ergue os olhos aos céus procurando Deus e vê outros milagres”, está a resistir a um mundo que não lhe quer fora dos padrões, inventados por não sei quem.
Aí decido continuar escrevendo porque resisto, porque é isso que faz uma escritora: abstrai coisas do mundo, elabora e escreve. Que não me falte discernimento para compreender o ponto de partida do outro, e palavras para escrever tudo que precisa ser escrito, do meu ponto de partida, pois ainda tenho pontes para edificar. Não quero acreditar que sairei daqui sem fazê-lo, já que tantos, antes de mim, conseguiram o inimaginável. Aliás, só estou aqui, dizendo isso porque caminhos foram abertos para mim. E um deles foi (e continua sendo) a literatura.
Então, quando digo que tenho pensado sobre os caminhos do mundo que se abrem e se fecham conforme o tamanho do passaporte, ou da nossa mente, volto à leitura do livro: O Alegre Canto da Perdiz, que me afirma: “Todo lugar do mundo é bom para nascer. E morrer. O ventre da mãe é o único ponto de partida para todos os caminhos do mundo”, e isso me enche de esperança.
Kátia Nascimento – escritora brasileira, doutoranda em Literatura de Língua Portuguesa, pela Universidade de Coimbra. kn.katianascimento@gmail.com


