NOS últimos tempos, as cidades de Maputo e Matola, vilas de Marracuene, Boane e Matola-Rio, na Área Metropolitana do Grande Maputo, bem como Xai-Xai, em Gaza; Beira, em Sofala; Quelimane, na Zambézia, registam inundações cíclicas, que destroem infra-estruturas e desalojam milhares de famílias.
Na maioria dos casos, famílias que haviam regressado às origens na sequência do abrandamento temporário das chuvas são obrigadas a retornar aos centros de acolhimento, porque as suas zonas residenciais estão em risco de novas inundações ou voltaram a estar alagadas devido à ocorrência de novas precipitações ou transbordo de rios.
Tudo isto acontece numa altura em que o Instituto Nacional de Meteorologia alerta que o aumento do nível do mar e a intensificação de fenómenos extremos colocam mais cidades costeiras moçambicanas em risco de vulnerabilidade a inundações.
Para além disso, o Relatório do Estado do Clima de Moçambique de 2025, divulgado esta semana, evidencia mudanças consistentes nos padrões de temperatura e precipitação.
Trata-se de fenómenos que agravam o drama da população, exigindo do Estado, medidas mais assertivas para a mitigação dos efeitos não só nas pessoas como também na economia.
Algo que a todos entristece é que estradas continuam a ser construídas desprovidas de sistemas de drenagem das águas pluviais, quando se sabe que Moçambique é um dos países mais vulneráveis no mundo, em termos de frequência e intensidade de eventos climáticos extremos.
Um exemplo deste cenário pode ser visto na Estrada Nacional Número Um (N1), a espinha dorsal da circulação rodoviária do país, que ao nível da cidade de Maputo foi alvo de intervenções pontuais, mas que a circulação continua um “bico-de-obra” sobretudo quando chove.
Quem fala de estrada fala também de infra-estruturas públicas como escolas e hospitais que, em certas situações, são implantadas em lugares inadequados e o resultado disso é que ficam inacessíveis na época chuvosa.
Na verdade, em alguns casos, a água mostra o caminho que quer seguir, mas esse caminho é barrado por construções de casas ou estabelecimentos comerciais.
Não ignoramos as dificuldades financeiras que os órgãos de governação descentralizada enfrentam, mas também é verdade que quando tentam intervir, os paliativos que adoptam acabam gerando novas zonas de propensão. Bairros outrora considerados seguros deixaram de sê-lo porque as águas das chuvas foram encaminhadas para ali, criando novos desalojados.
E porque o cenário de inundações não é novo, municípios como Maputo e Matola, chegaram a mapear as áreas de risco, identificar soluções, mas os projectos resistem a sair do papel.
Neste contexto, entendemos que as valas de drenagem prometidas sejam efectivadas e as estradas em construção nas áreas urbanas devem incluir sistemas de drenagem para evitar novas desgraças.
Pela emergência da situação, até para o benefício da saúde pública, defendemos que não se pode mais investir em estudos prolongados. Há que se partir para a acção combinada, uma acção que salve de uma vez por todas as pessoas e a economia, porque o impacto das mudanças climáticas não está adiado. É já uma realidade.


