Director: Júlio Manjate   ||  Directora Adjunta: Delfina Mugabe

NO final dos anos 1980, mais de uma década depois da independência nacional, a juventude andava eufórica, procurava expressar-se, dar o seu contributo à nação em construção. Várias organizações juvenis surgiram, mas a “Continuadores da Revolução Moçambicana” até hoje ainda tem as suas marcas firmes.

Foi com o contributo desta agremiação que surgiu a Associação Cultural Girassol, criadora do Festival Internacional Teatro de Inverno (FITI). Esta iniciativa anual já vai na 15.ª edição, cuja última foi realizada no pretérito fim-de-semana nas principais salas de espectáculos da cidade de Maputo.

O evento é palco para o nascimento de grupos, actores, encenadores e outras personagens ligadas às artes cénicas.

Não obstante os 15 anos de existência, este festival ainda procura maiores apoios para que o teatro alcance um público mais vasto e existam meios para que os artistas possam subir e descer do palco sem queixas.

“O nosso objectivo principal é apoiar os grupos amadores de teatro através da divulgação do seu trabalho artístico, associativismo cultural e formação de actores, tendo inicialmente sido de carácter competitivo”, vincou Joaquim Matavel, presidente da associação Cultural Girassol, organizadora do festival.

O FITI arrancou no último final de semana de Maio e teve a participação de 25 grupos provenientes de diferentes pontos do país e de outras paragens do mundo, como Angola, África do Sul, Portugal e Argentina.

Nesta edição, as principais salas de eventos culturais da capital do país, nomeadamente Teatro Avenida, Cine Teatro Gil Vicente, centros culturais Franco-Moçambicano e Brasil-Moçambique e Fundação Fernando Leite Couto acolheram vários espectáculos, numa festa que vincou a importância e o valor das artes cénicas em Moçambique.

Último dia da 15.a edição

A AVENIDA 25 de Setembro, cidade de Maputo, seguia o seu ritmo. Os carros rosnavam. O vapor dos motores era o perfume indesejável consumido pelas pessoas no passeio. O palco do Teatro Avenida estava vazio. A escuridão reinante era a líder e “ditadora vitalícia” daquela sala.

A entrada do Teatro Avenida estava apinhada de gente. Não se tratava de nenhum desses protestos a que nos habituamos a ver pelas ruas e esquinas das avenidas. Mas sim era gente amante do teatro que ali estava de pé para assistir a peça “Munhama”, do grupo teatral Makweru.

Invulgarmente, a trama do grupo Makhweru foi adaptada para um palco alternativo: a entrada do Teatro Avenida. O elenco é jovem, composto pelos actores Danito Banze, Orlando Intimane, Jeff Maria, Cesária Vuende, Jhon Thomas e Festinhas.

Os personagens falavam de vários assuntos, mas o principal era o medo. Sim, o temor de perder os órgãos, a dignidade, não só, nas mãos dos famigerados “Tatá Papá, Tatá Mamã”.

A trama da peça, escrita e encenada por Estreanty (nome artístico de Ernesto Langa), é inspirada num conto tradicional e em factos reais. “Nasci no bairro da Polana-Caniço e ouvi muitas histórias, reais e fictícias. Como artista, investiguei alguns factos sociais e usei depoimentos dos residentes dali, da população (senso comum) para criar a peça”, acrescentou.

Entre troca de acusações, preconceitos e desconfiança, crianças e indivíduos portadores de problemas de pigmentação da pele (albinos) eram capturados para saciar apetites infundados.

Na actuação, sentiu-se que o agrupamento investiu em “falas a solo”. Os actores entravam em cena e expressavam sentimentos de indignação, dor, raiva e insatisfação.

Estreanty afirmou que investiu nos movimentos corporais dos actores e na trilha sonora, músicas tradicionais para dar cor a “Munhama”. É ambição do encenador levar a peça para outros palcos.

Para fechar o evento, entrou o grupo angolano “Enigma”, que brindou o público com a obra “A Grande Questão”.

Humor e reflexão marcaram a peça que mostra a relação entre o povo e a sua capital. Adaptada ao contexto moçambicano, por mais de 30 minutos a plateia gargalhou até lacrimejar.

Mas o festival não foi composto de duas peças. O FITI foi o palco de obras como “As Visitas do Dr. Valdez”, da companhia (In)Versos; “Esperança”, do agrupamento “Girassol”; duas companhias sul-africanas, “This Are Not My Shoes” e “Angel With Horns”, entre outras.

Génese e maturação do “Girassol”

TARDE ensolarada, Jorge Daniel e Saturnino Neves, então integrante do Colectivo de Teatro Zomola, da Escola Secundária Francisco Manyanga, receberam da “Continuadores” uma missão: formar um grupos de teatro.

Jorge Daniel acreditava que para criar um grupo de dança séria; é, menos árduo, pois é, relativamente, fácil identificar um indivíduo que sabe executar movimentos corporais de forma artística.

O que fazer? “Seleccionei meninos de 11 a 12 anos, extrovertidos e que sabiam declamar poemas. Deles estavam Joaquim Matavel”, disse Daniel, acrescentando que naquele dia iniciou uma jornada.

A relação entre estes dois indivíduos deu frutos e Matavel mostrava o que aprendia aos demais colegas. “Ele tem o dom de ensinar”, afirmou Eliott Alex, contando que o presidente da associação Cultural Girassol é responsável pela formação de uma geração de dramaturgos.

A primeira peça que o agrupamento exibiu foi em homenagem ao primeiro Presidente de Moçambique independente, Samora Machel. Designava-se “Nós Recordamos Papá Samora”.

Falas longas, diálogos inspirados em factos reais, a trama recebeu grande aceitação e fez os membros do colectivo pisarem grandes palcos. Além disso, surgiu a confiança das famílias dos actores, que acompanhavam a peça com entusiasmo.

Mano Quim, como é carinhosamente tratado, contou que com o decorrer dos anos o agrupamento cresceu e foi registado com a denominação da Associação Cultural Girassol, abarcando o teatro e a dança. A evolução foi natural e o colectivo separou-se da “Continuadores”, ganhando a independência. As antigas crianças, como Mano Quim, passaram a monitores e disseminaram os seus conhecimentos.

“Somos uma escola, formamos adolescentes e jovens como fazer as artes cénicas. Temos apresentações, esporadicamente, para manter o nosso público”, disse Quim.

Longe da Casa Velha, grande parte das apresentações do “Girassol” acontecem no Teatro Avenida. O quotidiano, as peripécias do dia-a-dia e as injustiças sociais são os temas marcantes da agremiação.

Apesar dos anos, o colectivo ainda reclama por um espaço próprio para a execução das suas actividades.

Futuro do festival

DESDE 2014 que o Festival Teatro de Inverno é tradição. No entanto, anualmente a Associação Cultural Girassol passa pelas mesmas provações, bate as mesmas portas e procura apoios para que o evento se materialize. Existem várias frases para descrever o cenário, mas a essencial é: “ainda faltam fundos fixos para sustentar a iniciativa”.

Existiram anos que foi uma ginástica obter, ao menos, 50 por cento do orçamento geral necessário para a produção do evento. Hoje, mais maduro, Joaquim Matavel prefere não apontar culpados, mas promete trabalhar para reverter o cenário.

Muita das vezes “é nossa responsabilidade, como ʻGirassolʼ, garantir a alimentação e alojamento dos grupos de teatro que participam do FITI, sejam estes das províncias ou internacionais”, anotou, acrescentando que existiram casos em que, por falta de valores, os organizadores acolheram os hóspedes nas suas residências.

É que, para Joaquim Matavel, o festival são mais de quatro semanas de intensas batalhas. Embora haja constrangimentos, Mano Quim conta que os organizadores têm persistido, pois, acreditam nesta causa.

“O motivo da persistência, mesmo com tantas dificuldades, deve-se ao facto de o evento ter si tornado numa tradição para os fazedores de teatro amador. Este também serve para que os diversos grupos que não têm onde apresentar os seus trabalhos o façam quando chega o período de Maio e Junho”, salientou.

Festival homenageia o seu director

AO cair do pano, o director artístico do evento, Elliot Alex, chamou Jorge Daniel. Na primeira pessoa, o primeiro professor de Joaquim Matavel contou o percurso do seu aluno.

Mais do que formar um actor e encenador, Jorge participou na construção de um homem. “Acabei conhecendo a família de Matavel, com a qual travei várias conversas intensas. Entre nós foi criada uma relação que perdura até hoje”, conta.

A directora do Teatro Avenida, Manuela Soeiro, afirmou que deve ser exaltado o papel dos organizadores desta iniciativa, particularmente do seu mentor, que é “responsável por um dos maiores, para não dizer o maior festival de teatro do país. O meu muito obrigado a esta personagem”, ressaltou.  

O presidente da associação Cultural Girassol não conteve a emoção quando a mãe, Feliciana Mahlahla, subiu ao palco com um buquê de flores. Sem usar palavras, a progenitora de Joaquim forçou a circulação de lágrimas na face do homenageado.

“Ela acompanha as apresentações desde o início...”, disse entre gaguejos e tremedeiras. Para culminar a homenagem, a família do presidente da associação subiu ao palco e juntos entoaram um canto religioso que ressalta a coesão do agregado.

Sem palavras, entre suspiros, depois da entoação, Joaquim Matavel simplesmente respirou fundo, fechou os olhos como quem reza e pede a Deus para que lhe dê forças para suportar mais edições do Festival do Teatro de Inverno.

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