As temperaturas baixas de Maio, na cidade de Maputo, já não se podem gabar de ser as únicas protagonistas. O Festival Azgo, na sua nona edição, que decorreu no último fim-de-semana é disso prova.

Com uma programação de três dias, três espaços e cinco palcos. Na sexta-feira, na abertura, o mega evento ocupou o Centro Cultural Franco-Moçambicano (CCFM), no sábado a programação principal decorreu no Campus Principal da Universidade Eduardo Mondlane (CP-UEM) e no domingo, num novo passo, foi no campinho da Mafalala.

Nos palcos da Sala Grande e do Jardim do CCFM, Zena Bacar e Fany Mpfumo no CP-UEM e, (o desaparecido) Gil Vicente, o “Azgo” exibiu uma abordagem diferente da que foi habituando nas anteriores edições.

Os alinhamentos deste festival sempre foram no sentido de trazer bandas e músicos que apostam em géneros musicais alternativos que poucas vezes furam e se posicionam no mainstream. Não que o popular estivesse absolutamente ausente, mas jamais foi tão dominante.

A presente edição deu lugar aos discursos que, no nosso contexto, pode-se considerar o pop. Nesse exercício deu oportunidade para que outras formas discursivas, linguagens, tidas como periféricas nos circuitos mais críticos pudessem exibir-se.

A curadoria, nesse sentido, como que num flashback, foi buscar desde as referências dos anos 90, que muito influenciaram a juventude de então, passando pelos princípios dos anos 2000.

Os sul-africanos TKZee, a moçambicana Safira José são, talvez, os exemplos mais significativos. A prova, aliás, foi a vibração, evidente nos coros em uníssono de seus eternos sucessos por parte do público apesar de muitos anos distante.

Mas não parou no tempo. Veio até a actualidade, para abrir as páginas de performances como as do jovem Mecias Maricoa, que teve uma das prestações mais notáveis da nona edição do festival, e do cabo-verdiano Nelson Freitas. Ou ainda, as moçambicanas Anita Macucua, Marlene e Mr. Bow.

O Azgo foi ainda uma oportunidade para observar que algumas atitudes que se condena no país de artistas músicos que optam pela pornografia gratuita para suportar as suas performances, não são isoladas.

Moonchild, cantora sul-africana, que percorre no estilo urbano que ela designa “Futuro gueto punk” é justamente isso: nudismo como parte do espectáculo. A sua presença em palco é uma negação ao politicamente correcto, entretanto não se percebe o que reivindica.

Por outro lado, o público diverso que esteve no Campus Principal da Universidade Eduardo Mondlane não se pode queixar da disposição do espaço, localização dos lavabos, dos bares e afins.

Seguindo o rumo das tecnologias, de modo a flexibilizar as compras, a organização disponibilizou um serviço electrónico de compra e venda de bebidas e comidas. Com o cartão recarregável, podia-se então beneficiar-se de qualquer serviço a disposição.

Uma das surpresas desta edição foi a aparição de marionetas gigantes, “os pernas de paus”, acrobatas a cuspir fogo com o tambor a rufar nos dois palcos. O público que, a cada performance tinha de rumar para outro palco, viu-se parado a contemplar. O “circo” acontecia no meio do espaço onde o festival decorria.

Azgo ressuscita Tuku

No mês de Janeiro, os organizadores do “Azgo” tiveram um contra-tempo, perderam um dos seus convidados. Mas não foi só o festival que perdeu, Zimbabwe ficou órfão, África chorou a partida de um dos seus maiores músicos.

Ainda com a raiva da morte, decidiu-se que era imperioso prestar homenagem a esta voz emblemática na nona edição do evento. Travou-se os primeiros contactos com a banda fundada por Oliver Mutukudzi, “Black Spirit”.

A curadoria da homenagem seleccionou artistas nacionais e estrangeiros que conheceram Tuku, como era carinhosamente tratado, e que dele construíram bases para fortificar carreiras e cimentar relações. Foram arrolados inúmeros músicos. No final, na lista constavam os nomes de Stewart Sukuma, Xixel Langa, Yolanda Kakana e Kaliza. Mas faltava algo, assim surgiu a ideia de chamar Mbeu, o músico zimbabueano que teve a oportunidade de dar os primeiros passos na música por intermédio de Oliver Mtukudzi.

Paulo Chibanga, director do festival, disse que o Azgo encontra na obra de Oliver Mtukudzi uma fonte inesgotável de inspiração para as novas gerações. Entende que é preciso que se crie espaços para preservar o grande legado do artista.

“Foi para nós uma honra receber os 'Black Spirits', uma banda que viveu de perto todos momentos daquele que em vida sempre se preocupou em empregar na música um conjunto de valores, como a passagem de testemunho e o compromisso de através do seu trabalho os artistas iluminarem a humanidade”, considera Paulo Chibanga.

Oliver Mtukudzi, prosseguiu, desapareceu fisicamente, entretanto, vai neste e noutros tempos continuar vivo pela voz, pelas composições e sobretudo pelas consciências que conseguiu influenciar nos seus mais de 50 álbuns. É uma vida inteira dedicada a arte, a cultura e a humanidade.

No dia da homenagem, sábado, no Campus Universitário da Universidade Eduardo Mondlane, antes de entrar ao palco, os integrantes da banda “Black Spirit” e Mbeu reuniram-se. Juntaram forças, invocaram a motivação de Tuku,

Nas primeiras quatro músicas eles estiveram sós. Para preencher o vazio, convidaram Xixel Langa, que partilhou pela primeira vez o palco com Tuku, no ano de 2017. “Foi num festival internacional. Ele era um artista completo e uma pessoa singular, um ser humano cheio de qualidades”, disse, depois da actuação.

Yolanda Kacana e Kaliza também mostraram a sua afinidade com o artista zimbabueano, interpretando as suas músicas. Conectados com a banda, os presentes por instantes acreditaram na ressurreição e juraram que Oliver estava vivo.

Para interpretar um dos temas célebres de Tuku, “Todii”, entrou em cena Stewart Sukuma. Encarnando o espírito líder de Mtukudzi, o moçambicano comandou a banda de forma “descarada”. Seguro em palco, trouxe um tema memorável, “Guardians of The Light”, que interpretou com Oliver no seu disco duplo, “Boleia Africana” e “Sete pecados”.

Um dos momentos mais marcantes do concerto foi a entrada de todos os músicos. Juntos fizeram uma corrente. A banda e Mbeu deram todo de si, os nacionais transpiraram energia, cantaram com alma, invocaram o espírito de Tuku, que se fez presente e celebrou.

No final, Xixel langa disse que não era um simples tributo, mas o reconhecimento de um homem de arte, activista dos direitos humanos, embaixador da música zimbabueana e africana no mundo.

A visita a Mafalala

O “Azgo”, diga-se, a cada edição, dá aulas de produção. No domingo, no histórico campinho da Mafalala, onde José Craveirinha descobriu Maria de Lurdes Mutola, o festival foi, a busca de inclusão.

Consciente da necessidade de formar novos públicos e com de modo a dar acesso a mais pessoas, o festival levou, em parceria com a Iverca e OTHAMA, alguns músicos para aquele espaço.

Era meio da tarde quando começou, o movimento não fugia muito do habitual, pois, normalmente, nesse dia de semana, há jogos de futebol, o Torneio 6:30 (Seis e meia). Mas foi quando a noite tornou-se um facto consumado que o espaço ficou abarrotado, inviabilizando a circulação de viaturas na Rua de Goa e o Eusébio, que cruzam a sua esquina justamente em frente ao campo.

Na ocasião tiveram a possibilidade de absorver a “Metamorfose”, de Isabel Novella, entre outros trabalhos de Safira José. Mas foi mesmo ao som das bandas locais que o público atingiu o delírio.  

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