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CONHECI o Makhombo, faz tempo, por intermédio de um amigo, o Vitorino Mazuze, algures no bairro do Txumene, na Matola. Mazuze, também conhecido por homem de chapéu, é um jovem com preponderâncias na sociedade: no desporto, na cultura, na política e até na Igreja.

Mas não é do Mazuze que pretendo falar. É, sim, do Rodrigues Nhantumbo, mais conhecido por Makhombo.

Homem sem filtro nas palavras, Makhombo diz de tudo quanto lhe vai à alma. Vale a pena “queimar” algum tempo a conversar com este homem, trocando experiências da vida. O seu fanatismo religioso contrasta com um dos mandamentos da Lei de Deus: não matar. Não que ele queira matar, mas sim pela esperança que sempre acalentou de ver um “agente” morrer, com a mesma espada com que alegadamente matou milhões.

Com saudades do Makhombo ensaiei, semana passada, uma passeata a Txumene para “dois dedos de conversa” com este antigo miliciano, hoje empregado doméstico. Falamos da saúde de ambos, dos tempos em que ele perdia noites, não na boémia, mas sim, vasculhando as “saliências e reentrâncias” dos bairros, impondo a lei e ordem. Tal era a função e atribuição do miliciano. Aliás, o tempo, nessa altura, não era bom, pois, o país encontrava-se em conflito armado, cujas feridas continuam por sarar, décadas após a assinatura do Acordo Geral de Paz.

Ao falarmos das vicissitudes por que passou, enquanto miliciano, e das graves consequências que a guerra causou, a si e a milhões de moçambicanos, Makhombo lacrimejou, principalmente ao se lembrar de que tal conflito era dirigido por um horroroso “general de cinco estrelas”.

Contrariamente a uma franja da sociedade que se compadeceu com o óbito do “general”, Makhombo pediu perdão a Deus dizendo que não dispunha de lágrimas para derramar por alguém que matou, ou mandou matar, destruiu e desgraçou famílias. Argumentou que ele próprio está na desgraça, ainda hoje, por culpa e tão grande culpa daquele guerreiro.

Durante a juventude, Makhombo não pôde ir à escola porque teve de cuidar de parte da família, desagregada na sequência da guerra. Um pouco mais adulto abraçou, durante anos, as fileiras dos terríveis milicianos., aqueles homens, muito maus, que “vasculhavam” os bairros exigindo o BI e o cartão de residente. Ai de quem não os tivesse.

Hoje, casado e pai de seis filhos, Makhombo sobrevive na base do mísero salário que lhe é devido pelo patrão e de alguns proventos colhidos na machamba, o que, entretanto, não é suficiente para o sustento da sua família.

Apesar das dificuldades por que passa, Makhombo não esconde o desejo de, num desses dias, preparar uma refeição melhorada para, juntamente com a esposa e filhos, celebrar o desaparecimento do chefe político – militar. Sim, é isso mesmo. Entende ele que a partida do “general” é algo que o alivia, a julgar pelo sofrimento que causou a milhares de famílias moçambicanas, incluindo a sua.

Makhombo não sabe ao certo quando terá dinheiro para a desejada confraternização. Porém, tem a certeza de que um dia, o almoço vai acontecer. Se, de imediato, tivesse um donativo de uma galinha, sim, apenas uma, faria esforço para a obtenção de algumas “tombozanas” – ele não bebe álcool - para a cobiçada festa de arromba, em celebração daquele infortúnio.

Propositadamente, não o ofereci nenhuma ave nem refrigerante para não ser cúmplice de alguém que festeja o decesso do próximo.

Ao me despedir, senti nele a crença de que de algum lado virá a galinha e o refresco para a festa da família Makhombo. 

Salomao Muiambo-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

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