QUANDO um menino de cinco anos, residente no Xipamanine, queixou-se de diarreias e vómitos, no início de Janeiro, a família e a vizinhança mal imaginava que estaria perante o primeiro caso de cólera que viria a ser confirmado a 5 do mesmo mês. Hoje o surto é dado como vencido, mas as condições que levaram à sua eclosão ainda estão bem patentes em alguns bairros suburbanos da capital.

Lixo misturado com água estagnada, latrinas sem tampa, dejectos humanos mal acondicionados e fossas rebentadas, são algumas das situações bem visíveis e que chamam à atenção para a necessidade de redobrar a vigilância.

A situação é particularmente crítica nos bairros Luís Cabral, Ferroviário, Chamanculo, Xipamanine e Maxaquene “B”, apesar do trabalho de sensibilização para a observância de medidas de higiene individual e colectiva. 

O superpovoamento, as construções desordenadas e a falta de condições de habitabilidade nalguns destes locais, devido ao elevado nível freático, contribuem para piorar a situação.

Aliado a estes factores, algumas pessoas continuam a ingerir água não tratada e alimentos sem antes lavar as mãos com água limpa e sabão ou cinza, contrariando as recomendações da Saúde.

Outras têm por hábito limpar os quintais e depositar o lixo na rua o que, segundo a Directora de Saúde da Cidade de Maputo, Alice de Abreu, contribui para a contaminação dos solos e criação de um ambiente favorável ao desenvolvimento de microrganismos causadores de diarreias.

“Ao longo dos anos conseguimos aumentar o número de latrinas e de sanitários, mas há zonas não adequadas para habitação, com pessoas a viver lá sem condições sanitárias. O nível freático é elevado”, chamou a atenção.

Durante os meses de Janeiro a Abril, que durou o surto de cólera, foram feitas análises de amostras de água, alimentos e utensílios de algumas famílias com pacientes de cólera. Ficou-se a saber, a título de exemplo, que 21 por cento da água consumida continha microrganismos prejudicais à saúde, tais como coliformes fecais ou totais.

“A água deve ser tratada a cada 24 horas que é o período em que a certeza tem efeito. Significa que depois daquele momento é preciso voltar a tratar a água”, indica.

O rapaz de cinco anos, teve sorte porque a família procurou rapidamente por assistência hospitalar.

Segundo recomendações da saúde, é assim que as famílias devem proceder sempre que um membro apresente sintomas de diarreia e vómitos porque pode ser cólera, uma doença que mata em menos de 24 horas se o paciente não tiver uma assistência adequada. Na capital do país, a epidemia afectou cerca de 400 pessoas e matou uma este ano.  

Desafio constante

Os doentes eram encaminhados para o Centro de Tratamento de Doenças Diarreicas, em Mavalane, transferidos dos serviços de urgência do Hospital Geral José Macamo, Mavalane, Bagamoyo e Ximpamanine.

Após a confirmação do primeiro caso a 5 de Janeiro, o número de doentes cresceu atingindo o pico de 86 doentes nas semanas seguintes. A maioria era do sexo masculino.

Alice de Abreu explica que o surto coincidiu com o registo de chuvas intensas e consequente degradação das condições de saneamento do meio, aliado às restrições no fornecimento de água.

Garantir o fornecimento de água e saneamento adequado para todos tem sido um desafio no país, segundo Artur Matavele, da WaterAid Moçambique que aponta que cerca de 50 porcento da população não tem acesso a água potável e 75 porcento a saneamento seguro. Este problema tem efeitos negativos na vida da população que fica exposta à doenças como diarreias.

Travar o surto implicou a mobilização de equipas da saúde e voluntários que de porta-a-porta iam analisando as condições de saneamento do meio, a forma como era tratada a água, alimentos e utensílios.

“Fiquei impressionado com o estado de degradação de algumas latrinas no Bairro Luís Cabral. Os dejectos transbordavam, não havia tampa, mas a família continuava a fazer o uso, contra todos os riscos”, contou Lútero Cuamba, responsável pela vigilância epidemiológica (controlo de doenças) na cidade de Maputo.

Quando havia suspeita de cólera fazia-se a pulverização com cloro. O trabalho era estendido para as casas circunvizinhas para garantir o bloqueio da doença.

“Recebíamos a informação através dos secretários dos bairros e líderes comunitários sempre que houvesse suspeita de casos de diarreia e alguns pacientes tiveram que ser recolhidos das residências fora os transferidos das unidades sanitárias”, disse Alice de Abreu.

Durante as visitas, as famílias eram ensinadas como cuidar da água, dos alimentos e dos sanitários. Outras recebiam soro de hidratação oral para pacientes com diarreias e purificadores de água como a certeza:

“Realizamos 5.900 visitas porta-a-porta e 5053 palestras que alcançaram 39952 pessoas. Pulverizamos 498 casas, distribuímos 4414 certezas e 1031 frascos de soro para o tratamento de diarreias”, apontou Alice de Abreu.

Limpeza permanente

Esta não foi a primeira vez que a cidade de Maputo registou surtos de cólera. O último foi em 2011. Por cada epidemia, a Saúde vai aperfeiçoando a resposta. A aposta actual, segundo Cuamba, é continuar a manter a educação sanitária todo o ano para que as famílias possam, paulatinamente, assumir a responsabilidade de garantir a saúde individual e colectiva.

Em locais visitados pelo “Notícias”, apuramos que algumas famílias não têm por hábito tapar as latrinas e desinfectar a água para o consumo e só usam purificadores quando são oferecidos pela Saúde. Noutros casos, a certeza é usada para tirar nódoas na roupa.

“A responsabilidade pela saúde tem que ser individual e o sector reforça com palestras de sensibilização para que as pessoas saibam como ter uma vida saudável. Ter certeza para tratar água, ter uma latrina em condições, não precisa ter sanitário convencional; tapar a latrina, depositar o lixo no lugar certo deve ser minha responsabilidade em casa”, disse.

Segundo Cuamba, quando a areia tem fezes ou microrganismos pode contaminar a criança que ali brinca e quando chove tudo aquilo que pensei que empurrei para a rua volta para a casa.

“No final vou gastar um pouco mais do que tinha para investir em saúde, mas eu posso prevenir que é mais barato do que curar”, afirmou.

Ter um membro da família doente é motivo para preocupação, pior quando o paciente é um bebé a padecer de uma doença letal como a cólera.

“Vivemos momentos difíceis. Entrei em desespero quando a criança começou a vomitar e a ter diarreias sem parar”, disse Amélia João, 30 anos, mãe de uma criança que ficou infectada. Passar por estes momentos serviu de reflexão para a família que, segundo Amélia, teve que mudar da forma como tratava a água de tal jeito que não se esquece de usar o balde-purificador que recebeu.

“Não quero voltar a viver estes episódios ”, comprometeu-se.

Ela vive no bairro Luís Cabral, próximo do Porto de Maputo, numa zona onde as ruas denunciam défice de saneamento devido ao elevado nível freático.

Nas proximidades vive Joana Cossa que enquanto estava internada em Mavalane, viu a irmã a ser trazida ao local com os seus três filhos padecendo de cólera.

“Fiquei assustada e não quis acreditar. Graças a assistência da saúde, melhoraram e já estão bem”, indicou.

Para evitar situações similares, Joana e os filhos dizem que aprenderam a ter mais cuidado com a água e os alimentos que consomem.

“É difícil seguir todas as regras, mas vale a pena. A saúde é importante que tudo. Ter toda a família doente serviu de lição para mim”, admitiu apelando a todas as famílias a acatarem a mensagem das autoridades de saúde que aponta para a necessidade de “lavar as mãos com água e sabão ou cinza depois de usar a latrina, cuidar e tapar do sanitário, usar certeza ou ferver a água para evitar diarreias”. 

 

EVELINA MUCHANGA

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