É COMUM a sociedade respeitar os cemitérios como espaços dedicados ao eterno descanso dos seus entes. Todavia, não é o que acontece no São Francisco Xavier, transformado em abrigo de pessoas de conduta duvidosa, um problema antigo que entretanto ainda inquieta os citadinos.

O cemitério, localizado no bairro Central, uma das zonas privilegiadas da capital, foi encerrado, antes da independência e tornou-se, nos dias que correm, em refúgio de malfeitores que, em plena luz do dia, assaltam e roubam bens de pessoas que passam das imediações ou esperam pelo transporte na paragem, vulgarmente conhecida como “Ronil”.

O “Notícias” confrontou-se, no local, com um cenário invulgar. Cabanas improvisadas, roupas penduradas nos túmulos ou nos arbustos que cresceram por entre as campas, caixões vandalizados e jazigos transformados em “casa” dos vivos. Em cada canto deste lugar santo emerge um mistério.

De todos eles, chamou-nos atenção a parcela das campas dos militares portugueses que aparentemente é respeitada pelos “predadores”, a avaliar pelo nível de limpeza.

Adriano Megueche, de 57 anos, guarda do Cemitério São Francisco Xavier desde 2016, após ser transferido do de “Lhanguene”, contou-nos que os malfeitores, com idades entre 12 e 30 anos, também usam o local para o consumo de drogas.

“Eu saio daqui a meio da tarde pois, sem meios de defesa, corro diversos riscos. O crime envolve também adolescentes que chegam aqui aliciados por outros que já estão nesta vida e acabam seguindo o mesmo caminho”, explicou. 

Mulheres são as principais vítimas

As mulheres indefesas são muitas vezes surpreendidas pelos malfeitores e acabam por ser as principais vítimas das investidas destes.

Junto à entrada principal do cemitério São Francisco de Xavier, localiza-se uma paragem de transportes semicolectivos de passageiros. Noutras situações, Os “novos habitantes” deste local infiltram-se entre os passageiros aflitos em tomar o “chapa”, sobretudo nas horas de ponta, para surripiar os seus bens. 

Marta Sitoe, de 57 anos, vendedeira de fruta na esquina entre as avenidas “Eduardo Mondlane” e a “Karl Marx”, desde 1988, lembra-se das várias vezes que viu senhoras e meninas desesperadas, momentos depois de terem sido despojadas dos seus pertences.

Contou que, certa vez, teve que pagar o transporte para uma estudante, que nesta paragem ficou sem a sua carteira contendo documentos e dinheiro.

Aliás, bilhetes de identidade, crachás e cartões de banco encontrados no interior do cemitério são o espelho das investidas dos malfeitores. Segundo soubemos, após cometerem os criminosos pulam o muro, não dando hipótese de intervenção de quem quer que seja.

A vigilante dos balneários públicos da paragem “Ronil”, que se identificou pelo nome de Sara, contou que foi graças à intervenção de alguns taxistas que escapou dos amigos do alheio.

“Várias vezes, eles tentaram roubar o dinheiro das cobranças do uso dos sanitários, mas nunca lograram as suas intenções devido à ajuda dos taxistas”, disse, solicitando a intervenção das autoridades, com vista a reverter o cenário.

Polícia no terreno

Perto de 20 pessoas que têm o cemitério como albergue recolheram às celas, numa operação desencadeada pela Polícia em Março do ano corrente, facto que resultou numa relativa calma na zona, segundo Lucas Marizane, Comandante da 6.ª Esquadra.

Agora, os larápios estão a retornar, gradualmente, ao cemitério, a medir pelas queixas que voltaram a se avolumar. Isto acontece apesar de sucessivas operações. Por isso mesmo, de Junho a esta parte, a Polícia optou por intensificar as patrulhas, com vista a reverter o cenário.

Marizane afirmou que tal está a resultar em melhorias em termos de segurança e consequente redução dos assaltos, apesar de reconhecer que há necessidade de continuar a agir contra os marginais.

Outra solução, segundo Marizane, passará pela reactivação de patrulhas comunitárias, nos locais mais críticos.

No seu entender, tal iria facilitar a captura dos larápios, estratégia que também culminaria na recuperação de bens das vítimas e responsabilização dos visados.

“Muitas vezes, os malfeitores ficam impunes e as vítimas não chegam a recuperar os seus bens. Por isso, temos as atenções centradas na reactivação do patrulhamento comunitário, um elo importante para a corporação”, disse. 

Uma operação que Marizane considera estratégica, consistiu no desmantelamento de diversos focos de malfeitores, que se faziam passar por mendigos. Contou que pracetas, jardins comunitários e campos de futebol tinham sido transformados em abrigos dos meliantes.

“Os bairros da Malhangalene e Central, por exemplo, albergam muitos focos de pessoas com conduta indesejável. Em colaboração com as autoridades locais, conseguimos desmantelar os esconderijos”, disse.

Fundos para o reaproveitamento

O Município de Maputo tem em carteira um plano para a transformação do cemitério, mas ainda não dispõe de fundos para a sua implementação, segundo Domingas Pinto, directora-adjunta de Salubridade e Cemitérios.

“A Polícia da República de Moçambique e a Municipal prestam algum apoio no domínio de segurança dos cemitérios, mas só num determinado período. Por isso, estamos a equacionar estratégias no sentido de se criar uma força de segurança, que poderá trabalhar 24 horas ao dia”, explicou.

O plano consiste também na reabilitação da capela existente no São Francisco Xavier, que deverá ser aproveitada para velórios.

“A ideia não é reactivar o cemitério, mas sim pôr em funcionamento o edifício para velórios, o que poderá aliviar a habitual demanda na capela do Hospital Central de Maputo (HCM)”, frisou.

Entretanto, segundo Pinto, enquanto decorre a mobilização de fundos e parceiros, o seu pelouro está com as atenções centradas no tapamento das jazidas transformadas em dormitórios. 

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