AS horas reservadas ao repouso, para quem vive nas zonas suburbanas das cidades de Maputo e Matola, já não são as mesmas faz tempo.

O descanso, que é merecido, tem que ser interrompido ainda madrugada para não perder a possibilidade de chegar cedo ao local de trabalho, de ensino ou mesmo de outros afazeres que constituem a rotina dos citadinos, devido à prolongada crise de transportes que se abate sobre a área metropolitana de Maputo.

Para muitos o recurso tem sido mesmo os “mylove”, que nem sempre chegam ao destino porque o encurtamento de rotas virou moda.

Situações há em que os cidadãos se veem na contingência de negociar com os cobradores para conseguir um espaço e seguir viagem, sujeitando-se, muitas vezes, a humilhações de vário tipo.

A dado momento, até os inseguros “myLove” também faltam, e quando surge um na paragem é “destinado” aos mais fortes, que se digladiam para aceder a uma viagem da qual o sentimento é de alívio quando se chega ao destino. “Na falta do melhor, o pior serve”, diz o velho ditado.

Perante esta realidade, cidadãos há que se assumem como visitantes em suas próprias casas porque nelas permanecem apenas para um curto repouso e pouco convivem com as famílias, em especial com as crianças, que estão a dormir quando o chefe de família parte à busca do pão e quando regressa ao domicílio.

É o caso de Reginaldo Cossa, residente em Marracuene. Encontrámo-lona Praça dos Trabalhadores, pouco depois das 16.00 horas, à espera do transporte que o levaria à casa. Contou ter chegado ao local por volta das 14.00 horas e ainda não tinha logrado o seu objectivo.

Devido à crise do “chapa”, acrescentou, é obrigado a levantar-se às 3.30 horas para se preparar e fazer-se à rua, para apanhar o comboio. Quando tem que recorrer ao “mylove”, tem que ir até o Terminal do Zimpeto, de onde toma um autocarro até a baixa da cidade.

“Em média gasto cerca de 35 meticais para chegar ao meu local de trabalho, porque sou obrigado a apanhar entre três a quatro chapas”, disse.

Gilda António reside na Matola-Gare, município da Matola, e conta que todos os dias percorre cerca de cinco quilómetros para chegar à estação do comboio. Uma vez na baixa, segue de “chapa” para o Museu, seu local de trabalho.

“A hora em que acordo e estou na rua corro riscos de ser assaltada, porque é muito cedo e a distância até o comboio é longa”, indicou.

Santos Ernesto vive no bairro 25 de Junho, mas disse que sofre para chegar ao serviço porque os semicolectivos passam da sua paragem superlotados.

“Não tem sido fácil apanhar transporte nas paragens intermédias. A nossa salvação tem sido as carrinhas de caixa aberta”, disse. 

Eurico Macamo, morador da Zona Verde, apontou que a precariedade das vias de acesso não permite que os automobilistas sejam flexíveis e transportem mais pessoas em curto espaço de tempo.

A crise das transportadoras públicas de passageiros veio agravar ainda mais o cenário. A expectativa dos utentes dos transportes é ver a situação sanada quer por via da anunciada revitalização da Empresa Municipal dos Transportes Públicos de Maputo e da Empresa de Transportes da Matola ou ainda a entrada de mais autocarros e abertura de mais rotas, sobretudo nos bairros em expansão, pode minimizar o problema que sufoca o bolso dos citadinos.

A concessão de rotas recentemente levada a concurso pelas autoridades é vista também como uma “lufada de ar” para o crónico problema da falta de transporte na área metropolitana do grande Maputo.

É verdade que muitas soluções já foram ensaiadas. Já foram adquiridas automotoras para reforçar o serviço ferroviário de transporte de passageiros. Já foram adquiridos barcos (que neste momento não se sabe muito bem onde operam), já se fez a aquisição de mais autocarros, tanto para o sector público como para o privado, mas o problema persiste.

Dados das autoridades dão conta que a cidade de cimento, o destino do emprego da maioria dos cidadãos, regista uma média diária de entradas de cerca um milhão de pessoas que demandam pelos escassos meios existentes.

CA//

EMTPM referência

no meio da crise

A Empresa Municipal dos Transportes Públicos de Maputo (EMTPM) tem estado a esforçar-se para continuar a cumprir com o papel de transportar pessoas, apesar da exiguidade de meios.

Até ao mês de Abril, a empresa transportava acima de um milhão de passageiros, com uma frota de 38 unidades e hoje consegue movimentar dois milhões e duzentas pessoas por mês, graças ao esforço de reparação de alguns autocarros que se encontravam paralisados.

Adelino Bucuane, administrador da Área das Operações na EMTPM, disse que a sua companhia continua a ser referência e apesar da crise continua a transportar mais pessoas.

A fonte disse que para superar as dificuldades está em curso o processo de reestruturação da empresa, o que implicou a injecção de fundos e o reforço da fiscalização nas carreiras.

“O nosso grande problema é a falta de recursos. A actual tarifa não permite a viabilidade da empresa porque não cobre as despesas operacionais, como a manutenção, compra de peças sobressalentes e o reforço da frota”, disse.

O esforço em curso permitiu que estejam a operar neste momento 51 viaturas, resultado da recuperação de vinte e três autocarros, num esforço de garantir o transporte de mais passageiros nas diversas rotas das cidades de Maputo e Matola.

As mesmas foram recuperadas ao abrigo dum memorando rubricado com a Matchedje Motors, que tem experiência e facilidades de aquisição de peças sobressalentes no mercado chinês. No mesmo contexto, espera-se que mais veículos voltem a circular em breve.

“Estamos a trabalhar de modo a cumprir com o nosso papel de transportar pessoas. Pensamos que até final deste ano teremos mais 50 autocarros reparados.Há muitos veículos paralisados não porque são sucatas, mas porque não temos meios financeiros para recuperá-los”, disse Bucuane.

Reforçar a fiscalização é a medida encontrada pela direcção da EMTPM para reduzir as fraudes que lesam, em grande medida, a empresa.

Segundo Bucuane, a companhia está a colocar os melhores profissionais na fiscalização, daí que já há um ligeiro aumento das receitas.

“É verdade que ainda há fragilidades. A introdução do bilhete electrónico é a solução para as fraudes envolvendo os cobradores e passageiros”, precisou.

CA//

ETM “rema” com 14 autocarros

CATORZE autocarros, alguns dos quais com deficiências, é a frota com a qual a Empresa Municipal da Matola (ETM) tem estado a garantir o transporte de passageiros em diversas rotas.

Segundo Eliado Mussengue, porta-voz da ETM, a empresa não tem fundos para a aquisição de peças sobressalentes para a sua manutenção.

“O actual cenário é de crise, por isso tivemos que pensar em novas formas de sobrevivência. Tomamos algumas medidas que não são boas, como por exemplo a diminuição de 140 colaboradores da empresa”, disse.

No mesmo quadro foi lançado um concurso público para o arrendamento dos parques ora ociosos para encaixar algum dinheiro para a aquisição e/ou manutenção dos autocarros.

Mussengue apontou que com o apoio do Fundo dos Transportes e Comunicações (FTC) está a ser possível reparar alguns autocarros.

“Minimizar a crise passa por rever a tarifa, que não cobre os custos de operação. Por outro lado, deve haver uma indicação clara de quem deve cobrir as isenções, totais ou parciais, porque nalguns casos, como na rota para Namaacha, onde temos muitos idosos, antigos combatentes e estudantes que são isentos total ou parcialmente, as carreiras ficam com metade de pessoas que, por lei, não pagam a passagem”, disse.

Entretanto, nove autocarros recém-importados pela Empresa de Transporte da Matola (ETM) sem as especificidades para o exercício da actividade vão entrar em funcionamento, nos próximos dias, uma vez que estão a decorrer as respectivas correcções.

As viaturas de marca VW chegaram ao país, no princípio do ano, com apenas uma porta e com cadeiras perfiladas para o transporte de passageiros de longo curso, razão pela qual permaneceram parados.

Após a constatação, o fornecedor foi instado a proceder às correcções, um processo que durou mais de seis meses até que o fabricante assumisse a responsabilidade.

“Técnicos sul-africanos já estão a fazer as rectificações e pensamos que dentro de dias os autocarros estarão em condições de operar”, disse Mussengue.

A fonte anotou que os autocarros vão ser colocados nas rotas já existentes, uma vez que há linhas que não dispõem de nenhum meio.

“Quatro dos nove autocarros já estão prontos, sendo que os técnicos trabalham para a conclusão dos restantes. Certamente que não vão resolver todas as nossas necessidades, mas vão dar alguma ajuda”, esclareceu.

WALTER MBENHANE

 

 

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