Director: Júlio Manjate   ||  Directora Adjunta: Delfina Mugabe

A polémica em torno da aplicação da reforma agrária prometida pelo governo, ainda antes de Cyril Ramaphosa ter assumido a Presidência da República, tem aumentado nos últimos dias no seio da sociedade sul-africana, alimentando acesos debates.

Trata-se de um tema fracturante entre os sul-africanos e para a sua abordagem a prudência aconselha a cautelas suficientes para que não se transforme num factor de divisão e promotor de uma perigosa instabilidade social.

De acordo com o “Jornal de Angola”, nos últimos dias tem-se assistido a um multiplicar de pressões junto do Presidente Cyril Ramaphosa para que este, sem mais demoras, dê luz verde para a aplicação do programa que prevê a redistribuição de terras aos fazendeiros negros.

Com o exemplo do Zimbabwe a ser esgrimido como argumento por aqueles que receiam o efeito perverso dessa redistribuição de terras, a verdade é que a população que defende a aplicação da reforma agrária começa a temer que Ramaphosa volte atrás e recue na intenção de levar por diante a sua promessa.

Face a isso, surgiram recentemente no país manifestações de rua que servem para ilustrar a necessidade que a população negra sente de fazer ouvir a sua voz para exigir a Cyril Ramaphosa e ao ANC que apliquem, sem mais demoras, o projecto de reforma agrária de modo a terem acesso às terras com as quais querem melhorar as suas condições de vida.

Nalgumas localidades rurais do país tem-se assistido, quase diariamente, a manifestações de impaciência por parte da população que se sente com direito de ser contemplada por essa reforma agrária e, dessa forma, receber terras para que as possa cultivar e assim melhorar as suas condições de vida.

PROFUNDA DIVISÃO

Algumas dessas manifestações têm motivado a intervenção das forças da ordem e cavado fundo a divisão entre os governos locais e o central, uma vez que os primeiros se sentem impulsionados a apoiar as reivindicações das suas populações.

Tudo isto, como é fácil de ver, contribui para aumentar as hesitações do Presidente Ramaphosa e que resultam da leitura que ele faz da actual situação social e económica do país e que desaconselha a tomada de medidas que possam causar qualquer tipo de convulsão que afecte o quotidiano do país.

Desde logo, o facto de na reforma agrária estar prevista a retirada de terras a um sector da sociedade para o entregar a outro, por si só, já é um tema fracturante capaz de provocar graves e profundas convulsões sociais.

Por detrás das principais manifestações de protesto contra o constante adiamento da aplicação do projecto de reforma agrária, onde se contam também algumas ocupações ilegais de fazendas, está a ala mais radical do ANC e o Partido dos Combatentes pela Liberdade Económica do truculento Julius Malema, cuja palavra de ordem tem sido “África é para a população negra”.
Malema, que já foi líder da juventude do ANC, em discursos inflamados tem desafiado a população que o ouve a usar a força para recuperar as terras que durante o regime do “apartheid” lhes foram retiradas para ser entregues a fazendeiros brancos.

Trata-se de um discurso racista, mas que começa a ter uma crescente e perigosa aceitação no seio de uma população desesperada por nada ter e descrente por ver que as promessas do Presidente, Cyril Ramaphosa, tardam em ser cumpridas.

Nalgumas áreas mais remotas, a Polícia foi já obrigada a intervir para impedir a ocupação anárquica de terras por parte de grupos de pessoas munidas de catanas. Trata-se de um problema que não se resolve com o adiamento constante de uma decisão sobre como e quando a reforma agrária será efectivamente aplicada.

A um ano de eleições, este é um problema que o ANC terá que encarar de frente, se não quiser assistir ao aumento da espiral de instabilidade social e de violência no país.

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