"NA independência, o nosso continente e os nossos países individuais estavam profundamente divididos e incapazes de capitalizar a nossa própria riqueza. Durante décadas, a África parecia ficar cada vez mais para trás em relação ao resto do mundo (...) Esses dias estão a chegar ao fim, e uma maior integração regional dentro de África é uma das grandes razões pelas quais isso está a acontecer", escreveu Paul Kagame, Presidente do Ruanda, em 2017, num relatório da Africa Growth Initiative (AGI), do Brookings Institute.

Celebra-se hoje, 25 de Maio, o Dia de África, estabelecido em 1972, pelas Nações Unidas, para exaltar (solenizar) a libertação do continente, e ele  lembra-nos a criação, em 1963, em Addis Abeba, da Organização da Unidade Africana (OUA), metamorforseada em 2002 na União Africana (UA).

A África de hoje é o resultado da exploração económica e da dominação política, cultural e linguística de alguns países europeus. Vários historiadores dividem a colonização europeia em África em dois tipos: colonização da população ou repovoamento e colonização económica. Eles também tendem a diferenciar entre: colónias, mandatos e protectorados. O que podemos ter certeza é que, em qualquer dos casos, foi uma exploração de recursos materiais e humanos. Além disso, em grande parte do continente, a imposição da religião católica e a dominação linguística foram cruciais para a dominação e o controlo da população, dando origem a uma situação de exploração sem limites.

Embora os exploradores europeus, grandes conhecedores do continente e as principais figuras da colonização, tenham chegado antes da celebração da conferência de Berlim (15 de Novembro de 1884 - 26 de Fevereiro de 1885), podemos dizer que esta marcou o início de uma colonização e exploração explícitas, porque definiria as fronteiras do continente e uma série decisiva de acordos entre os países colonizadores.

Quase um século, após a celebração da conferência de Berlim, veio a primeira onda de descolonização, que levaria a um futuro de independência. Em 1958 foi realizada a Conferência de Accra (primeira Conferência dos Estados independentes da África) e constituída a União dos Estados Africanos. Cinco anos depois, teve lugar outra reunião, em 25 de Maio, na capital da Etiópia, tendo por anfitrião o imperador Haile Selassie, que levou ao nascimento da Organização da Unidade Africana, mais tarde União Africana.

PAN-AFRICANISTO

As celebrações do Dia de África coincidem, este ano, com o centenário do primeiro Congresso do Pan-Africano, iniciativa de William Edward Burghardt du Bois.

Estava-se em 1919. A Alemanha tinha acabado de perder a I Guerra Mundial, em 1918. E Versalhes, Paris, acolheu nesse ano, as negociações e a assinatura do tratado de paz, que formaliza o fim do grande conflito, contexto ideal, na opinião de W.E.B. du Bois, para este primeiro Congresso Pan-Africano.

O norte-americano queria que o continente africano passasse a ter voz neste período de "transformação do mundo",como disse à Deutsche Welle (DW) Mamadou Diouf, professor de estudos africanos na Universidade de Columbia, Nova Iorque. "Os líderes negros entendiam que África devia estar presente durante estas discussões e que as questões africanas tinham de ser apresentadas pelos próprios, de forma a garantir uma presença africana na ordem mundial do pós-guerra", lembra.

O Primeiro Congresso Pan-Africano arrancou a 19 de Janeiro de 1919 e contou com a participação de 57 delegados africanos. No final do encontro de três dias, estavam delineadas exigências claras: a auto-administração gradual das colónias africanas, liberdade de expressão, o direito à terra e à educação.

O movimento pan-africanista acabou por influenciar vários jovens africanos que se encontravam a estudar na Europa e que se tornaram, mais tarde, os líderes da independência nos seus países. Foi o caso de Jomo Kenyatta, no Quénia ou Kwame Nkrumah, no Gana.

E o pan-africanismo acabou por ter um resultado muito prático que foi a criação da OUA, hoje UA.

Esta instituição alicerçaria as pedras do pan-africanismo, cujo pensamento procurou uma maior colaboração dos Estados africanos para, entre outros fins, erradicar a exploração colonial e promover a unidade continental. Sobre unidade, Selassie teria exclamado: "Possa esta convenção de união durar mil anos."

OBRA GIGANTESCA

Nas primeiras resoluções da nova organização destacava-se o incentivo à descolonização de Moçambique, Angola e outras colónias portuguesas, bem como  da Rodésia do Sul (Zimbabwe) e acções contra o "apartheid" na África do Sul.

Hoje, 56 anos depois, o continente está livre da colonização, apesar da questão pendente do Sahara Ocidental, ocupado por outro país africano, Marrocos, a democracia e a boa governação conquistam mais campos.

A OUA/UA surge da clara aceitação de que há desafios que os países africanos têm em comum, seja do desenvolvimento económico e social, seja a nível de segurança, e que todos partilham o desejo de alcançar o potencial de cada país a nível individual, mas também continental.

"Estamos orgulhosos do que África conquistou e continuamos empenhados na nossa visão de uma África integrada, próspera e pacífica, liderada pelos seus próprios cidadãos e representando uma força dinâmica na arena internacional", defendeu a embaixadora de África do Sul em Portugal, Mmamokwena Gaoretelelwe, ouvida o ano passado pelo jornal português Diário de Notícias (DN).

Ouvida também pelo mesmo jornal, a representante marroquina em Lisboa, Karima Benyaïch, disse que o seu país "defende a emergência de uma nova África, que seja ela própria a gerir-se, explorando plenamente os seus recursos humanos".

Num continente com 55 países espalhados por 30 milhões de quilómetros quadrados onde hoje vivem 1,2 mil milhões de pessoas - número que deverá mais do que duplicar até 2050 - e com elevados níveis de pobreza, esse desiderato surge como uma obra dantesca, mas, de modo geral, há comunhão dos africanos para realização desses desígnios.

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