O antigo Director-Geral da Sociedade do Notícias, Bento Gabriel Dava, defende que a empresa que dirigiu durante 12 anos é bastante rentável. No entanto, para a sua sustentabilidade é necessário que sejam adoptados mais medidas de controlo do fluxo financeiro e cumprir com maior rigor os seus compromissos comerciais.

Bento Gabriel Dava disse que cumprindo com esses pressupostos, a empresa tem condições para continuar a manter-se líder no mercado da comunicação social e, quiçá, alargar o seu raio de actuação para outros ramos. Dava fala com orgulho sobre as suas conquistas, que se traduzem na liquidação de dívidas que nalgum momento a empresa teve com o Tesouro e na estabilização da sua situação financeira. Também destaca ainda a reversão da gestão dos semanários Domingo e Desafio para a “Sociedade”, que durante algum tempo estiveram concessionados à EALDA e MozSport, respectivamente. A seguir vão as principais linhas da entrevista com este gestor que, como diz, teve o sonho de comprar um helicóptero para a reportagem.

 

NOTÍCIAS (NOT) – Entra na Sociedade do Notícias em 1995, contratado para ocupar o cargo de Director-Geral. O que foi gerir uma empresa cuja base é produzir jornais? BENTO GABRIEL DAVA (BGD) – Entro numa altura em que o trabalho do Director-Geral estava facilitado, porque não se metia nos jornais, pois essa tarefa era dos directores editoriais. Por isso, não encontrei muitas dificuldades para gerir a “Sociedade” porque estava desligado dos jornais.

NOT – Qual era a sua principal missão e âmbito de actuação?

BGD – Não tinha uma missão específica, porque nem sabia o que era o “Notícias”. Eu vinha da Unidade de Direcção do Ramo Alimentar e Tabaco. Entendia apenas de rebuçados, farinhas de milho e trigo, e a primeira coisa que fiz foi entender a empresa. A minha sorte foi também ter encontrado o Henrique da Costa, que era director de Produção, e eu lhe disse que devia cuidar do ramo da Produção e eu ficaria somente com a Administração e Finanças. Cada um fez a sua parte e avançamos.

NOT – Que tipo de estrutura encontrou na altura e que desafios assumiu?

BGD – Em termos de organigrama existia a mesma estrutura que temos actualmente, exceptuando a figura de Administrador-Delegado que não existia e que passou a vigorar em substituição da de Director-Geral. Agora, o grande problema foi não ter ovos para fazer omeletas, ou seja não havia matéria-prima e não tínhamos dinheiro. Mas, no meio deste azar houve alguma sorte porque quando reuni a minha equipa de trabalho para vermos o que fazer, o senhor Mabasso, que estava no aprovisionamento, alertou-me que havia dinheiro na Direcção Nacional do Tesouro, mas não podíamos usá-lo por causa de dívidas. Fomos lá e constatamos que tínhamos dois desembolsos em dívida, por isso o terceiro não podia ser autorizado. E para o empréstimo acontecer só podia ser mediante uma declaração de compromisso de que pagaríamos tudo. E aceitamos. Felizmente, conseguimos pagar os três fundos. Posteriormente, nos organizamos e nunca voltamos a ter cofres vazios.

NOT – Que desafios se lançou a si, quando assumiu a liderança da empresa?

BGD – Tive a preocupação de conhecer os mecanismos de funcionamento da “casa”. Depois nos reunimos e determinamos que devíamos organizar a empresa para que se evitem endividamentos e escassez de consumíveis como papel, por exemplo. Também conseguimos isso. A uma dada altura tínhamos dinheiro, desculpem-me a franqueza, “aos pontapés”. Verificamos que a empresa fazia dinheiro, mas era somente uma questão de organização para controlar o uso desse dinheiro. NOT- Que mudanças operou para que a empresa se recapitalizasse?

BGD – Não houve nenhuma varinha mágica. Apenas verificamos que o dinheiro não entrava nas contas da empresa, por diversas razões, uma das quais era que ele ia ficando nos bolsos das pessoas. Por isso, tivemos que organizar as vendas do jornal, a facturação da publicidade e a sua cobrança, que é donde vem o dinheiro. Principalmente, da publicidade. Organizamos também os clientes, as agências de publicidade, trabalhamos ainda na estruturação dos clientes assinantes, e notamos que nos meses de Novembro e Dezembro entra muito dinheiro das assinaturas, mas era preciso garantir que esse dinheiro não desaparecesse. Pensamos que é muito dinheiro e acabamos usando mal, mas nunca devemos nos esquecer que esse dinheiro das assinaturas, pago em Novembro e Dezembro, deve garantir a saída do jornal para todo o ano seguinte. E isso fará muita falta, pois não valerá contar histórias ao cliente no meio do ano porque ele pagou.

NOT – Quando entra os três jornais já estavam sob uma gestão centralizada da Sociedade do Notícias ou ainda tinham sido adjudicadas a outras firmas?

BGD – Entro numa altura em que só estavam a controlar o jornal Notícias. Os outros dois haviam sido cedidos a terceiros por uma concessão de exploração, sendo o domingo com a EALDA e o desafio cedido a MozSport. A princípio respeitamos os contratos, mas quando revisitámo-los percebemos que tinham muitas zonas penumbra, porque não metiam dinheiro na empresa. Abordei o Conselho de Administração, sobre o assunto. E o caso do domingo era mais grave porque até pagávamos os salários aos trabalhadores daquela firma, na expectativa de que o concessionário iria devolver o dinheiro, mas nada. Por isso, chegou uma altura em que cortei os pagamentos, uma situação que ocorreu entre 1997 e 1998. Mais tarde rompemos os contratos por falta de pagamentos e levámo-los ao tribunal. Até hoje têm processos lá.

NOT – Que ambiente encontrou na Sociedade do Notícias quando em termos de recursos humanos, ou seja houve necessidade de efectuar novas contratações?

BGD – O que fiz foi responsabilizar as mesmas pessoas. Não expulsei nenhum quadro a não ser naqueles casos de flagrante delito. Por exemplo, entrei e apanhei Carolina Lichucha, João Nandza ou ainda Eduardo Davuca e os mantive nos seus postos. Apenas conferi-lhes mais responsabilidades e puxei-os para o objectivo pretendido que era de estabilizar a empresa. E conseguimos.

NOT – Qual foi o topo para si?

BGD – Foi quando informatizamos a Redacção do Notícias. É verdade que foi a um nível um pouco baixo, mas para nós foi uma vitória pôr todos os jornalistas a interagirem entre eles na base dos computadores porque estavam em rede. A outra grande vitória foi quando conseguimos recuperar uma unidade da rotativa SOLNA que havia caído no Porto de Maputo. O fornecedor mandou uma outra peça, mas conseguimos produzir o jornal, e mais tarde pusemos a peça a funcionar com o apoio da Embaixada da Suécia em Maputo, que pagou a reparação da máquina.

NOT – Entra numa fase em que ainda se trabalhava com recurso a procedimentos, diga-se, rudimentares. O que significou para si mudar a estrutura de funcionamento passando de manual ou analógico para o digital?

BGD – A dificuldade não foi na aquisição de equipamentos, ma foi de assimilação. Por exemplo, quando introduzimos computadores tivemos novos problemas porque algumas pessoas deixavam cair cinza nos teclados ou gotas de chá, coca-cola, café e migalhas de pão. Mais tarde chegamos a ter uma figura de recuperador de dados porque a informação não era devidamente armazenada no computador.

NOT – Qual foi, na sua opinião, uma das suas maiores conquistas, particularmente no jornal Notícias?

BGD – É um pouco difícil enumerar algumas porque fizemos muitas coisas boas. Se for a ver as condições do jornal Notícias quando entrei e depois olhar o que tinha quando fui exonerado em 2007 descobrirá mudanças de fundo. Nós trabalhamos muito. Por exemplo, quando cheguei os directores e muitos chefes não tinham carros, e os poucos que tinham eram de “marca tchova”. Mas conseguimos dar viaturas novas a todos os directores.

NOT – Como era a sua relação na equação entre a componente administrativa com a área de editorial?

BGD – Eu não cheguei a ter problemas. Mas, isso tem também a ver com a minha maneira de ser como pessoa. Não hostilizo ninguém e nem falo pelas costas. Não havia ainda um dia em que os antigos directores Bernardo Mavanga e Rogério Sitoe não vinham ao meu gabinete para falarmos.

NOT – Durante o seu consulado alguma vez chegou a equacionar desistir, tal como se diz, bater com a porta e ir embora?

BGD – (Risos) Acho que esse momento chegou uma vez, porque as organizações sempre crescem e vão alterando a sua forma de trabalhar. E quando se criou a Comissão de Compras, chefiada pelo Director Comercial – o Director-Geral não tinha papel nenhum – eles faziam tudo. Mas, um dia faltou papel de impressão do jornal e aí chamaram-me para procurar papel. Fui ao Zimbabwe, de carro, em busca de papel e consegui trazê-lo. Mas essa não era a minha tarefa porque não fazia parte dessa comissão de compra, e só quando as coisas correram mal é que voltaram novamente para mim. Eu disse “assim não dá…”

NOT – O que é se recorda até hoje com maior alegria e o que estava nos seus planos que acha que devia ter feito e não fez?

BGD – (Risos) O que vou dizer... Foi muito há tempo, 12 anos. Mas acho que, há-de ser quando começamos a comprar o património que havíamos arrendado do Estado, e começamos com as instalações da Delegação de Gaza, na cidade de Xai-Xai. E nessa altura compramos tudo o que tínhamos arrendado. Não conseguimos apenas tirar o jornal a cores, mas já estávamos a desenhar o plano tendo em conta a rotativa que tínhamos. No entanto, o Conselho de Administração achou que não devíamos mexer naquilo porque iria se adquirir uma rotativa nova. E correu tudo bem. Não entrei no processo porque quando se compra a nova rotativa digital já não estava lá.

NOT – Olhando particularmente para o jornal Notícias, qual foi o pico em termos de tiragem? E enquanto Director-Geral da Sociedade sentiu que havia necessidade de haver uma coordenação entre si e a Direcção Editorial quanto à gestão dos conteúdos, por exemplo?

BGD – Foi quando atingimos 25 mil exemplares, entre 2000 e 2002. Agora, sempre discutíamos isso, porque sempre defendia que o jornal devia se vender por si próprio, pelos conteúdos. E as pessoas quando descobrem que aquele jornal tem procura, os investidores procuram-no para veicular a sua publicidade. Eu sempre defendi que o Notícias deve escrever tudo, mas sobretudo coisas que ajudam a vender o jornal…

NOT – Não importando se é ou não de maior circulação…

BGD – Essa é outra história. Não nos devemos preocupar em mandar o jornal para todo o lado, mas sim em vendê-lo. Não interessa vender apenas cinco por cento e ter como sobras 95 por cento. Não devemos nos sentir satisfeitos em mandar 500 jornais para o distrito de Chicualacuala, em Gaza. Muito bem, mas quantos jornais foram vendidos? Provavelmente um ou cinco.

NOT – Quais eram os seus maiores sonhos para o “Notícias”?

BGD – Quando abria os cofres e via que tínhamos dinheiro, a brincar dizia a Rogério Sitoe, que se tivéssemos um terraço bom compraria um helicóptero para a reportagem…

NOT – Que lições deixa?

BGD – (Risos) É difícil deixar lições, mas posso dizer, pela experiência, que é preciso estar muito concentrado na questão financeira. Deve-se prestar muita atenção porque aí há provações e onde há dinheiro há sempre apetites. Dinheiro é muito bom e é preciso controlá-lo muito bem!


 

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