ROGÉRIO Sitoe, vinte anos na Direcção do jornal “Notícias”, metade dos quais como Director Editorial-Adjunto e outros como Director Editorial, considera que falar do Jornal é falar de como os jovens entraram e transforam este matutino na sua principal casa. Segundo ele, parece paradoxo, mas o jornal “Notícias”, para muitos, acabou se transformando como o principal sítio onde ficam, por uma razão muito simples, que explica a seguir:

“Nesta profissão de jornalismo há muitas coisas que fui assistindo ao longo dos anos. Se fazes por gosto - e é assim que muitos entraram nesta área, um pouco diferente do que acontece nos dias de hoje, em que as pessoas procuram emprego -, naquela altura era a combinação das duas coisas. A procura de uma coisa que as pessoas gostavam de fazer, de uma paixão, de uma arte. Então, uma vez abraçada essa paixão e arte as pessoas acabavam ficando o tempo todo nela. Passavam mais de 70 por cento das suas vidas dentro do Jornal ou em coisas ligadas ao Jornal, e 30 por cento em outras coisas, como a família. É um pouco paradoxo e às vezes doloroso lembrar esses episódios de toda gente que passou isso. Transformamos a profissão e o local onde nós trabalhamos como nossas casas. Praticamente as nossas residências viraram anexos do nosso local de trabalho. Esta é uma experiência única nesta profissão” – explicou Rogério.

Prossegue dizendo que a sua experiência no jornal “Notícias” divide-se em muitas etapas, com a felicidade de ter trabalhado na 1.ª República, em 1980, quando entra para o matutino, lembrando-se de decisões arrojadas vividas e tomadas. Ao que apontou, naquela altura, ainda na euforia da revolução, havia um espírito profissional muito forte, sem com isso pretender dizer que agora não o haja.

“Lembro-me de um episódio de 1981, quando era Editor da página da Cidade, onde tínhamos uma coluna denominada “À Luz da Lei”, onde o meu colega e amigo jornalista Leandro Paul, na altura também estava o colega Tivane, assassinado brutalmente juntamente com a família pela Renamo, fomos colhidos de surpresa com a proposta do Leandro de pretender fazer uma grande reportagem sobre as prisões. Para ver como o assunto era tão arrojado naquela altura, o Leandro Paul queria que ele fosse preso para ser encarcerado. Queria simular prisão só para estar dentro de uma cela e de lá reportar como é que era a vida dentro da cadeia. Não houve garantias do Estado do que lhe poderia acontecer na cadeia, mas ele tinha vontade. Isto para mostrar um pouco como a profissão era encarrada, com uma paixão” – lembro Sitoe.

Já na qualidade de correspondente e durante a guerra de desestabilização, o nosso interlocutor explica que nas províncias um dos elementos interessantes é que os jornalistas circulavam com os militares das Forças Populares de Libertação de Moçambique (FPLM).

“A primeira palavra que existia para o jornalista é: “eu quero ir buscar a reportagem, depois o resto se verá”. As gerações vão mudando e agora é: “qual é a ajuda de custos que me pagam e depois é que se pensa como ir buscar a notícia”. Estou a trazer este elemento de diferença entre a busca de profissão e a busca da paixão” – contou.

ESPÍRITO JORNALISTA v ORIENTAÇÃO POLÍTICA

O antigo Director Editorial do Notícias contou ainda um episódio vivido na Beira, onde o combatente Marcelino dos Santos era ministro residente, numa altura em que a especialidade da Renamo era a sabotagem das torres de transporte de energia eléctrica. Implicitamente, segundo ele, nessa altura os jornalistas não podiam dar relevância a destruição das torres de energia porque implicaria valorizar o inimigo. Por razões estratégicas, não podiam escrever.

“Mas havia o espírito jornalista que, apesar de haver esta orientação implícita, havia a veia jornalística que não permitia que você ficasse indiferente a uma coisa como está. Lembro-me que chegávamos a ficar três meses consecutivos na Beira sem energia. Numa passagem do ano, quando delegado do Notícias na Beira, decidi escrever uma crónica e pensar que podia fazer passar entre linhas que não havia energia na cidade. A passagem era mais ou menos esta: “Beira tinha saído para despedir-se do velho ano (2003) e dar boas vindas ao novo, 2004. Uma euforia sem energia. Que as pessoas foram obrigadas a consumir tudo que havia na geleira por medo de se estragar”. Isto deixava implícito nas entre linhas que na Beira não havia energia. Marcelino dos Santos, ministro residente, soube disso e, durante o banquete de fim do ano, quando eu fazia a cobertura do acto, olhou para mim com um sorriso muito pesado e disse: “estás a informar o inimigo que não temos energia…só fuzilar”. E riu-se. Era uma brincadeira mas ao mesmo tempo estava a ma mandar uma mensagem muito clara de que mesmo nas entre linhas, ele lia. Isto para mostrar que exigia uma certa ginástica para escrever notícias nessa altura” – lembrou Sitoe.

UM MARCO: JORNAL A CORES

Durante o seu tempo de trabalho Rogério Sitoe destaca como marco o projecto por si liderado de transição do jornal a preto-e-branco para cores.

“Foi graças aos meus colaboradores que este projecto vingou. Sem eles não seria possível. Foi um projecto que requereu muita discussão ao nível da Redacção, do Conselho de Administração, na altura liderado pelo Dr. Ernesto Gouveia Gove, para que pudéssemos fazer esta transição do jornal a preto-e-branco para um a cores. Esta é uma das marcas de gestão que a gente teve. A coisa mais interessante que houve nesta transição foi termos provado que internamente tínhamos capacidade para triunfar neste projecto. Havia um debate em que alguns defendiam que tínhamos de contratar uma consultoria externa para realizar este projecto. Na altura estava na moda no país contratar consultores para tudo. Dizíamos que tínhamos gente que o seu trabalho, durante a vida toda, não foi fazer mais nada senão esse tipo de projectos. Gente com experiência comprovada. Venceu a decisão arrojada de que nós, internamente, estávamos em condições de fazer esse trabalho. A nossa experiência de jornal a cores depois foi seguida pelo domingo e desafio e muitos outros da praça. Isso foi uma marca. O “Notícias”, com todos os problemas de quem gosta e quem não gosta, é um jornal que é produto de uma escola profissional interna muito forte, de não sensacionalismo. Isto é muito fundamental. E esta componente de um jornalismo não sensacionalista não é uma marca da época em que fui director do jornal “Notícias”. É uma marca que eu encontrei em 1980 quando cá cheguei. Quer dizer, desde que eu me conheço jornalista desta casa, já agora a caminho de 36 anos de profissão, esta é uma marca que sempre aprendi. O “Notícias” deve continuar na sua linha de recusa permanente de um jornalismo que abraça as emoções e reduz a verdade dos factos. Penso que é isto que faz a diferença do jornal. Costumo dizer que podem chamar o jornal “Notícias” de um jornal governamental ou pro-Frelimo, mas o ponto é que aquilo que está publicado no “Notícias” é verdade. Agora, se é verdade que apoia a Frelimo, esse é outro assunto. Mas é verdade que as notícias são reais. Posso ser um leitor da oposição e não gostar do jornal, mas o que está lá é verdade. Ou seja, esta é a segunda marca do jornal, e isso aprendi desde que entrei. Sinto que há um rigor e é por isso que o jornal acaba se transformando numa espécie de um centro de formação” – apontou Rogério Sitoe.

COERÊNCIA DO JORNAL

Como forma de mostrar a coerência do jornal, o nosso entrevistado trouxe ao conhecimento público mais um episódio por si vivenciado.

“Foi no tempo em que era Director Editorial-Adjunto e o Dr. Bernardo Mavanga era Director Editorial. O “Notícias” foi convidado para Lisboa para ir fazer uma grande entrevista ao Presidente Cavaco Silva, que viria para Moçambique fazer uma visita. Nós estabelecemos um pacto com a Presidência Portuguesa, em que deixámos claro que se vamos a Lisboa entrevistar o Cavaco deve ser uma entrevista em exclusivo. O director Mavanga foi e quando chega lá se apercebe que há um outro jornal (português) que está a gravar a mesma entrevista que era para o “Notícias”, na condição de exclusividade. O mais grave é que a referida entrevista ia ser publicada imediatamente em Portugal, antes de o “Notícias” a publicar. Quando o director Mavanga regressou discutimos de modo a tomar uma decisão perante a violação do acordo que havia sido estabelecido com o Gabinete de Imprensa da Presidência Portuguesa. A nossa intenção era fazer uma grande entrevista, no quadro das relações de cooperação entre Moçambique e Portugal, mas não estávamos interessados em fazer a publicidade ou propaganda da visita de Cavaco Silva a Moçambique. Portanto, estávamos a tratar o assunto de forma profissional. Nisso, ao nos apercebermos que estávamos a ser usados para fazer passar a mensagem deles, parámos com o assunto. De facto a entrevista no jornal português saiu antes de publicarmos a nossa. Tomámos a decisão de que não iríamos publicá-la. Na época isso deu um sururu que não queiram imaginar. Na época a Embaixada Portuguesa em Maputo tentou nos convencer a publicar a entrevista, chegando ao ponto de falar com o nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, Leonardo Simão, que lhes disse que não iria interferir na gestão da Redacção do “Notícias”. Aliás, era uma época de pouca interferência na comunicação social. Por isso Simão disse que não ia fazer nada e muito menos obrigar o jornal “Notícias” a publicar a entrevista. Para ele, este era um assunto editorial do “Notícias”. Isso quase mexeu com as relações diplomáticas dos dois países. Apesar de tudo, não publicámos a entrevista. O que publicámos foi o comunicado de imprensa a anunciar a sua visita. Isto para dizer o quê? Do ponto de vista político, dentro das condições de produção do jornal, o “Notícias” deve ou está a se transformar num jornal cada vez mais solto” – salientou.

NADA DE SENSACIONALISMO

Ao completar 90 anos, Rogério Sitoe coloca como desafio ao jornal “Notícias” a necessidade de se manter firme na sua significância, oferecendo um leque variado de informações aos leitores, de modo a poder ter outras opiniões.

“Os desafios que existem são fundamentalmente dois. O primeiro é a necessidade de manter o profissionalismo. Falo concretamente de manter a ideia de não sensacionalismo. O segundo é manter esta ideia de quebra dos anonimatos. Os anonimatos podem corroer o jornal ao nível das cartas dos leitores, dos pseudónimos e outras formas. O jornal “Notícias” tem credibilidade e a credibilidade deriva do facto de mesmo não concordando com o que está lá, tal ser verdade. Não só, sei que foi escrito por um repórter chamado fulano ou beltrano. Estas coisas têm de continuar para que se mantenha a sua credibilidade. Em terceiro lugar, o jornal tem de ser mais arrojado, tem de caminhar para um jornalismo investigativo. Quando falamos de jornalismo investigativo a primeira antena que dispara é de que é preciso começar a correr e perseguir dirigentes, porque todos são ladrões. Não é este o conceito que tenho. Mas é preciso investigar coisas. O jornalismo investigativo está desde o crime organizado, desde políticos que usam indevidamente o erário público, e isso não é um problema do partido X ou Y. Tem a ver com pessoas que não são éticas. Tem a ver com uma série de coisas de gestão. Veja, por exemplo, o que aconteceu na Avenida Julius Nyerere, na cidade de Maputo. Afinal era possível fazer uma estrada em condições. Mas estamos a pagar duas vezes a mesma obra. Isto o Jornal tem de investigar. Investigando isso não estará a fazer mal a ninguém do poder. Estará a trazer para fora as pessoas que não são éticas. Se o “Notícias” não fizer isso o sensacionalismo praticado pelo jornalismo amarelo dos tabloides vai corroer gradualmente a própria credibilidade do “Notícias”. As pessoas vão dizer que o “Notícias” não traz as coisas de fundo. Então, não havendo coisas de fundo vão ler o que vem nos outros jornais, e sendo ou não verdadeiras, irão cingir-se nelas.

Versão-Impressa


Mais recentes

Breves

Editorial

Editorial
Sexta, 24 Março 2017
UM dos temas que marcou a actualidade, em Moçambique, é o anúncio da submissão à Procuradoria-Geral da República (PGR) de 138 processos atinentes a obras públicas paralisadas, abandonadas ou inacabadas. Trata-se de empresas que, embora tenham... Ler mais..

Primeiro Plano

IMAGE
INAUGURADO PELO PRESIDENTE NYUSI EM BÁRUÈ:...
Quarta, 29 Março 2017
ASSINALOU-SE ontem a passagem do centenário da Revolta de Báruè, conduzida pelo milagreiro e guerreiro tenaz Makombe. Ler mais..

Assim vai o mundo

Preçário dos jornais online

Anual 5.746,00 MT
Semestral
Trimestral 1.436,00 MT
Mensal 478,00 MT
Quizenal 239,00 MT
Semanal
Diário 18,00 MT

Jornal Noticias

Anual 1.872,00 MT
Semestral
Trimestral 468,00 MT
Mensal 156,00 MT
Semanal 27,00 MT

Jornal Domingo

Anual 1.872,00 MT
Semestral
Trimestral 468,00 MT
Mensal 156,00 MT
Semanal 27,00 MT

Jornal Desafio

Câmbio

Moeda Compra Venda
USD 68,10 68,17
ZAR 5,28 5,29
EUR 73,98 74,06

29.03.2017   Banco de Moçambique

Temperatura

25.02.2017    INAM

Opinião & Análise

O GOVERNO lançou, a 15 deste mês, o processo de revisão da Lei ...
2017-03-29 10:02:59
AS autoridades governamentais e parceiros estão a envidar esforços no ...
2017-03-28 23:30:06
PUBLIQUEI, recentemente, neste espaço, um artigo no qual dizia que o mundo ...
2017-03-28 23:30:06

Conversas ao sábado

  • Publicidade_Versao_Imprensa

Quem está online?

Temos 4274 visitantes em linha