O Jornal “Notícias”, que hoje celebra 90 anos na rua, passou por momentos duros, ao ponto de se recorrer a farmácias para a aquisição de produtos químicos através dos quais se produzia reveladores de filmes e de papel fotográfico para garantir as imagens necessárias para as edições.

Bento Muianga, impressor na Secção Fotográfica entre 1982 e Outubro de 2010, recorda-se que já faltou tudo em termos de material, mas o jornal sempre saiu, graças à capacidade criativa e de invenção dos seus quadros.

Contrariamente à era actual, no passado produzia-se diariamente centenas de fotos das quais apenas 10 ou 15 é que faziam a edição do dia. Os repórteres fotográficos voltavam da rua com rolos e “atiravam-nos” ao nosso entrevistado, a quem cabia a tarefa de os transformar em fotografias com a necessária qualidade para o jornal.

Foi numa dessas vezes, decorriam os anos 1980, que Bento Muianga conta que o então responsável pelo sector da fotografia, Luís Soto, volta de um trabalho na Presidência da República e entrega-lhes seis rolos para processar.

“Entrei na câmara escura, bobinei os filmes e meti o revelador, mas a tampa do tanque não estava bem ajustada. Quando começo a agitar o tanque a tampa abriu-se e os rolos espalharam-se pelo chão. Não sei que flexibilidade foi aquela, mas recolhi o material e meti novamente no tanque”, disse.

Não lhe restando outra alternativa e seguro de que todo o trabalho estava totalmente perdido foi, a tremer, informar ao colega Soto sobre o sucedido.

“Soto virou para mim calmo e quis saber que tipo de incidente havia. Expliquei-lhe e ele perguntou-me se eu tinha ideia das consequências. Tínhamos, até aquele momento, certeza de termos danificado fotos únicas de uma cerimónia que envolvia o Presidente Samora Machel e iríamos ser acusados de sabotagem”, recorda.

Entretanto, quando Soto se preparava para fazer uma nota relatando o sucedido ao então Chefe da Redacção, Mário Ferro, eis que o nosso entrevistado constata um milagre. “Quando tiro os rolos, inseguro, noto que nenhum deles tinha manchas estranhas. Chamei o Luís Soto. Não acreditou no que estava a acontecer. Abraçámo-nos e festejámos de alívio”, disse, salientando que aquele foi um dos episódios que mais lhe marcou ao longo das décadas que trabalhou na “Fotografia” do “Notícias”.

Falando à nossa Reportagem, Bento Muianga disse que sua intenção foi de entrar no “Notícias” em 1966, quando deixou a escola, mas foi “desviado” por Carlos Alberto, que embora estivesse ligado à Secção Fotográfica do jornal tinha o seu próprio estúdio junto ao edifício do matutino, onde revelava milhares de fotografias.

Entrou lá como servente encarregue pela lavagem das fotografias com os químicos e respectiva secagem. Evoluiu e passou a fazer também impressões de grandes fotografias, painéis de três e seis metros de comprimento, bem como manuseamento de imagens para exposições dentro e fora de Moçambique.

A relação com Carlos Alberto começa a andar mal em 1975, quando este terá, segundo o nosso entrevistado, desviado o seu pagamento feito pela Presidência da República respeitante à cobertura fotográfica da proclamação da independência nacional.

Em 1981 Soto, que já era chefe da Fotografia no “Notícias”, estando a par das desavenças entre os dois, manda Carlos Calado para abordar o Bento no sentido de ele mudar-se para os quadros do Jornal. Em 1982, mas com receio da grande influência de Carlos Alberto, aceita mudar-se para o “Notícias”, casa da qual havia passado nos anos de 1960.

Viveu as diversas fases do Jornal, desde o momento da falta de quadros, da crise financeira, onde se chegou ao ponto de não haver carros para transportar os repórteres, da mobilização e consciencialização dos trabalhadores de que são, de facto, os donos do “Notícias”, até ao reaparecimento dos sócios que hoje compõem a Sociedade do Notícias, SA.

Confessa que teve sérios problemas para se adaptar na era digital. Não houve nenhuma formação. Todos aprenderam a usar computador por simples curiosidade durante as horas de menor pressão do trabalho.

Aos colegas mais novos e/ou no activo o conselho é no sentido de se apegarem ao trabalho, darem o seu melhor e aproveitarem todas as oportunidades para que quando forem à reforma tenham o mínimo para viver condignamente, porque a pensão não é lá grande coisa.

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