FAÇO parte de uma geração de profissionais da comunicação social que abraçou o jornalismo na década de 80, altura em que não era difícil arranjar emprego. Aliás, havia défice de quadros em muitos sectores de actividade no país, tanto que alguns estudantes, mesmo com a 9.ª classe, eram enviados para determinadas instituições de modo a reforçar o quadro lá existente.

Eu integrei o quadro redactorial do “Notícias” em Novembro de 1984, dois anos antes da morte do Presidente Samora Machel, mas tempo suficiente para saber quem era este homem que proclamou a independência da “República Popular de Moçambique”. Os órgãos de Informação na altura eram muito poucos, cinco ou seis. E Samora Machel conhecia pelos nomes as pessoas que dominavam ou dirigiam esses órgãos: Carlos Cardoso, Mia Couto, Albino Magaia, Mário Ferro, José Catorze. É verdade que havia outros profissionais, mas me pareceu que o então Chefe do Estado havia memorizado os nomes destes cinco. Depois explico porquê.

Quando abracei o jornalismo logo tive a percepção de que se tratava de uma profissão meramente masculina. No jornal “Notícias”, que devia ter na altura não mais de 30 jornalistas, eram apenas duas mulheres: a Mariamo Adamo (já falecida), que trabalhava no Sector Internacional, e Filomena Langa (também falecida), que estava no Sector Nacional. Pouco tempo depois as duas abandonaram o “Notícias”. (A Filomena foi trabalhar no Instituto de Comunicação Social) e a Mariamo, por força do casamento, deixou de ser jornalista. Durante muitos anos fui a única mulher no jornal “Notícias”, até que chegaram as actuais cinco colegas, por ordem Anabela Massingue, Lacércia Cumbana, Joana Macie, Evelina Muchanga e Ana Rita Tene. Na Beira tivemos também uma colaboradora que depois foi se juntar à Autoridade Tributária, a Liége Vitorino.

Poucos (donos e gestores das empresas de comunicação social) não acreditavam que uma mulher jornalista podia produzir, com o mesmo profissionalismo, que um outro do sexo oposto, reportagens, entrevistas, etc. Por isso assuntos considerados importantes, pelas Redacções, tal como os relacionados com a Economia, Negócios e Política, não eram confiados às jornalistas. Elas recebiam tarefas sobre a Educação, Saúde, Mulher, Cultura e Criança, por se tratar (na concepção dos gestores) de áreas menos delicadas.

No dia 7 de Abril de 1986 fui uma das primeiras pessoas a chegar à Redacção do “Notícias”. Por se tratar do Dia da Mulher Moçambicana haveria uma cerimónia de deposição de flores na Praça dos Heróis. O Chefe da Reportagem da Cidade, na altura, manda-me cobrir as actividades inerentes à data. Azarias Inguane (que veio a falecer na viagem fatídica que no mesmo ano, 1986, vitimou o Presidente Samora Machel) foi o fotógrafo indicado para me acompanhar na reportagem sobre o Dia da Mulher.

Samora Machel chegou dez minutos antes das 9.00 horas, e entidades nacionais (entre membros do Bureau Político e do Governo) e estrangeiras, assim como a população, já o aguardavam na Praça dos Heróis Moçambicanos. Ele inicia a marcha para a deposição de flores acompanhado pela então secretária da Organização da Mulher Moçambicana a nível da cidade de Maputo, Cristina Tembe (a secretária-geral, Salomé Moiane, havia se deslocado a Cabo Delgado para participar no funeral da esposa do general Alberto Chipande, Maria Chipande).

Como era sua característica, finda a cerimónia o Presidente Samora Machel dirige-se à população, que o aguardava à volta do monumento. Uma mulher idosa não poupava esforços para mostrar os seus dotes na dança tradicional do sul de Moçambique, “xingomane”. “Impressionante. Isto é que é a cultura moçambicana. Mas os jornalistas não estão a ver isto. Não vão reportar nada disto” – assim exprimiu o seu sentimento Samora Machel sobre o que estava a ver, enquanto admirava a “velhota”. Aliás, nesse mesmo instante o Presidente da República chamou por jornalistas: onde estão os jornalistas? – Olhou para todos os lados, mas nada de profissionais da comunicação social. Até que Daniel Maquinasse (então fotógrafo da Presidência) se lembra que eu era jornalista. Ou pelo menos aspirante a jornalista do “Notícias”. E diz a Samora Machel: está ali uma jornalista, apontando para mim. Nesse instante senti um misto de medo e de satisfação. Queria fugir dali, mas não sabia como, pois Samora Machel caminhava na minha direcção. Na verdade, arrepiou-me o corpo todo, aliás, em algum momento senti-me a levitar. Não sabia o que o Presidente da República queria me dizer ou fazer”. Mandar-me-ia prender ao descobrir que eu não tinha registado nada sobre aquela mulher idosa que não parava de dançar? Aliás, havia muitas outras pessoas que tal como ela dançavam… e muito bem. Mas também tive um sentimento de satisfação porque, pela primeira vez, estava próximo de um Chefe do Estado). Todavia, essa sensação de alegria durou poucos minutos senão segundos: “És tu a jornalista? Como é que te chamas? Quantos anos tens? Quem te mandou para aqui? Onde está o Carlos Cardoso? Mia Couto? Albino Magaia? Mário Ferro? e José Catorze? Por que é que mandaram uma criança que ainda cheira leite para uma cerimónia de um Chefe do Estado? Tu sabes o que está a acontecer aqui? Leia o que escreveste aí no teu bloco...” Foi uma chuva de perguntas que não consegui responder a nenhuma. Até tive medo de dizer a minha idade para não piorar a situação já de si crítica. Tentei ler algumas notas que tinha no bloco, bem no ouvido dele, mas não o suficiente para agradar o Presidente da República, que não queria uma estagiária (pequena de tamanho e de idade) a cobrir um evento daquela dimensão.

Um dos membros do Governo, que acompanhava a comitiva do Chefe do Estado, se a memória não me trai creio que foi o Dr. Mário Machungo, na altura Ministro do Plano, veio depois ter comigo para acalmar-me com palavras de encorajamento: “Não te preocupes, faça o teu trabalho, normalmente, tudo vai correr bem.”

Mais tarde soube que havia mais jornalistas no local, incluindo o meu colega Alfredo Macaringue. Ele se misturara com a população porque trazia calças jeans e Samora Machel não o teria perdoado. Dia seguinte acredito que o jornal “Notícias” publicou, até então, uma das melhores reportagens sobre o Dia da Mulher... a sua produção contou com ajuda de colegas mais velhos, não só em idade, como na profissão, incluindo o próprio Chefe da Redacção, Mário Ferro.

Quando cheguei à Redacção todos os colegas já sabiam o que havia acontecido na Praça dos Heróis… recebi solidariedade de alguns deles, encorajando-me a continuar na profissão, uma profissão que nunca foi meu sonho, pois um dia pensei em fazer Medicina, uma vez que Biologia e Química eram as minhas cadeiras preferidas. A professora Constância, da Escola Secundária Francisco Manyanga, na altura, pode se lembrar. Todavia, o destino quis que eu fosse parar numa Redacção, logo do principal Jornal Diário deste País, para seguir a carreira de jornalismo. A mesma carreira que me permitiu receber das mãos do Presidente Filipe Nyusi o prémio de melhor reportagem escrita em Agricultura 2015, a 30 de Outubro, para não falar de outras oportunidades. Pena que já não posso dizer ao Presidente Samora Machel que não mais cheiro leite, pois cresci com um dos órgãos de referência na área da comunicação social em Moçambique, tudo fruto do esforço de jovens que pertencem a uma geração que fez do jornalismo um instrumento para falar de Moçambique com Moçambique e o mundo. Que aprenderam que o sensacionalismo ou a publicidade em forma de “notícia” não têm lugar.

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