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Embora os meus primeiros textos tenham sido publicados há mais de 35 anos (1980) na revista “Tempo”, foi no jornal diário “Notícias” onde tudo começou.

Fui para este jornal, que agora completa 90 anos, trocado pelo jornalista Augusto Casimiro, falecido há poucos anos. Nessa altura era assim. Não é como hoje, que cada um faz o quer, que se dá um aviso prévio de 30 dias e se muda de local de trabalho. Naqueles primeiros anos da nossa independência, para quem não sabe, éramos mandados ir, não escolhíamos o que queríamos.

O Estado protector, organizador e centralizador é que definia o que era bom para cada um de nós, mediante as necessidades e prioridades da jovem Nação. E por falar nisso, eu nem era para ser jornalista, mas sim professor de História e Geografia da 10.ª e 11.ª classes. Mas lá consegui mudar-me da Educação para a Informação, mas isso é outra estória.

Foi no “Notícias” onde fui recebido pelos chefes Pedro Tivane e Abel Faife, que viriam a morrer em condições trágicas, próprias de uma guerra, e que teima agora em recrudesceder, tendo também como meus colegas de carteira (de secretária?) os antigos directores Rogério Sitoe e Bernardo Mavanga.

Interessante foi ter também, mais tarde, Mavanga como meu professor de Direito Penal, no Curso de Ciências Jurídicas que tirei, mais recentemente, aos 54 anos de idade. Trabalhei também nessa altura com António Souto, que viria a ser presidente do Banco Terra, Mário Ferro, que viria a trocar o Jornalismo pelo Marketing, o falecido Miguéis Lopes Júnior, que se tornaria no “enfant terrible” do jornalismo, ao publicar o jornal “Imparcial”, o Manuel Tomé, que viria a ser secretário-geral do Partido Frelimo, entre muitos outros.

Naquela altura os órgãos de comunicação social eram poucos e era natural que trabalhássemos todos juntos, tal como acontecia na Rádio Moçambique, “Diário de Moçambique” na Beira (na altura acho que se chamava “Notícias da Beira”), na revista “Tempo” ou na Agência de Informação de Moçambique.

Foi no “Notícias” onde publiquei os meus primeiros artigos de carácter social, embora eu prefira chamar de assuntos de carácter criminal. Todos os dias, antes de assinar o livro de ponto no jornal, passava primeiro pelas instalações da Polícia de Investigação Criminal ou pelo Tribunal da Cidade, onde junto dos agentes da PIC (que saudades que eu tenho do inspector Chacha!) ou dos escrivãos recolhia material para os meus artigos do dia. Lembro-me que por dia tinha de trazer pelo menos duas estórias. Aliás, muitas vezes era eu quem enchia a quase totalidade da página dois, reservada aos assuntos da Sociedade.

Verdade seja dita. Quando leio hoje os artigos que publiquei no “Notícias” vejo aí a fonte originária do jornal que viria a fundar, quase 20 anos depois, o semanário “Fim-de-Semana”, e que se notabilizou entre os finais dos anos 90 e princípios de 2000. Embora mais sofisticado, com mais secções, o semanário “Fim-de-Semana” inspirou-se muito em artigos então publicados no “Notícias”.

Dizer que o “Notícias” foi o pai do “Fim-de-Semana” pode parecer exagero, mas se ficarmos pelo tio acho que não ficará assim tão mal.

Por isso tudo devo muito ao jornal “Notícias”.

A vida me levou por outros caminhos. Hoje posso dizer que fui jornalista, porque a minha área agora não é exactamente a comunicação social, mas sim a comunicação empresarial. Mas não é por isso que deixo de dizer que não me importaria se começasse tudo de novo, trabalhando como estagiário no jornal “Notícias”, mesmo que fosse apenas para me mandarem comprar cigarros, como se fazia naquela época aos que iniciavam a carreira.

Leandro Paul

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