Director: Júlio Manjate   ||  Director(a) Adjunto(a): 

Retalhos e farrapos: Tio Jorge está vivo (1) - (Hélio Nguane)

 

- Como tio Jorge está vivo?

- Eu vi! Vi tio Jorge. Vi, vi e vi, mamã.

- Tu mentes muito. Como podes ter visto alguém que morreu? Mortos não andam de tarde.

- Eu vi.

- Cala-te! Não voltes a repetir esta maluquice, se não vais sentir a varinha no teu corpo. Vou-te sacudir.

- Mas, mamã!

Sem argumentos, a criança saiu à rua, brincou até a terra suja dos seus pezinhos confundir-se com a sua pele.

- A mecânica voltou, disse Joana.

- Matilde, esta menina está cada vez mais indisciplinada, brinca até anoitecer e fala coisas sem pés nem cabeça.

Passos curtos e velozes, a criança tem aparência de Matilde e um ar masculino acentuado.

Enquanto as duas irmãs conversavam, sorrateiramente, aproximava-se.

- Tia Joana, vi o seu marido na Ronil, no contentor perto daquele cemitério. Tia, juro que vi.

Sem olhar para a cara da irmã, Matilde levantou-se, pegou no chinelo esquerdo com a mão direita e o chão sentiu-se agredido pelos passos rudes da dona de casa. Tininha correu, tinha a possibilidade de abrir a porta e se encontrar com a rua, mas decidiu se render depois de um minuto de perseguição.

A mão de Matilde é leve, o chinelo levantava agressivo, mas na volta estava fraco e amaciava a criança que se encontrava encolhida no chão.

Tininha gritava, não de dor, em protesto e para comover a mãe. Depois de um minuto de acção, Matilde deixou o chinelo, sentou-se, a sua capulana beijou o chão lamacento que dormia tranquilo ao pé do tanque.

Joana apareceu, entregou a mão e levantou a irmã. Depois segurou a menina no colo, pediu água morna, agarrou o pedaço de xiguema verde na mão esquerda e na direita o saquinho vermelho e ensaboou a sua sobrinha.

O sabão escoria pela cara, os olhos da menor estavam fechados, a boca inquieta, a miúda queria falar a todo custo.

 - Fique quieta, se não vais comer sabão!

A menina escutou as palavras, no entanto insistia, em vão. A capulana enrolou o seu corpo que de seguida foi untado com óleo. Assim, a mecânica ganhou outro aspecto.

-Agora está limpa! - gritaram em coro as irmãs Massango.

Comments

Timbilando: Fora de regras  (Alfredo Dacala-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

 

NOS finais dos anos 80 e princípios dos anos 90, a Educação entrou numa grande crise sem precedentes. Entalados entre o PRE e os problemas no sistema, que não permitia nenhum avanço na carreira, muitos professores, formados então na Faculdade de Educação da Universidade Eduardo Mondlane, começaram a deixar o sector, indo engrossar os bancos e outras empresas à procura de condições, que um professor não podia almejar.

Além disso, não nos podemos esquecer dos famosos dias de greve no Jardim dos Professores, ali junto à Josina Machel, que culminaram depois com a célebre grande marcha, marcada para ser feita por toda a cidade, e que, infelizmente, foi parada à bastonada pela Polícia de Intervenção Rápida, algures na Avenida Eduardo Mondlane, em que os professores tiveram que inventar familiares nos prédios altos da cidade, onde, à corrida, foram dar.

Aquilo era “pernas para que vos quero” na fuga à porrada séria e aos cães-polícias, que os perseguiam. Daí que sem que as suas reivindicações fossem atendidas e “apanhando” daquele jeito na rua, uma boa parte de professores formados tiveram que optar por fazer outra coisa, largando a educação.

Hoje a situação na Educação melhorou muito e já se pode falar à vontade de promoções e progressões e até de mudança de carreira. Por isso, causou estranheza o facto de, semana passada, um grupo de professores ter sido visto aglomerado na Matola à frente da Direcção de Educação.

O que estará ali a acontecer? Perguntavam uns. Quem são aqueles? Perguntavam outros. São professores que vão saber de promoções e progressões, respondiam os mais entendidos.

Depois, pelos órgãos de comunicação social, ficámos a saber da “missa” toda e com os falantes em voz anónima. A maior parte daqueles professores iam saber, segundo disseram, das suas progressões e promoções, que “nunca saem”, segundo eles, apesar de já terem pago aos “seus superiores” para aquilo andar.

Muitos afirmaram que pagaram dez mil meticais para ver o seu expediente andar, mas até ali nada havia sido mexido, por isso tinham enveredado por aquele caminho para verem o seu assunto resolvido.

Não sabemos como aquele assunto foi resolvido, mas a julgar pelo que aconteceu nas outras províncias, em que houve concurso para seleccionar os que podiam ser promovidos ou progredir no ano passado, 2018, e os que sobraram para entrar este ano, e mais o grupo daqueles que vão entrar em 2020, só podemos pensar que tudo correu bem. Senão podemos ser tentados a pensar que algo anda estranho no processo da província de Maputo, que causou aquela situação havida na Matola.

É que cada funcionário que cumpre os requisitos exigidos para a progressão ou promoção, em processo limpo, em princípio sabe onde devia estar, não sendo necessário este expediente de avançar dinheiros para o processo se normalizar.

Mesmo com este “apagão” de cerca de dois anos, em que não houve mexidas nas progressões e promoções, num departamento de recursos humanos minimamente organizado, parece claro sobre qual é o lugar de cada professor.

Por isso, se não estiver claro, algo está a acontecer fora de regras, que regem o processo, e que é preciso averiguar e responsabilizar as pessoas, que tratam o assunto com leveza e de forma desorganizada. Os professores não precisam de estar a despender o seu magro salário para pagarem alguém para terem uma progressão ou uma promoção. É direito deles, que vão conquistando com o seu trabalho. Por isso, haja respeito para com eles e se trabalhe dentro das regras, porque também foram feitas para serem seguidas. 

 

Comments

NUM'VAL PENA: Assalto à KaTembe!  (Leonel Abranches)

 

POR estes dias, o sol anda mal-educado. De repente deu-lhe para andar aos pinotes bem perto de nós. Madrugada e já está aí à janela às piruetas querendo brincar de “queima-queima”.

Andamos com os neurónios esquentados até descompassar as nossas consciências. “Juro palavra d´honra” não está a dar. Resultado: milhares de pessoas buscam alternativas e aos magotes procuram as praias mais à mão. Costa do Sol e KaTembe surgem na pole position. Os que decidem pela KaTembe, às primeiras horas de qualquer fim-de-semana, longo ou nem por isso, tartarugam em direcção ao cais, ou pela novalíssima ponte de onde se fazem à praia, carregados de espécimes alimentares, companhia carne, xima, feijoada com alguns, etc., com rubricas etílicas que vão desde a água a retemperadores vinhos e aos poucos simpáticos whiskies e brandies (“tentados” por double punch e gin). Enfim, a praia da KaTembe é literalmente obliterada por gente de todas as estirpes. Violentamente ocupada. Violada nas suas mais elementares marcas de ingenuidade e de pureza. Milhares de pessoas disputam o mesmo espaço. De repente, a calmaria que lhe era característica passou para o passado. Não dá para acreditar naquele espectáculo de meter dó. As ruas e ruelas tornaram-se em pistas de corrida, com marmanjos ao volante atestados de álcool. Mulheres, algumas de trajes da mais ínfima provocação, são ultrajadas e vilipendiadas por delinquentes asquerosos. As meninas bamboleiam-se de um canto para o outro mostrando-se para os rapazes, autênticos pescadores de inocências. Acho extremamente violento o que nos apresentam como sugestão para o lazer. O que mais intriga é que a mulher virou símbolo de degradação moral e social. E quanto menores trajes tiver melhor. Ela deverá servilmente bambolear-se e mostrar provocantemente as suas partes pudendas. Em poses de strip tease naturalmente obscenos e de um profundo desrespeito. Ora, na praia é também a “memacoisa”. As meninas que se fazem a lugares públicos desnudas nem sequer notam que com o tempo vão passar por um “desmerecimento social”, o que as levará a pulular por ruas interiores e estreitas em evangelização rameira e revendendo a sua competência massinguitizada.

Mas o perfil de uma iminente tragédia, bem dito, começa a desenhar-se às últimas horas da tarde. Homens, mulheres, idosos e crianças fazem-se de volta, quer pela ponte como pelas embarcações. E aí começa o caos. A balbúrdia. Centenas e centenas, e mais outras centenas, autênticos cogumelos, entopem o diminuto cais de acesso aos barcos. Jovens atestados das mais bizarras mixórdias alcoólicas, com os olhos estranhamente enviesados, em transe espírita, cantando estrofes carregadas de sacrilégios e com as almas profanadas, insultando e ululando imbecilidades, invadem os acessos à ponte.

Alguém duvida que aquelas imagens chocam com a nossa honestidade intelectual? Mais do que isso, porque assistimos impávidos e serenos e de camarote à iminência de uma tragédia?

Depois vão todos dizer: “aquele gajo avisou...”Como se um gajo fosse meteorologista social!

Comments

ACENTO TÓNICO: Com o ano lectivo à porta (Júlio Manjate-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

 

CAMINHAMOS a passos largos para a abertura do ano lectivo 2019. Todavia, nas cerca de duas semanas que faltam até 1 de Fevereiro, há tempo suficiente para tanto os alunos como os pais e encarregados de educação se prepararem para enfrentar o ano escolar com estilo.

Há tempo, sim senhor, para procurar e comprar livros para as nossas crianças, e não deixar para a véspera do arranque das aulas pois, nessa altura, já o mercado estará infestado de “marhandzas”, termo que tomo por empréstimo para me referir àqueles comerciantes e intermediários desonestos e reincidentes, que gostam de aproveitar momentos para lucrar mais do que merecem…

De facto, imagino que, nesta altura, essas “toupeiras” já se estejam a infiltrar nos circuitos formais de distribuição do livro escolar para, a dado momento, tal como vêm fazendo anualmente, com sucesso, desviarem alguns títulos para provocar ruptura na oferta desse material no mercado, determinando uma explosão na procura.

Com o caos instalado, eles trazem de volta o material que desviaram do circuito normal de distribuição e colocam à venda, preferencial no mercado informal, a preços inflacionados. Como diria o outro, “criam dificuldades para vender facilidades…”.

Algo me diz que podemos concorrer para acabar com esta prática se começarmos cedo a preparar o ano escolar das nossas crianças pois, quem sabe, na hora de os malandros entrarem em acção, teremos adquirido o material para os nossos educandos, e já não teremos aquela pressão que geralmente nos faz aceitar pagar preços absurdos.

Mas mais do que adquirir livros, cadernos, lapiseiras e pastas para as nossas crianças, enfrentar o ano escolar com estilo é também providenciar o fardamento para elas; e certificarmo-nos de que estamos a comprar o uniforme correcto, sem viciação no tom das cores ou com aquelas extravagâncias que muitas vemos muitos alunos exercitar ao longo do ano.  

Mas a vantagem de adquirir o uniforme escolar a tempo vai além de evitar que sejam os próprios pais e encarregados de educação a promover a coisificação do fardamento, e a vulgarização da escola e da educação como um processo inerente aos nossos dias.

Não acho que haja problema em os pais conferirem a roupa que as suas crianças hão-de usar durante o ano, verificar em tempo útil para impor alterações se for necessário! De facto, é a eles que cabe, em primeira instância, garantir que os rapazes e raparigas não se apresentem na escola com o uniforme adulterado, tornando-o numa roupa inútil, que não identifica o Homem Novo que pretendemos construir nas nossas escolas.

Mas também é altura ideal para definir a maneira como a nossa criança vai cumprir as viagens de ida e volta da escola, já que, com a “febre” do transporte escolar, há cada vez mais pais e encarregados de educação a optar por contratar estes serviços para as suas crianças.

De facto, identificar atempadamente um transporte para a sua criança, vai permitir-lhe saber quem é esse transportador, a partir do seu histórico de prestação que pode ser obtido de pessoas que tenham feito uso do seu serviço.

Em falando de transporte escolar, julgo estar na hora de os pais e encarregados de educação, as escolas e as associações de operadores começarem a trabalhar de forma articulada, para evitar que continue a haver transportadores irresponsáveis que “entulham” crianças nas carrinhas, de olho no lucro e sem a mínima preocupação com a segurança e educação dos alunos que transportam.

Creio que os transportadores devem também jogar um papel na educação das crianças que transportam, não permitindo, por exemplo, manifestações de indisciplina a bordo, cenas de bulling, e outras que sabemos que acontecem nas carrinhas, e que de facto concorrem para atitudes e comportamentos desviantes, que interferem na plena formação da criança/adolescente ou jovem.

São as pequenas coisas que fazemos hoje, que farão uma grande diferença, amanhã!

Comments

Limpopo: Casa de ferreiro, especto de pau  (César Langa-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

 

TENHOquase a absoluta certeza de que muitos amigos do Limpopo conhecem o provérbio popular hoje selecionado para o título, mas vale a pena partilhar que tal retrata uma situação de um hábil não saber usar da sua habilidade para o benefício próprio. Posso não ter sido totalmente feliz, mas fica a ideia. Existem outras versões para retratar situações semelhantes, como quando se diz que “carpinteiro não tem cadeira”, ou “alfaiate não tem fato” e por aí em diante.

Agora, a curiosidade é da relevância deste, ou destes adágios, no dia de hoje, mas, dentro da sua generosidade, Limpopo vai explicar as razões, inspiradas na denominada gestão filantrópica do edil da cidade de Xai-Xai, Ernesto Chambisse, principalmente na componente da reabilitação de diversas artérias desta urbe.

Bem mesmo no “coração” da cidade, ou melhor, na zona nobre da capital provincial de Gaza, existe um troço que parte de lá das bandas da Escola Secundária de Xai-Xai e desce até a residência do administrador de Xai-Xai, fazendo uma espécie de perpendicular com a EN1. Ao longo do seu percurso, pode se encontrar, neste troço, diversas instituições, entre públicas, privadas e ONG’s. Não sendo justamente a pavimentada rua que vai até ao hospital provincial, nas investigações feitas constou-me que este troço se chama “Rua do Hospital”. Não tive como discutir, pois não existe nenhuma placa toponímica no seu princípio e no seu fim, o que configura mais uma razão para esta abordagem.

O troço em referência, que leva(va) asfalto e que vai desaparecendo aos bocados, ante a indiferença das autoridades municipais, tem ainda a responsabilidade de albergar uma das residências protocolares do Governo da Província, para além de ser nesta mesma ruela onde mora o Director Provincial das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos.

Nesta mesma rua, estão instaladas as bibliotecas provincial e municipal, sendo esta última a razão mais do que suficiente para a frequência das entidades máximas do município e por isso improcedente a justificação de eventual lapso de visão, ou mesmo distracção por parte de quem cuida (ou deve cuidar) das artérias desta autarquia.

Pelas características que apresenta, o asfalto que vai caindo aos pedaços deve ter sido colocado na altura em que a gestão da Vila João Belo estava sob alçada do colono. Durou até onde pôde (não foi pouco tempo, não!) e acabou cedendo, porque nada consegue resistir uma eternidade perante a pujança e a musculatura do tempo.

Limpopo perde sono sempre que pensa em ter de passar por este troço, fazendo suas “patrulhas” na cidade onde se encontra sediado, pois alguns buracos são verdadeiros atentados contra a suspensão de carros dos munícipes que queiram fazer-se aos estabelecimentos de ensino ali existentes, em forma de condomínio e a pergunta que não quer calar, é sempre a mesma: o que se pensa fazer deste pedaço de estrada da zona de elite de Gaza?

Hoje, o assunto acaba sobrando para o Dr. Chambisse, porque teve o desconforto de “cruzar o caminho do Limpopo”, por mera contemporaneidade, mas a degradação também já foi alvo de olhar indiferente por parte dos anteriores gestores de Xai-Xai, cidade que tem a sorte de pertencer a um grande número de munícipes filantropos, mas como azar a sobrar apenas para esta ruela que, pela natureza, localização e outros factores, deveria merecer total prioridade. Mas, como disse em título, “casa de ferreiro, especto de pau.”

Tenho plena consciência da existência de outras ruas ou troços em avançado estado de degradação e que precisam mesmo de uma mão piedosa, mas... sinceramente, os cerca de 300 metros da Escola Secundária de Xai-Xai até à residência do senhor Administrador Dove já não mereciam ser referenciados nos termos em que Limpopo o faz aqui e agora.

Talvez seja uma carta na manga do edil Chambisse, para sair em beleza. E se for o caso, vou torcendo, porque gosto de assistir a um jogo limpo(po).

Comments
Template Settings

Color

For each color, the params below will give default values
Tomato Green Blue Cyan Dark_Red Dark_Blue

Body

Background Color
Text Color

Header

Background Color

Footer

Select menu
Google Font
Body Font-size
Body Font-family
Direction