Director: Júlio Manjate   ||  Directora Adjunta: Delfina Mugabe

SALINA de “pedra de lume” – é uma das praias mais atraentes do continente africano, por as pessoas acreditarem em lendas seculares, segundo as quais quem lá mergulha rejuvenesce 50 anos.

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APÓS uma longa jornada de trabalho, na zona recôndita de Nanticua, na província de Nampula, vimo-nos mergulhados numa noite, uma noite muito escura, de inverno, aumentando o medo que tínhamos dos riscos acrescidos com o uso “abusivo” da luz do telefone móvel, já que se estava numa região envolta de mistérios.

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JÁ lá vão os tempos em que moçambicanos de todas as idades, sob o comando das estruturas de bairro ou outras, saíam à rua, sobretudo aos fins-de-semana, para fazer trabalho comunitário, em voluntariado, sobretudo o que tinha a ver com questões ambientais, nomeadamente, limpeza do quarteirão, ruas e pracetas, das valas e valetas, criando um ar puro junto das comunidades.

Todos achavam isso muito importante para o seu dia e ninguém faltava à tarefa de jeito nenhum. Uns iam para responderem às medidas rigorosas de controlo das estruturas do bairro, mas muitos outros iam mesmo por voluntarismo que tinham assimilado.

No ano 2000, essa experiência foi válida para criar uma alternativa de passagem de carros pela ponte da actual avenida 4 de Outubro, antes de ter este nome, pois antes se chamava Rua da Sonefe e subia até à subestação eléctrica do Infulene.

Dizia que a experiência foi válida porque por causa do dilúvio do início do ano 2000, a ponteca construída no tempo colonial sobre o rio Mulauze desabou. Pouco tempo depois apareceram “gai-gais” por tudo o que é canto carregando pessoas, sobretudo mulheres para atravessar aquele perímetro. Os homens achavam aquilo desprestigiante e por isso montaram logo ali, onde a ponte se foi, duas alongadas estacas de eucalipto de passagem para o outro lado, em equilibrismo.

Pouco depois, quando as águas baixaram, houve necessidade de criar uma alternativa de fazer com que os carros pudesse também atravessar. Dizer que o alcatrão da estrada, onde ainda existia, pois a rua estava esburacada antes do grande dilúvio, tinha sido arrasado pelas enxurradas em vários pontos.

Reuniu-se um grupo de cidadãos e mobilizou-se outra gente. Levou-se pás, enxadas, martelos, ancinhos e outros instrumentos. Cidadãos voluntários trouxeram pedras e entulhos. Em dois fins-de-semana consecutivos  construiu-se uma alternativa de passagem de carros até ao bairro de Benfica, enquanto se esperava que o Município da Matola reunisse fundos para fazer melhor, facto que veio a acontecer tempos depois com a construção da avenida 4 de Outubro.

Mas pelo menos “a força do povo” tinha vincado, para beneficiar as pessoas e a si próprio. O que, diga-se, é sempre uma forma de conviver juntos, de trabalhar em comunhão, de fazer “coisa útil” para a comunidade, que, actualmente, nem sempre encontramos nas pessoas.

Recordo-me da minha experiência quando fui inserido ao acaso numa comissão de condomínio, mais ou menos no início do ano 2001, em que os membros tinham que andar de apartamento em apartamento para fazer cobranças da quota do condomínio estabelecida, de modo a conseguir-se juntar dinheiro para amortizar despesas das partes comuns do prédio: pagamento de guardas e para reparação e manutenção do elevador, que avariava de tempos e tempos. Apesar de todo o esforço que fazíamos, havia alguém que não pagava coisa nenhuma.

Coisa curiosa é que os que não pagavam as quotas ainda tinham o desplante de vir dizer que os membros da comissão tinham que receber pelo trabalho que fazem, sabendo que o dinheiro não chegava sequer para colmatar as despesas correntes. Esqueceram-se ou não queriam saber de que a comunidade deve estar sempre pronta a trabalhar para o seu bem, seguindo objectivos não materiais.

Dado o nosso voluntarismo e grande dedicação, algum tempo depois conseguimos angariar alguns montantes externos, o que fez com que com o dinheiro das quotas, começássemos a ter dinheiro, um pé-de-meia no banco e já não era problema pagar as despesas correntes.

À altura que a comissão pediu para sair, acho que cinco anos depois, para que os condóminos escolhessem outros moradores do prédio para liderar a sua gestão, em sistema rotativo, havia um saldo no banco quase de 100 mil meticais. Ao que se sabe, os que nos sucederam, logo de seguida, quiseram se pagar pelo trabalho e a coisa foi abaixo de novo! 

Alfredo Dacala-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

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A ASSEMBLEIA da República (AR) não aprovou, na última sessão extraordinária para o efeito convocada, o projecto-lei sobre a descentralização governativa do país. O documento havia sido produzido na sequência dos entendimentos alcançados no diálogo entre o Presidente de República e o falecido líder da Renamo, Afonso Dhlakama. A justificação apresentada para a não apreciação e consequente aprovação do documento, foi a de que o Governo condicionava tal facto à desmobilização e integração dos homens armados da Renamo.

Muitas vozes se levantaram, umas a favor da posição da AR (entenda-se a bancada maioritária), outras, contra, a começar pelas bancadas da Renamo e do Movimento Demográfico de Moçambique (MDM), e, por extensão, muitos membros e simpatizantes dos dois partidos. O entendimento dos que se posicionaram contra a posição anunciada na AR, é, ou foi o de que o PR e o falecido presidente da Renamo tinham acordado avançar com o processo de descentralização – que conduziria ás eleições autárquicas de Outubro, ficando as questões militares para uma fase posterior.

Esqueceram-se, os donos dessas vozes discordantes, que a razão principal da retomada do diálogo no (novo) formato em que foi retomado, foi a criação de bases sólidas para o restabelecimento de uma paz definitiva. Em que consiste, afinal, a criação das tais bases sólidas? Resposta: consiste na eliminação dos factores propiciadores de desestabilização, ou seja, os homens armados do partido Renamo. Eliminação, que significa, neste caso, primeiro, a sua desmobilização e, em seguida, a sua integração nas diferentes unidades que compõem as Forças de Defesa e Segurança e na vida civil.

Esqueceram-se também, não sei se propositadamente, que entre os entendimentos alcançados pelo PR e pelo malogrado líder da Renamo, está o capítulo respeitante à entrega, pela Renamo, das listas separadas de seus homens para integrar nas Forças de Defesa e Segurança e na Polícia da República de Moçambique. Chamo atenção do caro leitor para a conversa havida semana passada, entre o Presidente da República, Filipe Nyusi, e o coordenador da Comissão Política daquele partido, Ossufo Momade.

Nessa conversa, como se sabe, foi acordado que a Renamo deverá entregar dentro de 10 dias – provavelmente contados a partir do dia do encontro, as tais listas dos seus homens armados, por forma a encetarem-se os passos seguintes no processo da sua desmobilização e reintegração. A propósito, o Chefe do Estado fez questão de destacar o facto de não ter sido possível o desarmamento, desmobilização e integração dos efectivos renamistas em 1992 e em 2014, frisando que desta vez vai ter de acontecer.

Apontou como testemunha da irreversibilidade do processo, a promessa da Renamo de entregar, nos próximos dias, as listas dos homens para incorporar nas forças de defesa e segurança. Por seu turno, Ossufo Momade assegurou que não há interesse da sua formação política em continuar a manter homens armados. “Não há ninguém no partido Renamo interessado numa posição contrária a esta”, acrescentou.

São sintomáticos, por convergentes, estes dois pronunciamentos. E justificam, de certa forma, a posição de condicionar a aprovação da legislação sobre a descentralização governativa do país anunciada no parlamento. Na verdade não se tratou de condicionamento. O ponto é que a descentralização e a desmobilização/integração dos homens armados da Renamo são como que um caminho de ferro. Sim, porque um comboio só pode seguir equilibrado sobre duas linhas paralelas. Caso contrário…

Como é bom de ver, o Governo ao condicionar a apreciação e consequente aprovação do projecto de descentralização, estava, na verdade, a chamar a atenção do seu interlocutor para a necessidade de as duas partes cumprirem os termos acordados em sede do diálogo sobre a matéria. Não havia pois que “passar por cima disso”, sob o risco de se perpetuar uma situação que se pretende e se deseja terminada.

Há que referir, de resto, que grande parte do pacote sobre a descentralização já acordado, foi-o porque o Governo cedeu perante as exigências do partido Renamo. O mesmo é dizer, até este momento se conhecem apenas os avanços que resultaram da cedência deste. Em sentido contrário, não se conhece nenhum dado indicativo de que a Renamo cedeu “aqui e alí”. É, pois, altura de a Renamo mostrar a sua boa fé, cumprindo a parte que lhe cabe nos acordos alcançados. Principalmente para que ela pare de recorrentemente, nos momentos eleitorais, procurar impor-se, ameaçando “partir isto tudo”, se a Frelimo brincar… Desmobilizar e integrar os homens armados da Renamo é garantir que o comboio volte a seguir sobre duas linhas…

Marcelino SilvaEste endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

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DEPOIS de alguns dias a desconfiar do desempenho do seu organismo, Etelvina (nome fictício) decidiu ir à busca de resposta para a pergunta que não calava: aquelas manifestações do seu corpo eram ou não sintomas de malária?

Decidir ir ao hospital não foi tarefa fácil para Etelvina, que guarda memórias amargas de algumas vezes que foi parar a uma unidade sanitária. Uma das vezes foi quando, depois de cerca de cinco horas à espera num banco, combalida, acabou tendo de regressar à casa sem no mínimo ter sido ouvida por alguém de bata branca, tudo porque às 15.30 horas, o pessoal de serviço anunciou que estava na hora de fechar o atendimento. A recomendação era que os doentes regressassem no dia seguinte, salvo os casos de emergência, que podiam procurar os serviços de urgência…

Na verdade, o caso da Etelvina até não inspirava atendimento de urgência, tanto é que conseguiu, sozinha, “arrastar-se” de volta à casa, onde entre gemidos de dor e desespero, geriu a doença até ao dia seguinte, quando voltou à unidade sanitária. Desta vez teve melhor sorte porque foi atendida por uma enfermeira que dividia a atenção com um telemóvel que não parava de vibrar, e com o qual ia trocando sorrisos enquanto prestava, esporadicamente, atenção à paciente, a quem ia colocando perguntas soltas.

No fim, com toda a naturalidade, receitou uma lista de medicamentos, parte dos quais foi advertindo que só podia comprar numa farmácia privada, uma vez que a do hospital não os tinha… Felizmente, Etelvina “safou-se” desta.

Outro episódio que horrorizou Etelvina foi quando uma vizinha sua perdeu a vida, no hospital, depois de lhe terem faltado cuidados médicos em tempo útil, pois quando finalmente teve acesso à sala de urgências, pela mão de um jovem médico conhecido que percebeu a gravidade da situação, já não havia muito que fazer. A mulher tinha sido atropelada por uma motorizada numa das ruas da cidade, tendo sofrido uma hemorragia interna por ter embatido violentamente com a cabeça no asfalto. Como não tivesse sinais visíveis de ferimento, foi sendo relegada ao segundo plano pelo pessoal das urgências, alguns dos quais até se referiram ao caso como “não grave”, deixando a pobre mulher, aos gemidos, encostada num dos concorridos bancos do hospital…

Incomodada com o mal-estar que, pelo terceiro dia consecutivo, a impedia de ir à luta pela vida, Etelvina decidiu desafiar todas as memórias negativas que tinha do hospital, e foi à consulta. Primeiro foi ao Laboratório de Análises Clínicas (LAC), por ser perto de sua casa, onde foi realizar um exame de plasmódio. Ao fim de cerca de dez minutos, lá veio o resultado: Malária, uma cruz! Com o resultado, ela recebeu também uma receita de antimaláricos.

Desconfiada da rapidez com que lhe foi diagnosticada a malária, e da maneira algo “desportiva” como foi tratada pelo pessoal, Etelvina decidiu, já a caminho da farmácia, que podia realizar mais um teste, desta feita no hospital.

Feita a colheita da amostra de sangue, aguardou por cerca de meia hora no banco, sentada, até que veio o resultado: Não havia qualquer indício de malária! Em menos de uma hora, Etelvina tinha dois resultados contraditórios de exames médicos, e uma receita de medicamentos.

O cansaço e a febre que já lhe disputavam o corpo havia pelo menos dois dias, Etelvina começava a fraquejar, até mesmo pela situação embaraçosa em que estava metida. Era preciso agir depressa! Quando me ligou a colocar o problema, sugeri que fosse a mais um exame, num outro hospital, para onde a levei numa viagem de cerca de vinte e cinco minutos de carro. Fizemos a distância praticamente sem conversa.

Aqui, o teste demorou cerca de 40 minutos, e o resultado veio positivo. Etelvina tinha malária, agora de duas cruzes! Explicamos ao técnico que aquele era o terceiro exame feito na mesma manhã, com resultados diferentes, e perguntávamos a qual dos resultados devíamos fazer fé.

- Afinal por que é que vocês vieram para aqui? Escolham o que for o melhor para vocês. Para mim, o resultado é esse aí… - fim de conversa!

Cabisbaixos, saímos para a farmácia. Compramos os antimaláricos receitados. Há três dias que Etelvina está a medicar. O que tanto eu quanto ela não sabemos, é se a melhoria que está a registar é mesmo resultado dos antimaláricos ou se é obra do próprio organismo que, eventualmente, não chegou a hospedar o famigerado falciparum

Esta é uma história igual a muitas que acontecem pelo país fora e conto-a exactamente para denunciar a mediocridade, a falta de brio, responsabilidade e de competência técnica por parte de alguns profissionais da saúde.

A cada dia me convenço que está na hora de humanizar o atendimento nos nossos hospitais.

Júlio Manjate-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

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