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PERCEPÇÕES: Cortar o mal pela raiz - Salomão Muiambo - (Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

A LIÇÃO “cortar o mal pela raiz” ensina-nos que devemos eliminar qualquer que seja o problema antes que ele piore. E para eliminá-lo é preciso ir à raiz, ou seja, à essência desse mesmo problema, tal como fazemos quando pretendemos, por exemplo, aniquilar uma árvore.

Só que, infelizmente, não é o que acontece entre nós. Quando identificamos um problema, ao invés de eliminá-lo a partir da sua essência, vamos às folhas e aos galhos e deixamos a raiz. Mais tarde, tomamos a consciência de que tal mal prevalece e, talvez, com raízes muito profundas tornando-se difícil eliminá-lo, mesmo usando catanas, machados e toda a força de que dispomos.

Vem o longo e complicado introito a propósito de um mal, ainda em embrião, que germina nas zonas adjacentes à recém inaugurada Ponte Maputo-Katembe e ao longo da estrada que liga Katembe à Ponta de Ouro e Bela Vista-Boane: a ocupação destes espaços por vendedores informais. Se nada se fizer para “cortar o mal pela raiz”, não tardará o surgimento de barracas para a venda de “comes e bebes” e bebidas alcoólicas, o que, vergonhosamente, tiraria a beleza arquitectónica da majestosa Ponte Maputo-Katembe e estradas adjacentes e, como se tal não bastasse, colocaria em permanente estado de insegurança os principais utentes desta infra-estrutura socioeconómica e turística.

Ao longo dos primeiros dias da abertura da via, vimos actos de arrepiar os cabelos: indivíduos desfilando ao longo da ponte, umas comendo e bebendo, outras dançando ao som de música diversa e, muitas outras, fazendo fotografias, mesmo sabendo-se de antemão que é vedada a circulação de peões ao longo da obra. Os mais atrevidos, depois de consumirem tanto álcool, livravam-se de certas necessidades biológicas em qualquer lugar, num gesto atentatório à beleza da ponte e, se calhar, mais do que isso, à saúde pública.

Ora, inspirei-me na lição “cortar o mal pela raiz” para chamar atenção aos “donos” da estrada para a necessidade de não deixarem o mal enraizar-se porque, se tal acontecer, nem com machadadas, nem com catanadas conseguirão exterminá-lo. Os vendedores informais que procuram tomar de assalto as zonas adjacentes à ponte devem ser afastados, nem que isso implique o destacamento permanente de uma unidade policial canina para evitar, mais tarde, o que aconteceu, por exemplo, quando se construía a ponte em que os vendedores informais do “Nwankakana” recusavam-se a abandonar a zona pedindo indemnizações. Aliás, uma recusa que, acredito, acabou tendo a sua influência nos prazos da conclusão e consequente entrega da infra-estrutura.

Aos demais prevaricadores, refiro-me concretamente aos que violam as regras estabelecidas, abrigando-se debaixo da ponte, urinando ou atravessando-a de uma margem para a outra, baixando os níveis de segurança no que tange à circulação rodoviária, esses devem ser chamados à razão através de medidas punitivas.

 

Repito que se estes males não forem cortados pela raiz corremos o risco de a Ponte Maputo-Katembe e a reserva das estradas para a Ponta de Ouro, Bela Vista e Boane, inseridas no mesmo projecto, virarem corredor da morte, com prejuízos incalculáveis daí decorrentes.

 

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De vez em quando: “Diogo” da Katembe - Alfredo Macaringue

 

HÁ quem diga que o “Diogo” faz parte do passado. Que foi esmagado pelas rodas do tempo. Isso é mentira. “Diogo” é um vulto presente, mesmo estando hoje limitado nos seus movimentos por conta de uma doença que pode ser de origem cardiovascular. É uma figura cuja estatura cresceu há anos à dimensão da própria Katembe.

No passado sábado estava eu sentado em casa a assistir a todas as movimentações inerentes à inauguração da Ponte Maputo-Katembe, muito longe de pensar que nas imagens transmitidas pela televisão iria ser focada uma figura pertencente à história. À história da Katembe e, por via disso, de Maputo também. Porque em tempos, de Maputo faziam-se travessias intermináveis com o propósito de ir degustar de um bom camarão no Restaurante Diogo.

“Diogo” estava ali sentado entre várias personalidades, não sei bem se numa cadeira de rodas ou numa normal, já que na perspectiva do “câmera-man” só podíamos vê-lo dos ombros para cima. Mas via-se perfeitamente que era o “Diogo”. E imediatamente renovaram-se as memórias do camarão e da cerveja, consumidos à fartura no lugar emblemático da Katembe. Naquele tempo bom.

Para mim, Katembe tem que partir daqui: do “Diogo”. É a partir do “Diogo” que vou à busca do antes e do depois. A ponte é de agora. Agora que este homem já não consegue suster-se sobre as suas pernas. Os repórteres deviam ter-se aproximado dele, mas não o fizeram. Não para lhe ouvir falar das possibilidades que a ponte oferece para o desenvolvimento económico, mas para ouvir os “contos de fada”, que são muitas naquela cabeça de origem goesa.

Se os pilares da nova ponte fossem as pessoas, uma dessas pessoas seria o “Diogo”, pela sua existência discreta. Pela sua afabilidade e disponibilidade para servir o próximo. Pela sua solicitude. E mais do que isso, pela sua entrega ao trabalho. Ele é, por assim dizer, um dos ícones vivos da Katembe.

A ponte Maputo-Katembe, sem dúvida, é o orgulho de todos os moçambicanos. Quem construiu aquela obra, segundo as palavras do Presidente Nyusi, é o povo moçambicano. Essas palavras, aliás, vieram dissipar de uma vez por todas quaisquer eventuais equívocos. “Quem construiu esta ponte é o povo moçambicano”. Incluindo o “Diogo”.

Hoje, o tempo mudou as coisas na Katembe, como mudou em todo o lado. Em todo o mundo. Mas há coisas que o tempo nunca vai mudar, uma dessas coisas é o passado do “Diogo”. Sinto-me privilegiado de ter sido uma das pessoas que estiveram perto dele algumas vezes, quando ainda tinha o peito aberto. Vigoroso. Quando ainda tinha a capacidade de descer à praia e controlar as redes do camarão.

Deu para matar saudades de um tempo, quando vi o “Diogo” na televisão. Quase sem iniciativa. Quase sem poder manter o ritmo. A vida é assim mesmo. Há coisas que superam os nossos desejos e as nossas capacidades.

Um abraço forte para o “Diogo”.

A luta continua!

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Entre Aspas: As eleições autárquicas e as “certezas” das de sempre… (2) - Marcelino Silva

 

É uma situação caricata de ver indivíduos que se vestem de títulos académicos ignorarem a linguagem dos números ao ponto de em manchetes de jornais, em espaços nobres nas televisões, afirmarem afanosamente que o que os números dizem não é a verdade. Se o que dizem estes ilustres fosse dito por um qualquer não surpreenderia, porque viria de um indivíduo incapaz de fazer a análise de um facto por todos assimilados.

O que é bom em países como o nosso, onde existe a liberdade de expressão - base para que os cidadãos tenham acesso a vários e diversificados menus de informação, é que é fácil saber, através deste ou daquele jornal, daquela ou doutra televisão ou estação de rádio, qual a realidade em termos de números do processo eleitoral.

É uma situação deveras esquisita que deve ser enquadrada num plano mais alargado, mas de realização no curto prazo. Sim, porque como se sabe, as próximas eleições, presidenciais, legislativas e das assembleias provinciais, são “daqui a nada”. Outubro do próximo ano. Dito isto, gostaria de partilhar a minha percepção sobre as possíveis razões da batalha pela “vitória” da Renamo nas últimas eleições.

Creio que estamos a assistir a uma estratégia deliberada de desinformação visando confundir a opinião pública. Isto numa primeira fase. A segunda fase dessa mesma estratégia integrará dois componentes: 1) a continuação da tentativa de descredibilização dos órgãos eleitorais e do Conselho Constitucional; 2) aprofundar a campanha de descredibilização da Frelimo e seu Governo; e 3) aprofundar a glorificação e endeusamento à Renamo apresentando-a como salvadora que faltava em Moçambique.

A estratégia inclui ainda as seguintes acções, que poderão preencher os próximos episódios de uma novela que não é na verdade nova:

  • aculturação dos eleitores para a desacreditação das estruturas de administração eleitoral;
  • aumento das doses de propaganda visando vilipendiar e desacreditar o peso legal das decisões do Conselho Constitucional;
  • aumento das doses de propaganda visando a “perpetuação” da ideia de que a Frelimo não ganha justamente as eleições;
  • preparação dos eleitores para virarem “as costas” à Frelimo;
  • criar dúvidas no eleitor, levando-o, primeiro, à indecisão e depois a “inclinar-se” para o candidato preferido dos promotores da “vitória” da Renamo;
  • continuação da propagação da ideia de que no país não se pratica a democracia, levando a que potenciais investidores desistam de investir no país;
  • finalmente, instalar no país uma situação de caos que propicie actos que conduzam à ingovernabilidade, oportunidade que pode ser aproveitada para clamar por “socorro) - de quem? Dos mesmos financiadores e promotores das organizações protestantes…

 

Poderão, alguns leitores, perguntarem-se: com que bases o autor deste texto chega a essas conclusões. A tentativa de resposta segue no próximo capítulo.

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POR quanto tempo mais vai a cidade de Nampula “carregada” de várias situações anómalas? Esta é a pergunta que vai crescendo de tom nas ruas, bares e restaurantes, locais de concentração de pessoas, transportes públicos e outros sítios.

Compreende-se, efectivamente, o crescimento de tom e o fervor dos debates na cidade de Nampula, sobre a sua actual gestão, caracterizada por um ambiente quase de caos, transparecendo que o Município relegou para o plano secundário o exercício da sua autoridade para organizar a cidade e impedir o agravamento de situações preocupantes de desmandos que começaram depois da morte do então edil Mahamudo Amurane.

Nampula, já o escrevemos, mas voltamos a repisar, e sempre voltaremos a repisar, enquanto for, cada vez mais necessário, lembrar a uma cidade em que continua a enfrentar os problemas como por exemplo, de invasão cada vez mais de estradas e passeios pelos comerciantes informais, construções desordenadas, circulação de camiões de grande tonelagem nas vias proibidas provocando danos, paralisação de semáforos, falta de paragens dos autocarros condignas e outros tantos.

Todavia, não tardará que Nampula seja cidade menos arborizada de Moçambique, caso algo não seja feito por parte de quem de direito para travar o abate indiscriminado de árvores, com destaque para acácias e consequente destruição, tirando a beleza natural da urbe além de complicar a preservação do meio ambiente, neste caso urbano.

Se há convicção por parte dos actuais gestores do Município, de que vão resolver durante os próximos cinco anos do seu mandato aqueles e outros problemas, mas uma coisa é certa: a mudança do actual cenário que se vive na cidade de Nampula, que conforme está dito, está a constituir motivo de críticas e reprovação quase que geral, exigirá muita coragem por parte, sobretudo, do actual presidente do conselho autárquico Paulo Vahanle, do qual se espera competência e principalmente frontalidade na tomada de decisões que visem à melhoria do ambiente de convivência social, económica, politica e doutra índole.

Aliás, mesmo que possa “desprezar” as análises críticas dos grandes problemas que enfermam Nampula, precisa de impor a si mesmo algumas metas para ter a coragem de alcançá-las, porque de facto, como já diz um adágio popular, saber o que é correcto e não o fazer é não ter a coragem. Ele terá que tomar uma atitude de coragem para que se ultrapasse o desmazelo e impunidade que, quer se aceite, quer não, caracterizam neste momento a cidade de Nampula.

Faz todo sentido que assim seja, até porque a nossa esperança começa a despontar, embora acautelada, com o anúncio da elaboração de uma nova estratégia que vai permitir o município retirar, nos tempos que vêm, dos passeios, vendedores que ocuparam por completo esses espaços destinados aos peões nas ruas, que se antevê, logo à partida, tarefa difícil, até porque já se fala de que será uma “guerra”, que poderá não ser fácil as autoridades camarárias vencê-la, enquanto em parte, se “refugiarem” na tolerância política. 

O pior é que o aparente estado de abandono a que a cidade de Nampula está votada, depois da eleição intercalar realizada em Março deste ano, não parece dar mostras de acabar. Pelo contrário, é cada vez maior, a revelar, a cada momento, aquilo que transparece o desleixo dos que, a nível da edilidade, têm a obrigação de cuidar dela.

Não parece ser verdade que deste que o Paulo Vahanle tomou posse em Abril do presente ano como edil de Nampula, depois de vencer aquela eleição, ainda não tenha tido tempo suficiente para verificar por exemplo, as obras de construção de infra-estruturas autorizadas e não autorizadas, para daí mandar demolir as ilegais que se acredita serem muitas.

Haja coragem senhor presidente do conselho autárquico de Nampula, para se inverter o actual cenário em que se encontra mergulhada a cidade!

 

Mouzinho de Albuquerque

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O CARRO passou agressivo. A poeira criou nuvens castanhas, todos levaram as mãos as faces, entre a boca e os nariz. Pedro soltou alguns berros, radiografou o chão duro do percurso de terra batida do bairro Chamissava à procura de uma pedra. Encontrou, agarrou com a sua mão esquerda caluda e arremessou. O pedregulho apropriou-se da raiva dos homens que foram humilhados por andar a pé e conseguiu tocar o “4x4”, aquele animal de quatro rodas que desafia os buracos de zonas áridas.

O proprietário do carro ouviu o estrondo, pensou em pausar, mas aumentou a velocidade, causando mais poeira.

Pedro e outras pessoas que andam mais de 40 minutos para chegar à terminal de Chamissava pronunciaram alguns insultos. A maioria tinha a ver com o azar da mãe que nasceu aquele ser que conduzia aquela feroz viatura.

O chão está quente, já são 14.00 horas, mas o sol ainda é intenso. Entre descansos, pausas e momentos de reflexão, era feita a caminhada. As conversas eram em Changana, Ci-Ronga e Ci-Ndindinde, as línguas misturavam-se, as relações de afinidade interligavam aqueles peões.

A paragem está vazia, Pedro continua a caminhada. Repara para o bairro, percebe que desde as cheias nada mudou, as pessoas foram retiradas das suas residências em 2000 e transferidas para um lugar sem condições mínimas. “Energia só tem aqui, mas ali ainda não chega. Água tem aqui, mas ali ainda espera”, queixava-se uma das vendedoras informais que tem o seu posto de trabalho nas margens da estrada.

O carro de caixa aberta não chega. “Mas é melhor andar a pé. Aquele carro suba e desce, desça e sobe, balança, trava e nós quase cai. Melhor andar a pé”, dizia um senhor de aparentemente 40 anos, de Nampula, que vive na KaTembe há mais de 20 anos, por causa da guerra.

Agora já são 15.00 horas e a caminhada ainda está longe do fim. Passa um carro, my love, na direcção contrária dos peregrinos. Em uma hora o carro vai retornar, pois só sai da paragem depois de estar lotado de gente. Aqui se sofre.

Chega-se à estrada nova. “Como é bonito. Pena que não foi feita para nos”, dizia Pedro em Ci-Ronga.

Os pés já estão em chamas, um caco de uma garrafa de cerveja mordeu o mapa do pé de Pedro. Pausa, tira o pedaço de vidro e continua a andar.

Já são 16.00 horas. Oferryboat está a carregar ainda. Uma hora já se passou, os peões têm o bilhete na mão e partilham a fila para entrar na embarcação dos carros. Falta pouco, às 17:30 a embarcação vai avançar.

Com os vidros fechados, as viaturas lentamente entram no ferryboat. Mas nem todas, um “4x4” faz das suas e a sua roda traseira quase acaricia os dedos longos do pé de Pedro. O homem olha para o interior do carro, observa que o motorista está embalado pela música. No leitor de música vem escrito Frampton. Na melodia da música, o condutor segue a sua viagem.

Depois de 30 minutos a embarcação avança. Enquanto a viagem prossegue, Pedro junta os factos. Enquanto acaricia a ferida causada pelo caco de vidro, percebe que o “4x4” da poeira é o mesmo que reproduzia o som do músico britânico Peter Frampton.

Pedro olhou para ponte, que na altura ainda não havia sido inaugurada. E no carro feroz, o motorista escutava todos os temas do álbum “Somethin's Happening”. No momento escutava o coro da música “Golden Goose”: “Golden goose, turn me loose/ Golden goose, turn me loose/Golden goose, turn me loose”.

Embalado pelas ondas, os navegadores do barco rezavam para que os projectos implantados não tenham o mesmo impacto do filme: “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band”.

 Hélio NGUANE- (Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

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