Director: Júlio Manjate   ||  Directora Adjunta: Delfina Mugabe

SABE, já estava cansada. Fui falar com o vovó Maurício. Fiz a mesma pergunta: porquê o meu irmão já não fala?

O velhinho olhou-me e disse:

- Filha, se quiseres saber algo sobre alguém, deves perguntar a esse alguém.

-Não percebi vovó. O que disse? 

- Pergunta ao teu irmão por que já não fala, vai dizer-te.

Saí dali a correr, eram 17:00 horas. Tinha de tomar banho. Mamã como me esfregou!!! Disse que meus pés estavam muito sujos.

Jantamos, era domingo, e ouvimos histórias no Xirico. Fiquei com sono, dormi enquanto as pessoas da rádio ainda falavam.

No dia seguinte, enquanto comíamos xiquento na panela, ganhei coragem e perguntei porque ele não fala. Mano me olhou, ficou calado por muito tempo. Meti a minha colher na panela e na boca umas 10 vezes e Paulito não dizia nada.

Meu irmão como é teimoso, pensei que falaria, mas não falou. Paulito pegou na minha colher, bateu com um dedinho a minha mão e levou a panela que tinha caril de couve e arroz misturado.

 - Mano, depois me dá a panela para eu lamber aquelas partes de cima que eu gosto.

- Não!

- Mano falaste! Mano Paulito, falaste!

- Fatiminha, eu não preciso falar. Vovó Maurício disse que Deus está a escutar tudo que falo.

- Mas como esse senhor te escuta a falar?

- Vovó disse que ele está em todo lugar, escuta tudo, falamos com ele quando estamos de joelhos. Para falar com ele não precisamos abrir a boca.

- Esse Senhor deve ter orelhas grandes ou muitas orelhas.

- Cala, ele está te escutar agora.

- Desculpa.

- Eu só vou falar com todos quando Deus falar comigo.

- Mas já falaste comigo.

- Cala!

Quando sai dali, nem corri, fechei a boca e disse que também não quero falar.

Hélio Nguane

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OLIVER “Tuku” Mtukudzi, a estrela da música zimbabweana e, porque não, africana, completa exactamente hoje 66 anos de vida - uma vida de sucesso, diga-se.

Por essa razão e como minha singela homenagem, decidi resgatar uma crónica que escrevi há vários anos inspirado numa de entre várias entrevistas que o artista me concedeu, numa das suas demais passagens pela cidade da Beira.

Para um artista, ou para uma pessoa com o sucesso que fez ou faz, Tuku é, para mim, a personificação da humildade e da simplicidade.

E se a humildade ainda é a parte mais bela da sabedoria, como o provérbio enuncia, só posso dizer que Tuku é um homem de sabedoria, não raras vezes plasmada nas suas composições.

Aliás, numa dessas entrevistas lembro-me de ter dito que até pastores têm citado as suas letras nas suas homilias. Fantástico!

Trago hoje uma das lições de Tuku, muito a propósito da fama.

Diz o artista que muitos jovens talentosos matam as suas próprias carreiras logo à nascença por falta de humildade. A fama também mata! Defende e exemplifica:

 Se fazem uma música de sucesso, colocam-se logo no lugar dessa música. Passam eles a serem mais importantes do que a música. Eles nessa altura é que vão à frente.

 Atenção: as pessoas gostam do nosso trabalho, gostam do produto e da qualidade do nosso trabalho, não gostam de nós!

 São capazes de te ignorar e virar mesmo a cara numa paragem de mini-bus, por exemplo, acelerando até as tuas luxuosas e potentes viaturas a caminho de uma qualquer discoteca ou de um espectáculo onde vão ouvir e dançar a tua música!

Temos que ter cuidado, gostam da nossa música! Não gostam de nós!

O que os jovens têm que fazer então? Eis a questão!

Deixar a sua música brilhar! Voltem para casa e se dediquem mais ao trabalho. Não se ponham no lugar da vossa música, do vosso trabalho ou do produto do vosso trabalho.

Pessoalmente, luto todos os dias por ser o mesmo Oliver Mtukudzi que saiu do ventre da minha mãe. O que pode mudar ou mudou e espero que continue a mudar é a qualidade do meu trabalho. Eu sou o mesmo!

Para que eu percebesse melhor, Tuku não me poupou. Nos seguintes termos:

Mesmo tu, como jornalista, pensas que as pessoas gostam de ti? Nem sempre. Gostam daquilo que fazes, meu caro. Sabem que podes promove-las, podes falar publicamente bem delas, mas podes ter a certeza que no dia em que deixares de ser jornalista, acabou!

Escusado dizer que só tinha que concordar com ele. Não podia estar tão certo.

Calaram-me realmente muito fundo estas palavras do grande Tuku.

 Lembrei-me então dos muitos exemplos que tenho no meu pais de jovens talentosos que se precipitam e acabam atrapalhando as suas próprias carreiras porque o que lhes falta na humildade lhes sobra na arrogância.

Obrigado, Tuku, por estas lições de vida. Muitos parabéns pelos teus 66 anos e que continues a nos brindar com a tua boa música e com a tua humildade.

Eliseu Bentoa

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O WASHINGTON Post apareceu com este título de capa quando Donald Trump foi proclamado vencedor das eleições presidenciais americanas em 2016. E dizia tudo. Era a incredulidade em si, sintentizada num título por demais criativo. Um título escarrapachado ao lado da foto do magnata que iria dirigir a poderosa nação. Voltei a ouvir a mesma expressão – de muitas mentes - quando alguém quis comparar o Presidente Nyusi à Jesus Cristo. Aliás quando se fez essa afirmação, essas mentes apenas diziam: Oh my God! E quero acreditar que o bom do jovem do planalto, ele próprio, deve ter dito isso também: Oh my God! Pode ter sentido enorme desconforto ao quererem lhe igualar a alguém inexcedível.

Jesus Cristo ao despedir-se dos seus apóstolos, em Galileia, onde com eles voltou a encontrar-se depois da ressureição ao terceiro dia, após a sua morte, disse-lhes, e eu cito de memória: “eis que eu vou, mas voltarei para vos buscar, um a um, para casa do meu pai, onde vou vos preparar um lugar, aliás vocês conhecem o caminho”. Um dos apóstolos perguntou à Jesus: “como é que nós vamos conhecer o caminho se nem sabemos aonde vais”? E o filho do homem voltou: “eu sou o caminho e a verdade, ninguém chegará ao meu pai que não seja através de mim”. Outro apóstolo ainda  dirigiu-se ao Mestre e disse: “Jesus, mostra-nos o teu pai, que a nós bastará”. E Jesus respondeu: “quem vê a mim, vê o meu pai”.

“Quem vê a mim, vê o meu pai”. Isto quer dizer que Jehová se tinha esvaziado em Jesus. Deus tinha dado ao seu filho todos os poderes da palavra da vida. Significa também que Jesus é único. Ele é o nosso Salvador, e ninguém poderá ser comparado àquele que tem o poder de movimentar montes e montanhas. De dar ordens para os ventos fustigarem. De implantar a fúria nos mares. E de prover amor e perdão. Só Deus e seu filho podem fazer isso. À nós os terrenos o que nos resta é lutar por nos redimirmos dos pecados e pedir perdão.

Ainda há dias ouvi uma conversa que gravitava à volta do Papa, e dos escândalos do Vaticano, recorrentemente relatados na imprensa. Nessa troca de impressões alguém dizia que Deus está mais próximo dos homens do que aquele a quem os católicos chamam Sua Santidade. E dizia mais: “aquele que de vez em quando espreita pela janela de um edifício de extrema luxúria para acenar aos turistas, dá a impressão de estar a um nível superior ao próprio Jesus”.

 O filho do homem recusava-se a ser chamado Santo, porque segundo ele, enquanto estivesse a pisar a terra, estava exposto ao pecado. Mas o Papa não se incomoda com tão grandiosa mensão.

Para os interlocutores que estavam conversando, Santo é Deus, seu filho e seus anjos. Sobre a terra não há santos.  Mas eu pessoalmente acredito que o Criador do céu e da terra vai perdoar àqueles que pretendem comparar seu filho amado à qualquer que seja o terrâquio, porque Jesus já tinha dito, pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem (dizem).

E os mesmos interlocuores rematavam a sua conversa assim: “aos católicos também Deus vai perdoar, certamente, ao chamarem Santo Padre, a um homem susceptível ao pecado, vivendo coberto de ouro, enquanto milhões de pobres, pelo mundo fora, sucubem por não terem uma códea de pão”.

 Oh my God !

Alfredo Macaringue

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A BOA nova veio semana passada do Vaticano: O Santo Padre poderá efectuar uma visita apostólica à Moçambique, já no próximo ano.

A manifestação do interesse foi feita pelo próprio Papa Francisco, em resposta a um convite que lhe foi formulado pelo Presidente da República, Filipe Nyusi, no decurso da visita oficial que efectuou de 13 a 14 de Setembro corrente à Santa Sé.

“Se tiver saúde certamente que no próximo ano visitarei Moçambique” – assim respondeu o Sumo Pontífice ao referido convite.

Uma coisa é certa: a manifestação do interesse, por si só, não é bastante para que tal visita ocorra. A preparação de uma deslocação apostólica do Papa ao estrangeiro leva o seu tempo. Até pode durar um ano. Da logística às medidas de segurança.

Para nós, moçambicanos, esta visita é muito bem vinda, na medida em que constituirá uma oportunidade para mostrarmos ao Sumo Pontífice e, já agora, a todo o mundo, como o nosso país se reergue depois de vários anos de conflito armado e de hostilidades militares.

Hoje em dia, desfrutamos da paz, ainda que ténue. Porém, é digno salientar que todos os actos que nos conduziram ao alcance dessa paz, repito, ainda que ténue, ocorrem com o envolvimento intrínseco da Igreja Católica de que Francisco é honroso governante. A Igreja esteve, desde a primeira hora, nas negociações entre o Governo e a Renamo visando o alcance da paz e a Comunidade de Sant´Egídio, em particular, tornou-se a face mais visível da mediação, o que tornou possível a assinatura do Acordo Geral de Paz, precisamente em Roma – a capital da Itália, lá, onde reside o Padre-Santo.

Para o ano, o Chefe da Igreja Católica poderá visitar Moçambique. Certamente que quererá ver, “in loco”, os frutos da paz alcançados com a mediação da Igreja. É verdade que paira, nos dias que correm, uma nova ameaça de violência, desencadeada por indivíduos cujo rosto continua invisível. Porém, Francisco virá com ensinamentos antigos da Igreja segundo as quais “a política é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas de caridade porque busca o bem comum” (Evangelii Gaudium, 205). Aliás, servirá, este ensinamento, para unir os moçambicanos nesse bem comum que é a paz e concórdia.

Agora, habituados a deixar tudo para a última hora, é preciso que os moçambicanos se preparem desde já para acolher com alegria e entusiasmo o Papa Francisco, à semelhança do que aconteceu, em 1988, quando João Paulo II visitou o nosso país. Milhares de pessoas oriundas de todos os cantos do país e até de alguns países vizinhos foram ao aeroporto e “tomaram de assalto” todo o percurso até ao centro da cidade, com fortes medidas de segurança, claro, desejando as boas vindas ao Papa.

Vamos conferir a Francisco igual hospitalidade e, por que não, ainda melhor que conferimos a João Paulo II, porque experiencia, neste capítulo, acumulamos. Vamos dizer “obrigado” à Igreja pelo “patrocínio” ao diálogo para a paz. Vamos mostrar Sua Santidade que o nosso compromisso é com a paz e o desenvolvimento, e que a sua vinda à Moçambique servirá de bênção para que, tão cedo quanto antes, alcancemos o tão almejado bem estar político, económico, social e cultural.

Apesar do convite ter sido formulado pelo Estado moçambicano para que o Papa Francisco se desloque a Moçambique, a Igreja tem o seu papel não menos importante a desempenhar da preparação à recepção e consequente acompanhamento de todos os actos que constituirão a visita do Padre -Santo.

O que devemos fazer, todos em conjunto é, pois, continuarmos a rezar para que Francisco tenha mais saúde de modo a que no próximo ano visite Moçambique.

Salomão Muiambo - (Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

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É isso mesmo. Não pode e nem deve haver dúvidas. É absolutamente inquestionável dizer que os 200 anos de elevação da Ilha de Moiçambique à categoria de cidade, comemorados na passada segunda-feira, 17 de Setembro, encerram uma diversidade de histórias que marcaram a existência do nosso país.

Só pode discordar da nossa opinião, quem, por ventura, não dá a importância e sobretudo o valor da nossa história e cultura seculares, construídas com sacrifício, ao longo dos 500 anos da dominação estrangeira, tal como aqueles que em 2004 roubaram alguns objectos valiosos constituídos de ferro expostos em vários monumentos e lugares históricos da Ilha de Moçambique, para venderem a compradores de sucata.

Enveredar por essas atitudes repreensíveis, é sem margem de dúvida, tentar destruir o valor da história secular de um povo com uma identidade histórico-cultural própria e indestrutível, como moçambicano.

Queremos acreditar que nas festividades dos 200 anos ninguém terá participado tendo essas intenções malévolas, mas sim, imbuídos no único objectivo de exaltar o papel da primeira capital de Moçambique na continuação da identificação e preservação do nosso património histórico e cultural, como um povo que foi subjugado por um regime opressor e que deixou marcas indeléveis da sua actuação.

Aliás, foi muito interessante e prestigiante, ver e assistir, sobretudo na vertente cultural, a exibição de cantos e danças de todo país, reforçando-se assim, o espírito de prática e valorização de todo o mosaico cultural da nação una e indivisível.

A Ilha de Moçambique deve continuar a desempenhar um papel fundamental para esse reforço. Não é por acaso que foi proclamada pela UNESCO, na reunião da Tunísia, em 1991, património mundial da humanidade, reconhecimento que há muito que era esperado.

Não é o caso também que tal proclamação há muito era esperada. É que, na realidade, depois da declaração da UNESCO, notou-se a evolução de intervenções, particularmente no que diz respeito à restauração dos edifícios em estado avançado de degradação, tais são os casos da ponte que dá acesso à parte insular, Fortaleza de São Sebastião, Museu de História e outros edifícios que se encontravam em estado avançado de deterioração.   

O que é preciso sublinhar aqui, é o facto de o mais importante e essencial na celebração da efeméride ter sido reforçada, mais do que nunca, a nossa consciência como moçambicanos, sobre a necessidade imperiosa de preservar e valorizar aquele património cultural, tal como sublinhou o Presidente da República, Filipe Nyusi.

Até porque foi salutar ouvir da boca dos próprios ilhéus, durante a celebração do bicentenário, afirmarem que fizeram dos festejos um momento de reflexão profunda sobre a necessidade de se continuar a preservar aquele património mundial da humanidade.

Parabéns Ilha de Moçambique, que continue a ser o património que nos une e orgulha para sempre!

 

Mouzinho de Albuquerque

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