Director: Júlio Manjate   ||  Director(a) Adjunto(a): 

ATRAVESSEI, pela primeira vez, a baía de Inhambane ido de Matumbeleni em meados de 1979. Estava na companhia dos meus pais e um amigo destes, o régulo Maphophanhene. Era a primeira vez que via um barco, que passei a trata-lo de “machimbombo da água”. Tal embarcação tinha sido baptizada por “Moçambique”.

Na altura, travava-se uma guerra para conseguir lugar nos melhores barcos, nomeadamente “Inhambane” e “Moçambique”. Poucas pessoas preferiam os barcos à vela, pois, nessa altura eram frequentes naufrágios envolvendo estas embarcações.

Meu pai, com o saco de coco à cabeça, e minha mãe, com pastas de viagens, ambos não conseguiram ganhar a batalha na ponte da Maxixe e ficaram em terra. Eu fui o último passageiro protegido por Maphophanhene que ia empurrando a toda gente à sua frente até alcançar o barco.

Com andar do tempo apareceu o “Mutamba”, uma das embarcações que comportava maior capacidade, numa altura em que a procura era maior. As duas cidades albergavam muita gente que fugia do conflito armado nas suas zonas de origem.

 O movimento da travessia era caótico de tal forma que, para impor a ordem, foram colocados dois militares, daqueles maus, em cada uma das pontes para controlar os que não queriam seguir a fila. Luís e Mário eram os dois homens que com “mata-fome”, cinto mais largo dos militares, na mão, distribuíam cacetadas a quem ousasse desobedecer as ordens. Era o salve-se quem puder para apanhar o barco.

O tempo foi passando e as coisas mudando, os barcos à vela trocaram a vela por motores fora do bordo e nasceu outra exigência, aliás, uma necessidade prevista nas normas de segurança marítima: o uso de coletes salva-vidas.

Nasceu outra guerra para a implementação desta medida de cumprimento obrigatório e o Governo não foi complacente, já que os operadores não viam com bons olhos a ideia, porque um colete salva-vidas, o de qualidade recomendada, não estava a menos de três mil meticais. Para eles, isso era muito dinheiro, para além das suas capacidades financeiras.

Ḗ que, para equipar um barco com capacidade para 25 pessoas, mínima, era necessário um bom investimento e terá sido por esta reclamação dos operadores que a Administração Marítima cedeu ao choro dos transportadores aceitando que cada barco apresentasse no final de cada mês, pelo menos, dois coletes.

Um ano depois a Administração Marítima retirou os barcos que não tivessem coletes para os seus passageiros e a medida não agradou os transportadores que partiram de imediato para uma greve. Solicitaram um encontro com o Governo e tiveram a resposta de que “não se negoceiam vidas humanas. Quem não tem coletes não deve operar. Que tire o barco da água e ponto final”. Sentenciou-se.

Houve uma pequena crise de transporte, as filas reapareceram nas duas ponte-cais e, em algum momento, houve saudades de Mário e Luís para organizar as filas e disciplinar os utentes. Hoje todos barcos reúnem condições mínimas de segurança, ou seja, estão equipados com coletes salva-vidas e os passageiros recusam-se a utilizar estes meios alegando a sua humidade, mau cheiro e outras razões.

Uma vez mais o Governo foi chamado e sentenciou. “Quem não quer usar coletes salva-vidas que apanhe o ʻchapa 100ʼ ou o ʻmy loveʼ para dar a volta”. Nos barcos todos devem usar coletes.

São estes problemas que caracterizam a travessia Inhambane-Maxixe desde os tempos que já lá vão.

Victorino Xavier

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