Director: Júlio Manjate   ||  Director(a) Adjunto(a): 

HÁ caminhos que o destino traça e não temos como recusar. Esses atalhos incluem pessoas que se entrosam nas nossas vidas sem encontrarmos, aparentemente, explicação para tal.

Aliás, uma das  decifrações que serão dadas, quando alguém aparece à nossa frente, por exemplo, será de que isto e aquilo que nos aconteceu foi uma surpresa. Quando, na verdade, tudo isso pode ser apenas o cumprimento do que estava alinhavado.

Na semana passada voltei a encontrar-me com o jovem que há algum tempo me levarar a dar uma volta até Manhiça, onde saboreamos bananas que nos fizeram lembrar a ambos, a música do soberbo Zé Mucavele: ˝Xibomba xa Romos˝. Até porque o meu amigo já me havia surpreendido, ao entrar no seu carro, a tocar um tema da Maria Betânea. Não sei qual é o título. Não interessa. Para mim, tudo que vem daquela brasileira é sagrado, incluindo os programas de poesia que ela apresenta na STV.

Desta vez não tocava música no interior da viatura. Os sons que se produziam eram do motor e das nossas vozes, e de outras interferências do exterior. Ele é que voltou a reconhecer-me. Parou a cerca de duzentos metros do local onde eu me encontrava à espera do “My Love”. Regressou a pé para me puxar pelo braço, convidando-me a ir com ele.

Antes de andarmos um quilómetro, já no carro, perguntou-me se havia acompanhado a notícia do vulcão que entrou recentemente em erupção na Guatemala. Eu disse que sim, que estava a par do acontecimento. Perguntou-me ainda se fazia ideia do que eram 700 graus centígrados expelidos pelo fogo vindo de baixo da terra por aquele fenómeno da natureza. A resposta que lhe dei é de que aquelas temperaturas eram infernais.

O jovem estava decidido a encostar-me à parede, como quem quer medir o meu nível de informação. Abanou a cabeça sorrindo, e voltou a atirar: aquilo não é Guehena?

Há anos que não ouvia falar sequer  daquela palavra. Guehena remete-te aos fogos do inferno, onde todos os pecadores serão queimados eternamente. É essa uma das versões que ouvimos de várias grejas.

Antes de lhe responder se “aquilo” era ou não Guehena, não foi preciso fazer esforço com o cérebro para me lembrar que Guehena é uma localidade situada no sul de Israel, onde naqueles tempos eram queimados resíduos sólidos de todos os tipos. O fogo e a fumaça que saíam dali eram intermináveis. Daí a metáfora para dizer que os pecadores iriam ser enviados para o inferno num local como aquele, onde o fogo não pára de lavrar.

Expliquei tudo isto ao jovem, sem responder directamente à sua pergunta. Entretanto, o que eu explanava ele mostrou-me que já sabia. Provavelmente melhor do que eu. Foi por isso que sorriu, eventualmente! Mas entre mim e ele  havia uma certeza: temos uma afinidade em termos de cultura geral.

Fiquei encantado em ter ao meu lado alguém  que falava de Guehena. Um jovem, ainda por cima. Ou seja, por uma pessoa que fala sobre esse local, temos que respeitar. A consciência obriga-nos a perguntar quem é este tipo.

Uma coisa que voltei a reiterar dentro de mim é que aquele que escuta Maria Betânea, Zé Mucavele, e fala de Guehena, pode ter muita bagagem na cabeça. É muita sorte ter um amigo assim, que para além do mais pára o seu carro ao nos reconhecer, volta e leva-nos pelo braço, como se fôssemos uma criança. E não há melhor  coisa que ser criança.

Um forte abraço!

Alfredo Macaringue

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