Director: Júlio Manjate   ||  Director(a) Adjunto(a): 

HÁ uns anos testemunhei uma briga entre três irmãos. Um homem e duas mulheres. Tudo começou quando o pai deles perdeu a vida, sem deixar testamento indicando quem ficaria com os bens da família, nomeadamente uma casa de tipo-3 situada na zona nobre da cidade de Maputo, no bairro Polana Cimento “A”, onde viviam, e uma camioneta com a qual ele fazia pequenos negócios.

O pomo da discórdia era, exactamente, a partilha dos bens. O irmão achava-se no direito de se apropriar de tudo, tratando-se do único filho varão da casa. Queria vender aflat para construir uma outra habitação num dos bairros periféricos da cidade de Maputo. Porém, as irmãs consideravam que também tinham os mesmos direitos, uma vez que eram todos filhos dos mesmos progenitores. Elas não estavam a favor da venda da casa “de todos”, como diziam. Os três eram maiores de idade e as irmãs já tinham filhos, com excepção dele, embora já casado. 

Eu conhecia muito bem uma das irmãs, pois foi minha colega nos tempos da juventude, na Escola Secundária Francisco Manyanga. Quando me contou o que se estava a passar na sua casa, cheguei a sugerir-lhe que procurasse um advogado com vista a que lhes pudesse ajudar. Porém, nem ela nem os irmãos anuíram à sugestão, alegando falta de condições financeiras para o efeito.

À medida que o tempo ia passando, as relações entre eles azedavam, ao ponto de deixarem de se falar. Cada um levava uma vida independente dentro da mesma casa. Até as refeições eram preparadas e tomadas separadamente. Quem não entendia o fenómeno eram as crianças que sempre que viam o tio e sua esposa na mesa, na hora da refeição, ficam de plantão na sala de jantar, à espera do convite.

Em certa ocasião assisti a uma cena triste. Fui visitar a minha antiga colega, para saber se já tinham ultrapassado as diferenças. Foi num sábado, por volta das 11 horas. Quando cheguei, o irmão e a esposa estavam a tomar o pequeno-almoço. Ela, a minha amiga, e a sua irmã ainda estavam a preparar algo na cozinha, e os petizes fingiam estar a brincar no corredor que vai dar à sala de jantar, mas atentas à refeição do tio, que não chegou a convidá-las.  

Pouco tempo depois, ela perdeu a vida, por doença. Nos primeiros meses fui acompanhando a vida dos meninos, mas depois perdi o seu contacto, pois o irmão acabou mesmo por vender a casa dos pais. Não sei se levou os meninos órfãos de mãe consigo, ou foram com a tia ou, ainda, acolhidas por um outro parente. Do pai nunca soube nada.

Episódios como este são inúmeros na nossa sociedade. Eles reflectem, primeiro, quão importante é o diálogo entre irmãos, pessoas da mesma família, parentes, etc. Afinal, um adágio popular diz que “é falando que a gente se entende”. Não há nada que um bom diálogo não resolva. E mais, entre irmãos não há quem seja mais importante que os outros. Todos têm os mesmos direitos, não importa se do sexo feminino ou masculino.

Segundo, a questão da herança cria, no seio das famílias, uma grande instabilidade. Daí a necessidade de vencermos os tabus e cultivar a prática de testamentos, em que se indica quem fica com o quê do rol dos bens.

Alguns factos que ocorrem no nosso país, na sequência da herança, são de bradar aos céus. As mulheres e as crianças são as mais prejudicadas, pois os irmãos mais velhos, os tios e outros parentes sentem-se no direito de se apoderar de tudo, por vezes, sob a alegação de que a eles cabe fazer a gestão dos bens. E como consequência disso, alguns petizes acabam por enriquecer o exército de indigentes a viver na rua, privadas da dignidade humana.

Creio que não é necessário ser dono de uma grande companhia multinacional para deixar um testamento. A casa onde a família vive é um bem precioso, que depois da morte dos pais cria discórdia entre os filhos…

Delfina Mugabe

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