Director: Júlio Manjate   ||  Directora Adjunta: Delfina Mugabe

UMA amiga minha precisou de ir a um desses bancos comerciais que se multiplicam nas nossas cidades, para abrir uma conta em nome de suas duas filhas, menores, pensando no jeito que essas economias darão daqui a alguns anos, sobretudo na hora de elas frequentarem o ensino superior.

É uma daquelas coisas que todo o pai (ou mãe) devia fazer, até mesmo porque já se diz, por aí, que “educar uma menina, é educar a sociedade…”.

Contou-me a minha amiga que teve algumas dificuldades para escolher um banco aonde abrir a conta para as suas meninas, uma vez que é tanta a informação apelativa que circula na praça, cada uma apresentando um banco como melhor que todos os outros…

Levado um pouco pela publicidade, a minha amiga conta que acabou dando costas a um banco desses bancos com tradição, para ir tentar explorar os bons serviços prometidos no banco que escolheu para as suas filhas.

A primeira contrariedade que encontrou, e até julgou que já não encontraria, num banco, por estas alturas do campeonato, foi a exigência, além dos documentos das crianças, BI, cédula ou certidão narrativa completa de registo de nascimento e NUIT, de uma declaração do bairro, confirmando que as suas crianças vivem no bairro “X”. O banco quer isso “preto no branco”, com assinatura do secretário, carimbo e tudo o mais que possa dar peso e credibilidade ao documento…

- Pensei que isso fosse coisa do passado. Felizmente consegui juntar esses papéis, não sem antes aturar uma moça mal-educada e semi-analfabeta que trabalha no círculo, uma que escreveu mal o nome da minha filha por três vezes. Como aquilo é manuscrito, rasgou três impressos por ter gatafunhado o nome da criança… Uma coisa que podia ter feito em quinze minutos, acabou me roubando uma hora e meia porque quando finalmente acertou nos nomes, o secretário já tinha saído da sala e eu tinha que esperar pela assinatura dele…, contou.

Já com os documentos em mão, voltou ao banco onde uma mulher com várias cores na face, devido à maquilhagem, atendeu-lhe bem ao jeito como muitas vezes as mulheres atendem umas às outras: com o nariz escarpado! Depois de verificar e reverificar os documentos e certificar-se de que não faltava nada do que se exige como papel, “a mulher ligou o complicador”:

- Vou precisar que a senhora faça uma declaração confirmando que recebe uma mesada do seu marido…

- Como assim? – perguntou a minha amiga.

- Precisamos. Fazemos assim com as mulheres que querem abrir contas para os seus filhos porque queremos ter certeza que têm uma fonte regular de rendimento para alimentar a conta…

Boquiaberta, a minha amiga retorquiu:

- Mas por que é que o dinheiro para alimentar a conta das minhas filhas deve vir de uma mesada dada pelo meu marido? Não acredita que eu seja capaz de ter rendimentos próprios? – perguntou.

- Minha senhora, eu estou a tentar ajudar-te. Se não quiseres terás que fazer uma coisa mais chata que é ir trazer uma carta do seu serviço declarando o seu salário etc etc. Uma declaração você escreve agora e assina. Nem precisa reconhecer no Notário…

Sentindo-se entre a espada e a parede, mas profundamente chocada com tudo aquilo, a minha amiga lá aceitou.

- Tudo bem. Mas quanto devo declarar que recebo como mesada?

- Depende de si. Mas quanto é que gostaria de receber como mesada do seu marido? – perguntou a funcionária.

- Cem mil meticais. – disse a minha amiga tentando gracejar.

- Tudo bem. Escreva isso. Não te preocupes que aqui já vieram outras mulheres declarar que recebem 150, 200 mil meticais ou até 300 mil meticais de mesada…

A minha amiga conta que não sabe por que carga mas acabou declarando, involuntariamente, que tinha uma mesada de… 30 mil meticais. Na verdade esse é o salário que ela ganha no seu emprego. A única mentira a que foi obrigada, foi ter de assumir que esse dinheiro é-lhe dado como mesada pelo marido, porque infelizmente aquele banco não reconhece a mulher como um ser capaz de gerar proventos para sobreviver, sem depender necessariamente da mesada de algum homem. 

Ora essa!

Júlio Manjate-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Template Settings

Color

For each color, the params below will give default values
Tomato Green Blue Cyan Dark_Red Dark_Blue

Body

Background Color
Text Color

Header

Background Color

Footer

Select menu
Google Font
Body Font-size
Body Font-family
Direction