Director: Júlio Manjate   ||  Director(a) Adjunto(a): 

HÁ dias, nas imediações das instalações do nonagenário matutino Notícias, um potente bólide artilhado até às bielas fez uma aparição ruidosa ribombando pelos escapes triplamente arrogantes. O driver, com os olhos estranhamente revirados, provavelmente alavancado por uma mistela de pó gazeado e zurapa de terceira categoria, acelerava ruidosamente sentindo a adrenalina suicida de um miúdo destemperado. Os escapes e bielas troavam ao comando do menino condutor. Assistia-se a um infeliz espectáculo gratuito de um rapazinho julgando-se a última versão de James Bond.

Segundo me disseram algumas pessoas, às sextas-feiras e sábados o carnaval da idiotia ao volante de carros de grande cilindrada atinge as raias do desespero de quem tem o azar de cruzar com os suicidas. As ruas e avenidas no silêncio da noite passam a personificar o inferno, pois autênticas quadrilhas se fazem à estrada com os volumes dos seus estereofónicos ao rubro e despejando “rap” ordinário para competições ilegais, quase sempre miúdos na mais tenra idade e com a alcoolemia derretendo e desfazendo o encéfalo e reduzindo a zero as suas elementares funções. Dia seguinte, as marcas do terror estão lá: o asfalto enegrecido com o timbre de pneus de primeira qualidade, um e outro gunhanço de muros, as bermas das ruas imundas com todo o tipo de garrafas de álcool, desde as matreiras Boss às elitizadas Blue Label velho, passando mesmo pelas acácias deprimidas e esqueléticas em resultado de litros de ácido úrico despejado aleatoriamente.     

Segundo me dizem, trata-se de gente da maior grã finória financeira ou cujos pais respiram pelos poros cascatas de dólares de origem duvidosa, pois os carros, dia seguinte, fazem uma espécie de hemodiálise mecânica. Ou seja, dia seguinte, tudo, desde os pneus à mais elementar porca, é substituído para dar lugar a material novo que permitirá a reposição da pujança do veículo. Enquanto diariamente nós os outros procuramos estratégias de sobrevivência, aqueles, semanalmente, gastam rios de dinheiro para viabilizar projectos sob quatro rodas de sindicatos suicidas. Acho estranho que nada ou pouco seja feito para desencorajar este tipo de espectáculos. Os homens da lei e ordem são vistos patrulhando a cidade, estranhamente assobiam para o lado quando se deparam com aquela malta. Se calhar os seus argumentos operativos, nomeadamente, os carros-patrulha reclamando alguma reforma, ainda que compulsiva, não se prestam para competir em pé de igualdade com os potentes bólides. Ou seja, estamos a dizer que o mais provável é que os carros da Polícia não vêem game com os “filhos do asfalto”. E isso é um problema, porque se a nossa Polícia não está devidamente equipada, estamos todos a passar às gangs do asfalto e aos fora-da-lei uma licença para decapitar vidas e sonhos de gente honesta e trabalhadora.

Leonel Abranches

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