Director: Júlio Manjate   ||  Director(a) Adjunto(a): 

Sigarowane: Domingo de recordação (Djenguenyenye Ndlovu)

 

NÃO acredito que volte a ser o mesmo lugar. Aliás, mesmo lugar com o mesmo perfume, embora as flores estejam lá e libertem a sua fragrância. Esteve por mais de quinze dias sem vida. Morto. Com as faces banhadas de lágrimas. Os olhos já não podendo enxergar patavina. Tal era a cortina formada por salgadas lágrimas que teimavam em não parar. Os patos, as galinhas deixaram de sair das capoeiras para gozar o imenso quintal, que mesmo sabendo do risco da morte que por muitas vezes aconteceu com seus iguais, vez alguma deixaram de curtir o seu calor. Ficaram, estes seres, por esse período gigante recolhidos nos seus cantinhos de sono e de já sem outros não iguais, mas que de convívio ao jeito que a natureza construiu. Que alimentavam suas vidas e tornavam alegre a sua existência.

Os gatos saltaram o muro e se mandaram. O tambor onde se deitava o lixo (restos de comida) todos dias (em demasia aos domingos depois de jogos de futebol) andava vazio. Deixou de haver restos de comida porque deixou de haver fogo. Porque deixou de haver frequência de humanos famintos e sedentos. Porque a dor da perda ainda era maior. Mas a vida tinha de ser continuada. Tinha de ser vivida para que outras vidas continuassem a viver com vida.

E para isso, a mafurreira continua lá.

E então, ficou-se por um domingo que não o a seguir à partida para a morada eterna. Que nesse, ele mesmo já tinha assumido um compromisso com uma colectividade do outro lado de uma das fronteiras. E tinha de ser honrado. Aconteciam, de tempos a tempos, jogos de futebol com equipas de outros lados das fronteiras. Jogos em que tudo terminava em festa. Festa também para gatos e cães, não importando o resultado dos embates. Era assim, também, com equipas locais. Com equipas de outras províncias. Para onde se deslocavam no “chapa” dele, sem custos para a colectividade. Depois sempre era a farra. E acontecia ser em duas equipas debaixo da mesma copa da mafurreira a festejarem depois de se terem defrontado. Cada equipa com o seu farnel, que compreendia cerveja, petiscos, que podiam ser de cabeça de boi, que as vacas raramente morrem, de frango, que as galinhas não são a estes lugares bem-vindas, muito menos galos. Arroz? Nem um bago. Massa de farinha de milho, que isso hoje é comida de gente de outra fina. E lá corria o domingo, ou melhor, última parte da sua manhã e uma outrinha da tarde que há sempre essa pôrra da segunda-feira à espera da gente. Bom, há quem diga que não fossem as segundas seriam as terças, então por aí…

E, para muitos era a espera para o outro domingo. Quando não houvesse saída para lugares de longe.

São poucos os minutos corridos depois que deu a hora zero. Não chegam a quinze e, como muitas outras vezes, nestes últimos anos acontece, o meu cérebro recusa-se a descansar. De modo que entro em revisão das asneiras do dia anterior. Concluo da sua pobreza, mas nada posso fazer as engordar. Não há adubos que valham.

Provavelmente tivessem sido bem fartos não fosse o adiamento de um encontro. Um encontro debaixo de uma mafurreira de uma bem frondosa copa. Teria sido depois de uma partida de futebol. Com vencedores e vencidos. Empatados. Mas todos alegres por voltarem a estar debaixo daquela mafurreira a beber cerveja. A petiscar cabeça. A petiscar frango. Não antes da babalaze e com alguns em níveis de decibéis bem altos.

A recordar! A dizer “bom homem que ele foi”.

Há-de chegar o domingo de festa na mafurreira. O domingo da recordação que será repetido por muitos outros domingos.

À mafurreira retirou-se-lhe a alma!

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