Director: Júlio Manjate   ||  Director(a) Adjunto(a): 

ACENTO TÓNICO: Quero que ela reprove no exame!  (Júlio Manjate-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

A MOÇA interpelou-me com um sorriso que praticamente rasgava de orelha para orelha. Estava animada! Na verdade causou-me algum espanto aquele jeito efusivo de uma mulher saudar um homem, embora reconhecesse que há, entre nós, uma relação de...cumplicidade. É amiga!

Não estando propriamente a par do motivo para tanta satisfação dela, lá procurei desembrulhar alguma efusão que condissesse, tudo para não cair nalguma desfeita. Rapidamente lembrei-me que podia escudar-me no refrão das “boas entradas e feliz ano novo” para sustentar a minha euforia, já que aquela era a primeira vez que nos víamos, este ano.

De facto, em pouco tempo estava eu envolvido num profundo abraço com a moça, condimentado com um alegre e indisfarçável sorriso. Quem assistiu àquela cena, certamente que deve ter ficado com alguma inveja, sobretudo nesta altura em que escasseiam exemplos de amizade sincera, ademais entre um homem e uma mulher.

Foram dois abraços consecutivos, intercalados por um profundo e contagiante sorriso, olho-no-olho, ali, no meio da rua!

Quando o abraço terminou e voltamos a colocar os pés no chão, reparei que ela jogara para o passeio o plástico que trazia consigo, para permitir que os seus braços acolhessem o meu vulto.

Calmamente, recolhi o plástico e percebi que pesava mais do que parecia. Não fiz esforço para isso, mas vi que dentro do plástico havia uma garrafa, e que, pelo peso, não podia estar vazia.

Ela recebeu o plástico enquanto olhava nos meus olhos e esboçava mais um sorriso cheio de perguntas…

- Tu estás vivo?! Como passaste o final de ano? – Perguntou.

Sem me dar tempo para responder, prosseguiu:

- Eu passei bem, em casa dos meus pais! Estávamos lá todos, ou melhor quase todos, já que um dos meus irmãos, que vive na África do Sul, não conseguiu vir por causa da mulher que começou com histórias. Ela não quer que o meu irmão venha passar cá porque ela pensa sempre que se vier a Moçambique não há-de regressar. É a mania dessas mulheres inseguras. Mas eu e a minha irmã ligamos para o meu irmão no dia 1, logo de manhã e dissemos umas poucas e boas. O que é isso de uma mulher controlar um homem? Não permitir que ele vá ver a sua família? (…)

Quando percebi que aquela narrativa tinha tudo para ser longa, aproveitei um momento de respiração da minha amiga para cortar o discurso:

- Também passei bem, com a família, em casa. O que fazes por aqui? – Perguntei tentando desviar o rumo daquela conversa sobre a família dela… Até porque, embora os dois vivêssemos fora da cidade, eu tinha mais motivos do que ela para estar naquela zona, àquela hora, já que é área do meu local de trabalho.

- Ufff!! Fui à praia pegar umas coisas que me receitaram… - respondeu enquanto abria o plástico para me deixar ver a garrafa (que eu já vira), e alguma areia branca…

- Que receita é essa? – perguntei como se não imaginasse as várias utilidades que nós, africanos, damos ao mar.

- Olha, a ti vou contar: Cansei-me de reprovar nos exames de admissão. É a terceira vez que vou concorrer para a UEM… Se tivesse feito isto há dois anos estaria no terceiro como a minha amiga que já vai para o terceiro ano de Direito…”- disse com ares de muita convicção.

- Como assim?- insisti, na minha “parvoíce”.

- Uma amiga apresentou-me um tipo de uma igreja que diz que já fez admitir mais de vinte moças na UEM, só através da oração! É só orar na véspera de cada exame, com uma vela acesa, e no dia da prova lavar a cara com esta água da praia e tomar uma colher de sopa desta areia… Mas é preciso levar isto para ele ele abençoar …

A convicção com que ela falava, afastou qualquer ideia que pudesse ter de lhe chamar à razão. Podia estar a chamar uma inimizade.

Ofereci-lhe meio sorriso, embrulhei-a em mais um abraço e desejei-lhe boa sorte.

Os exames de admissão iniciaram ontem, mas confesso que o meu desejo é que a minha amiga reprove, uma vez mais, porque se for admitida, é capaz de replicar a ideia de que um charlatão qualquer tem poder suficiente para empurrar preguiçosos para os bancos de uma universidade.

Agora quem está mesmo a rezar, sou eu!

Template Settings

Color

For each color, the params below will give default values
Tomato Green Blue Cyan Dark_Red Dark_Blue

Body

Background Color
Text Color

Header

Background Color

Footer

Select menu
Google Font
Body Font-size
Body Font-family
Direction