NUM'VAL PENA: 100 km/h na ponte Maputo/KaTembe (Leonel Abranches)

 

 

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DECIDI embarcar a bordo de um autocarro de transportes públicos de passageiros em direcção à KaTembe. Cinco minutos depois o veículo já estava lotado. Até às entranhas. Posiciono-me mesmo por detrás do motorista, que indiferente à lotação foi parando para levar ainda mais passageiros, a maioria ávida de se fazer à praia. Um passageiro, algo incomodado, não resiste:

 - Este TPM está cheio. Estamos ensardinhados.

Mais à direita uma senhora de meia-idade gesticula impacientemente, promovendo um debate consigo mesma sobre boas maneiras. Percebi depois que o monólogo da senhora era dirigido para um grupo de jovens, que falava descontraído e de permeio eram ouvidas obscenidades.

- Se fosse no tempo de Samora…. Murmurava a senhora entredentes enquanto dirigia olhares salpicados de raiva aos jovens, que simplesmente a ignoraram.

No fundo do autocarro, um bebé decidiu experimentar a sonoridade máxima das suas cordas vocais e desatou num berreiro infernal, enquanto esperneava impaciente. A mãe, impávida e serena, conversava animadamente com uma comadre sobre os efeitos de uma nova cerveja na praça.

O autocarro roncava desesperado, mas sem deixar de obedecer aos comandos do chofer, que entretanto, enquanto conduzia se recordou da garrafa térmica e decidiu abrir para bebericar o que me parecia um chá ou café quente. Os vapores que teimavam em espreitar pelo bocal da garrafa térmica denunciavam a “quentura” do líquido. O fulano conduzia enquanto engolia pequenos goles do líquido fumegante. Ainda estou a tentar perceber como é possível gerir um monstro como aquele autocarro, lotado, enquanto se bebe um chá ou café quente!

- Esse kota é lixado meu, fogooo…! celebra um dos passageiros, olhando para o motorista com visível admiração pela destreza imprudente. Ao longo da “24 de Julho” o “TPM” foi parando em tudo quanto era esquina para levar ainda mais gente.

- Essa gente também quer ir frescar na Catembe, não os posso deixar – elucida o motorista ante o olhar reprovador de alguns passageiros que não viam espaço para mais uma agulha sequer. À entrada da ponte o cenário repete-se, mais gente é entulhada naquele tubo motorizado. Aqui o diligente motorista teve mesmo a audácia de se levantar e orientar o “enlatamento” das pessoas:

- Faxavor senhores passageiros aí atrás, cheguem-se mais para frente. Mano aí se encosta com aquele senhor. Senhora vira para lá. Mais para frente. Mamanó, não deixa “emplama” aí. Tem outros irmãos que também querem frescar lá…

Não sei por que carga de água o senhor estava convencido que todos nós íamos “frescar” na KaTembe.

A verdade é que o autocarro se fez à ponte e aí começou a segunda parte de uma odisseia criminosa. O homem ao volante começou a acelerar aquele enorme e obeso monstro como se fosse um bólide de Fórmula 1. O desconforto começou a fazer-se sentir. Olhei para o conta-quilómetros: 80 km/h. Não queria acreditar. Já pouca gente conversava. O condutor estava assustadoramente impávido, calmo e com um olhar distante. De vez em quando, largava o volante e virava o seu corpo franzino para esticar uma das mãos e levar o termo de chá por detrás da cadeira. Abria com uma notável destreza e sorvia longos goles, para depois voltar a guarda-lo. Com a mão esquerda orientava o trajecto do veículo e com a direita limpava a boca e a barbicha salpicados por gotas de chá ou café. Entretanto, olhava à volta e parecia se gabar da agilidade e arrojo com que domava a besta àquela velocidade. Sorria imbecilmente. Volto a olhar para o conta-quilómetros: 110 km/hora. Silêncio sepulcral. Estávamos a bordo do expresso para a morte. Uma moça segura-me nervosamente e enterra as unhas no meu antebraço. Até o bebé parou de chorar. As comadres se entreolhavam incrédulas.

O rapaz ao lado de mim sussurra assustado:

- Afinal este kota está a correr assim porquê?! Hihawena! Até eu que gramo de velocidade estou a render com este “driver”. Nunca mais venho de TPM.

Alguém a meio do autocarro elucidou de forma peremptória:

- Aqui nesta rota anda-se meus. Eu passo por isso todos os dias, nem é nada isso desse papá aí no volante. Há gajos que andam aqui…. Engoli em seco!

Foram quase quatro longos minutos infernais, durante os quais a imprudência de um motorista ao volante de um autocarro lotado podia ter custado o luto e dor a centenas de famílias.

Felizmente, males maiores não aconteceram.

Quando desci, o jovem ainda disse:

- Qualquer dia vamos ouvir que um autocarro caiu ao mar, touvosavisar!

Sorri nervosamente e bati com os nós dos dedos da mão direita numa madeira qualquer que encontrei ali.

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