Sigarowane: E tinha que ser assim tão tarde! (5)  (Djenguenyenye Ndlovu)

 

A AFEIÇÃO pelo Jazz está para lá de algumas décadas. Também poucas são as vividas. E naquela noite. No seu início. Durante hora e meia ficou escutando Ahmad Jamal no silêncio cúmplice da noite. Depois foi o sono, muitas horas depois em uma cama que dia seguinte o corpo agradeceu. Teria desejado um banho de emersão. Mas teve que se contentar com o de chuveiro. Ensaboou-se longamente debaixo do jorro de água. Fechou a torneira e voltou a ensaboar-se em demasia e depois ficou debaixo do chuveiro. Quieto. E a água a correr. A correr. No final fechou a torneira e secou-se com uma toalha de um cinzento sujo. Do hotel. Vasculhou a mala e reparou que não trazia nenhum creme dos que usa com regularidade. Mas lá encontrou uma bisnaga de um que podia dar um jeito até a aquisição do apropriado na tenda do hotel. Vestiu-se e abandonou o pequeno, mas aconchegante, quarto do andar oito. De elevador desceu até o andar seis. Aqui o pequeno-almoço é servido até pertíssimo da hora do almoço. Umas peças de ananás e papaia. Um chá. E bastou para essa manhã. E para as manhãs de tão-pouco dias seguintes.

Há romarias para o Santuário de Fátima. Para a Torre Heifel. Para o Cristo Redentor. E para muitos outros sítios. Já foi a alguns destes. E a outros, mas nunca pensou que um autor pudesse, do modo que viria e ver, fazer igual ou maior convocação de turistas de muitos quadrantes do mundo.

Não sabia que a casa tinha sido transformada num museu. Tão-pouco que fora declarada património nacional do país. O que era seu desejo primeiro, era visitar a casa onde viveu Heminguay, esse monstro da literatura americana do século passado. E então iniciou a marcha para os arredores de Havana. Lá para as bandas de S. Francisco de Paula, mais concretamente em Finca Vigia, onde passou a viver depois que deixou o “Hotal Ambos os Mundos”. Num dos mais velhos bairros de Havana. Aqui viveu em um quarto alugado, entre 33 e 39. Depois foi viver para Finca Vigia, onde adquiriu uma vivenda por um valor de por aí mil e oitocentos pesos. Ao tempo, contam. Sempre na companhia do Daniel e na contemplação da reconstrução da destruição provocada por um tornado de há semana. À entrada, uma guarita. Na verdade um pequeno escritório, onde se adquire a senha de acesso ao museu. Cinco pesos por pessoa. Eram dois. O terceiro isento. A casa está plantada numa área de quatro pontos, três hectares. Com arruamentos em betão. Seguiram até o parque de estacionamento. Que fica juntinho a Pilar, um bar, um restaurante, um lugar de arte. Também de uma tenda onde se vende de charutos a goiabeiras passando por bonés. Mas esse seria o lugar do final da visitação ao museu. Fez a marcha inversa e eram bainers com imagens de Ernest ao lado do El Comandante. Livros à venda. Era tarefa de uma senhora de idade mediana. Continuou em direcção á casa, mas antes de atingi-la, do lado esquerdo, está um grande barracão, feito de concreto, que servia de atelier. E finalmente a casa. No alto do terreno. E ainda assim com uma escadaria de respeitar. É muita janela e bem ampla. Tudo se vê de fora. Não é permitido entrar. Estão lá os livros. Os troféus dos dois safaris que fez em África. Onde também aprendeu swahili com os seus amigos massais. E a quem também ensinou a caçar com o Rife. Pescador que era, ensinou-os ainda a pescar com anzol. O primeiro Safari foi de 1933 a 1934 e o segundo de 53 a 54. Está a sua cama. A roupa. O calçado. As garrafas de bebidas por cima de uma mesinha. Algumas a meio. Outras muito a meio. Outras não abertas. E tudo bem cuidado. E tudo reluzindo na ténue penetração da luz pelo arvoredo dominante.

Toma-lhe a necessidade de ir aos lavabos. De se sentar na sanita. Mas tem de esperar. Há fila. E é só um para homens e outro para mulheres. Chega-lhe a vez de alívio em uma sanita de milhenta nadegueira usada. Depois paga um peso. Sobe a colina. Se assim se pode chamar. Até onde está PILAR. Nome do Iate de Ernest. O Iate 18E741. Bem cuidado. Bem envernizado. Com ele, o Iate, ajudou a revolução abastecendo navios em mantimentos. Conta a administradora. E conta muito mais. E conta da sua paixão. Do seu amor por essa África imensa que também fez Cuba.

Antes de deixar Havana. Forçado pelo seu conterrâneo no “casaco” de embaixador. Isso porque era apoiante de El Comandante. Da causa do comunismo. Antes, Viu morrerem os seus cães. Construiu-lhes um cemitério condigno. Enterrou-os em linha: o Black, a Negrita, a Linda e o Neron. Estão lá os túmulos. Estão lá e bem cuidados. Cimentados e pintados. Por perto. Pertíssimo mesmo. A piscina que é sempre mantida em condições, mas que nunca a metem água. Era a piscina onde Hemingway fazia as suas braçadas. Um aspecto interessante, nenhum turista consegue tocar em nada que ele usou. Tocam-se as paredes dos edifícios, as árvores.

Décadas antes recebera pelo correio uma pistola enviada pela mãe. Tinha sido do seu pai e a tinha usado para a sua morte. Recebeu-a e ficou interrogado. Era para que se suicidasse ou para guardá-la. Quando a braços com a diabetes, hipertensão, depressão e a perda da memória, optou pela primeira: suicidou-se com a mesma pistola com que o pai se matou.

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