ACENTO TÓNICO: Tal mãe, tal filho, tal sociedade! (Júlio Manjate-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

EMBORA fosse uma sexta-feira, àquela hora (passava pouco da meia-noite) já não eram muitos os clientes naquela velha e concorrida esplanada. Além da mesa que eu e dois amigos ocupávamos, estava um casal acomodado na vizinhança, num ponto com meia-luz, bem ao estilo de quem procura ver mais do que ser visto. Na companhia deste casal estava uma criança que não deve ter mais do que cinco anos de vida que, descontraída, movimentava-se de mesa em mesa, procurando dar ar à sua graça.

Numa terceira mesa estava um ruidoso grupo de jovens que ia abatendo copos de cerveja, uns a seguir a outros, enquanto trocava memórias sobre a cidade da Beira, lembrando gentes e brincadeiras dos seus tempos de infância.

Era uma conversa contagiante, tal que, mesmo quem nunca esteve na Beira, podia ficar com uma ideia sobre como era a “cidade das rotundas” nos velhos tempos da piscina do Goto, do Clube Náutico ou da discoteca Oceana; do Monte Verde ou do Bics, no Estoril; ou mesmo das electrizantes tardes no Motor Clube da Beira… Para mim, tudo aquilo era como que uma homenagem a uma Beira que, hoje, tenta reerguer-se dos escombros, depois do “sopro catastrófico” que foi o ciclone Idai…

Estava tudo a animar até que um homem irrompeu na esplanada segurando firmemente o braço do menino que até então andava em passeata pelas mesas. O menino gritava ruidosamente, como se alguém lhe tivesse decepado o dedo… Sem se preocupar com os gritos, o homem manteve o miúdo agarrado até chegar à mesa onde estavam os presumíveis pais.

- Peço-vos que prestem mais atenção a esta vossa criança. É terceira vez que ele pontapeia a minha banca, espalhando os produtos que estão à venda … - disse o homem apontado para o chão onde, de facto, estavam espalhados rebuçados, cigarros, fósforos, velas, preservativos e outras coisas afins.

- Meu senhor, é assim como se agarra uma criança? Não vês que é uma criança? O senhor tem filho? – atacou a mulher que parecia ser a mãe do miúdo.

Rapidamente, o assunto chamou à atenção de todos, incluindo os serventes daquela esplanada.

De repente, um dos jovens da mesa ruidosa levantou-se e, sem mais nem menos, foi “às golas” do homem:

- Pega a mim! Pega a mim se fores homem! Larga o miúdo senão rebento-te agora mesmo! – disse o jovem intrometido.

Seguiram-se momentos de uma discussão oca, em que o álcool parecia falar mais alto. Uns defendiam que motivo nenhum podia justificar que o homem segurasse a criança com tanto vigor. Outros censuravam a mulher, condenando-a não só por ter uma criança de tenra idade na rua, num bar, àquela hora da noite, mas também por não manter o menor sob seu olho, até mesmo para evitar que algum oportunista pegasse o miúdo e sumisse do mapa…

De repente, já com o ambiente completamente viciado por aquela discussão boba, um outro jovem do grupo ruidoso, saiu em defesa da mulher e do miúdo:

- Eu sou advogado! Há aquilo a que se chama inimputabilidade do menor de idade por ausência da consciência de ilicitude. Esta é uma criança. Independentemente do que tenha feito, ninguém a pode repreender…

Por momentos, fiquei pensando no mal que hoje parece ser repreender uma criança que se comporte mal em público.

O homem, que até então continuava em silêncio, interveio:

- O que eu queria era pedir que a mãe desta criança prestasse mais atenção ao seu filho. Pontapeou a minha banca por três vezes e a mãe viu isso mas não se manifestou. Se eu é que agi mal, então peço desculpas a todos… Vou recolher os produtos que ele espalhou no chão e continuar à espera que alguém os venha comprar. Tenho crianças como este menino, que a esta hora devem estar a dormir de barriga vazia… - disse.

Entreolhamo-nos. A mulher e o seu companheiro pegaram na criança e foram-se. Os jovens da mesa ruidosa dispersaram. Nós pedimos a última rodada, que tomamos em silêncio. Cada um a pensar no quanto está a ser difícil falarmos a mesma língua, quando o assunto é educar as nossas crianças.

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