Limpopo: O drama de morar nos prédios (César Langa-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

QUANDOse proclamou a independência nacional, em Junho de 1975, uma série de mudanças se operouno quotidiano dos moçambicanos, que começavam a sentir o prazer de serem donos e senhores de si mesmos e dos respectivos destinos. Nesta base, o dia 24 de Julho de 1976 ficou conhecido como o Dia das Nacionalizações, quando se abriu a possibilidade de se ocuparem os apartamentos, nos prédios das cidades do país.

Muitas histórias foram vividas e contadas, na ocasião, incluindo as mais ridículas como a tentativa de continuar com a criação de animais como cabritos nos prédios, num cenário que também ocorreu em Angola, isso contado por Pepetela,numa das suas obras, para além de outras literaturas diversas que versam sobre este êxodo subúrbio-cidade.

O tempo acabou se encarregando de “educar” as pessoas, passando a comportar-se com urbanidade nos apartamentos, até que outro movimento (o inverso)) começou a operar-se, com o parcelamento de alguns bairros periféricos como Laulane, Mahotas, Matola (Maputo), Macurungo, Estoril (Beira), Muhala, Warresta (Nampula), só para citar alguns de numerosos exemplos. Muitos proprietários de apartamentos “desceram” dos prédios e foram construir suas vivendas nestes novos espaços, deixando flats para o arrendamento a forasteiros, ou a instituições.

Mas existem aqueles que não “entraram na onda” e se mantiveram nas cidades, por razões várias. Alguns até foram (ou são) felizes por esta opção, porque livres do dilema de terem de acordar de madrugada, para fazerem face ao congestionamento do tráfego que se verifica nas manhãs, quando é para se chegar aos locais de ocupação diária.

Entretanto, no meio de tudo isto, há um lado social que, nos dias que correm, tem sido motivo de muita inquietação, como aconteceu com o meu amigo Joaquim Eugénio, quando decidiu juntar-se aos seus cunhados num oitavo andar de um dos prédios da Cidade de Maputo, para a festa da passagem do ano. Deixaram Khongolote (ele, a esposa e os filhos) e foram para o Alto-Maé, para a grande festa do final de ano. Outros familiares, à semelhança de Joaquim Eugénio, também foram para a mesma festa.

Tratando-se de um dos andares de cima, o dono da casa não se preocupou em colocar as grades de protecção e por via disso, as crianças estavam proibidas de brincar na varanda, como receio de pularem o parapeito e transformar a farra em tragédia. Ou seja, todos os convivas ficaram sujeitos a partilhar o minúsculo espaço que é a sala, onde também se encontram diversos móveis indispensáveis para o local. Com bebidas a “choverem a rodos”, não me perguntem como era a hora e a vez de se ir aos lavabos. É apenas um detalhe.

O que me impressionou foi o que se viveu numa família residente no Bairro Central, semana passada, quando perdeu seu ente querido. Sábado foi o dia dadeposição de flores e as cerimónias tiveram lugar num... nono andar! Aliás, esquecia-me de referenciar que a ausência de ascensores em muitos prédios do país é uma constante, ante a incapacidade ou o desleixo dos condóminos na partilha devida de espaços comuns. E também sabemos que quando se trata de cerimónias de oitavo dia, a generosidade, em termos de participação, é de se tirar o chapéu.

Foi triste assistir-se à maratona de idosos a descerem dos carros vindos do cemitério para se fazerem ao nono andar de um prédio sem elevador. O mesmo em relação a alguns membros, ou amigos da família com problemas físicos nos membros inferiores, para se juntarem num minúsculo compartimento para as orações e, a seguir, o inevitável convívio, em nome do bom relacionamento com o defunto, ou com os seus familiares.

Em eventos como casamentos, baptizados ou outras realizações festivas, o recurso a salões de festas tem sido a salvação. Mas, tratando-se de falecimentos, este recurso não se afigura viável, principalmente “africanamente”falando. São pontos para reflexão, jogando limpo(po).

 

 

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