Sigarowane: E tinha que ser tarde! (Djenguenyenye Ndlovu)

 

MUITO perto das três da tarde a viatura imobilizou-se no número 557, no fim da rua Obispo, em frente ao Museu de Belas Artes. De viaturas, o espaço quase às moscas. Com casas de utilidade diversa. É Floridita: um bar e restaurante histórico de Havana Velha. De Havana. Entrou seguido da companhia saudável do Daniel. Aliás, Daniel ia à frente dele e do amigo. O bar é monstro com um longo balcão em forma de L. Com aqueles frigoríficos antigos que abri-las é necessário puxar a maçaneta. E aquele som agudo ao fechar. Lembrou-se dos tempos em que assim era nos bares de Lourenço Marques e outras cidades e vilas, no seu país. E que agora já não servem. Não se vêem em bar nenhum. Mas talvez ainda exista quem conserva.

As portas dos frigoríficos estão pintadas a vermelho. As maçanetas a cor de alumínio. Os empregados de balcão. Os barmen. Altamente profissionais. Todos homens altos e de um porte físico que recomenda poucos excessos. Sorriu da segurança que eles transmitiam. Pediu um daiquiri depois que se sentou no banco e com os cotovelos sobre o balcão e as duas mãos sobre as nada carnudas buchechas. Eram muitos flashs na sua direcção disparadas por turistas. Imaginou que tal se devesse ao facto de ser escuro e de estar vestido a rigor naquele meio onde todos estavam vestidos a farra ou a praia, que Havana é uma praia imensa. Incomodou-o a última hipótese, mas logo a pôs de lado, abraçando a primeira com muita paixão.

Nem uma nem outra justificava os cliques, embora estes captassem, também, a sua imagem. Olhou para o lado. Para a parede de onde termina a parte mais pequena do L. O banquinho em que se sentara era o penúltimo da fila de muitos. E no lugar daquele que seria o último, está colocada uma estátua de tamanho natural’ em bronze, representando Ernest Hemingwai. Está com a mão direita na anca e a esquerda sobre o balcão. Com a sua taça de daiquiri. Tinha o olhar na direcção das muitas mesas do bar e também da entrada. Gostava de ficar onde pudesse dominar o ambiente e a entrada. Não vá o diabo tecê-las. A sua participação na Guerra Civil espanhola há-de ter-lhe ensinado que o domínio do território confere segurança, de alguma maneira. Dessa participação, a obra “por quem sinos dobram”. Atrás do seu ombro esquerdo, está um busto no lugar onde Ernest costumava ficar. Sobre o balcão, igualzinho ao que vira em La Terraza. Está igualmente uma corrente de delimitação da área, mas aqui é possível tocar a estátua e posar para a posteridade. Posicionou-se para a fotografia com a sua taça de daiquiri. Não imitou a pose de Hemingway. Esse campeão do estilo telegráfico. O bar ficou, também, famoso por ter sido um dos locais de lazer favoritos de lazer, em Havana. Essa assiduidade durante vários anos, contribuiu muito para a fama do bar. Que fica a pouca distância do Hotel dois Mundos, onde tinha um quarto antes de se mudar para Finca Vigia. Mesmo depois que se mudou, continuou a ser um cliente frequente do bar. Ia de carro, com a sua mulher. Diz-se que Hemingway tornou-se no principal atractivo turístico para visitantes idos de todo o Mundo para conhecer o bar e ver a estátua de tamanho natural do escritor, que é uma das grandes atracções. Ele sabia de Floridita. Mas não sabia da estátua nem do busto. Moveu-lhe ao local o desejo de conhecer um dos mais famosos bares do Mundo. Reconhecimento da revista esquire. Em 1953. Aberto em 1817, para além da fama pelos daiquiris, o é também, pela comida cara, sobretudo mariscos. É marca ainda muito viva, o ambiente dos anos 1940 e 1950. O desejo de beber daiquiris. De participar da alegria contagiante do lugar, dos turistas. Tudo isso vingou.

Já sem bancos para alguém se sentar. Já sem cadeiras para assentar a nadegueira. Um trio cuidou de massajar as almas com a sua música, com a sua dança. E tudo encantando e convidando a dar o gosto ao pé e deixando as taças e os copos sobre o balcão. Ele não dança. Mas rendido á alegria do turistas, resultado do ópio que é Hemingway, a música, a dança e os daiquiris, pede mais daiquiris. E vai chupando. Chupando até que a palhinha deixa de levar o liquido às goelas. E pede mais. E mais. E paga mais. E mais.

É vibração.

E como não desejar viver outra vez aquele ambiente? De verdadeira liberdade, como ha poucos em lugares conhecidos.

 Floridita: “la cuna del daiquiri”. Floridita: “O berço do daiquiri”.

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