CELEBROU-SE esta quinta-feira, o 11 de Abril, Dia do Jornalista Moçambicano, momento, pois, e para não variar, de reflexão sobre a quantas vamos.

A data passa, ou passou, no entanto, numa altura em que os jornalistas acabam de mostrar novamente o seu profissionalismo na decorrência da passagem do ciclone Idai pela zona centro do país e pela cidade da Beira, de modo particular.

As últimas semanas foram assim de um frenesim jamais vivido pelos jornalistas baseados nesta região do pais, para efeitos desta prosa eleitos verdadeiros heróis, por terem cumprido a sua missão com todo o zelo e dedicação, mesmo debaixo das mais adversas condições.

Como produzir informação sem energia eléctrica para pelo menos ligar o computador? Como produzir informação sem telefone, sem Internet, sem combustível e sem dinheiro? Como produzir informação numa cidade isolada, sem comunicação nem rodoviária nem aérea nem de qualquer outra natureza? Como ter disponibilidade para trabalhar sem tudo isso sendo também vítima do ciclone lá em casa?

Pois, foi sem tudo isso que os jornalistas da cidade da Beira conseguiram dar a conhecer primeiro ao pais e depois ao mundo sobre tudo que tinha acontecido, aliviando muitos compatriotas de outras regiões do país aflitos e ávidos de saberem do que se estava a passar com as suas famílias.

Foi, todavia, sem tudo isso que os heróis desta história produziram informação, mas uma informação que era apenas para os consumidores de fora, porque eles próprios nem sequer tinham acesso a ela.

Fica aqui uma palavra de apreço à Rádio Moçambique que, não podendo parar as suas emissões locais, recorreu a um gerador de energia e acabou acolhendo jornalistas de outros órgãos de informação.

E mais: através da RM descobri que podia transmitir informações à minha Redacção em Maputo via Quelimane porque a rede fixa por vezes estava no ar, pelo menos para esta cidade.

Isso significava, porém, passar essas informações a algum colega da Zambézia que, por sua vez, as fazia chegar a Maputo. Escusado dizer que primeira delas foi mesmo para dizer que estávamos sãos e salvos!

A Tmcel, justiça lhe seja feita, também abriu as suas portas para ajudar os jornalistas, mas também estava com imensas dificuldades de por e manter os seus circuitos em funcionamento.

A situação viria a melhorar quando o aeroporto reabriu porque já era possível o envio das histórias “em mão” por intermédio de  pessoas que cada um conhecesse ou pudesse sensibilizar.

Alguns pilotos das aeronaves que passaram a demandar com cada vez maior frequência a cidade da Beira juntaram-se à causa aceitando portar os trabalhos dos  jornalistas. Aliás, este passou a ser um canal porque de Maputo também nos foram chegando informações e algum material de trabalho.

Devo abrir aqui um parêntese para deixar também uma palavra de muito apreço aos jornalistas estrangeiros que foram desembarcando na Beira logo que o aeroporto reabriu-se à navegação.

Palavra de apreço aos jornalistas estrangeiros porque mostraram logo o seu lado solidário disponibilizando alguns dos seus meios para o envio das nossas reportagens, já que vinham superequipados e conscientes de que iam para um local ″desligado″ do resto do mundo. E assim foi.

Gostaria, neste particular, de repetir uma das perguntas retóricas que faço: como ter disponibilidade para trabalhar sem tudo isso, sendo também vítima do ciclone lá em casa?

É que antes de serem jornalistas, os meus heróis do dia são chefes de famílias que também perderam casas, chapas, vidros e outros bens, alguns perderam mesmo parentes, mas tinham que deixar tudo isso, para irem reportar o sofrimento das outras vítimas. Duplamente vitimas, por conseguinte.

Aqui fica, então, a minha singela homenagem a estes heróis anónimos pela passagem quase despercebida do 11 de Abril.

 

 Eliseu Bento

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