Limpopo: Ensino à distância, ou mera utopia?  (César Langa-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

 

EM1983, o Governo moçambicano, através do Ministério da Educação e Cultura, introduziu o Sistema Nacional de Educação(SNE), cujos propósitos foram, na ocasião, referenciados, discutidos, criticados e defendidos. Desde essa altura para cá, passam 36 anos e com o tempo, também, muitos fenómenos têm estado a ocorrer no nosso ensino.

Tenho ouvido e lido, muitas vezes, sobre críticas ao nosso ensino, quando se discute a sua qualidade, ao mesmo tempo que tenho estado a notar a sua versatilidade, com mudanças a acontecerem sistematicamente, desde a sua calendarização até aos conteúdos leccionados. Lembro-me, com alguma nostalgia, que todos os alunos, ou estudantes, sabiam que no dia 16 de Fevereiro de cada ano arrancava o ano lectivo, o que hoje já não se verifica, por razões que os gestores da área podem saber explicar.

Abro, aqui, um parêntesis, para lembrar queos mais velhos dizem, de boca cheia que “nos nossos tempos as coisas não eram assim...”, insurgindo-se contra aquilo que consideram má qualidade do nosso ensino. E eu pergunto a estas mesmas vozes: Sendo eles, os actuais gestores do ensino, por que não o fazem como era nos “seus” tempos?

Continuando, com problemas financeiros que o país enfrenta, o sector da educação não tem escapado à regra, reflectindo-se na falta de carteiras, salas de aulas convencionais e professores suficientes. Estas crises fazem com que os gestores procurem encontrar soluções, algumas plausíveis, mas outras deploráveis, o que se pode enquadrar e perceber, pois nem todo o percurso é feito só de sucessos. Também há adversidade que exigem mérito na sua remoção.

Uma das soluções encontradas, para fazer face às dificuldades no processo do nosso ensino, nomeadamente à exiguidade do número de escolas e de professores, as autoridades da Educação introduziram o ensino à distância que, pela etimologia, nos leva a pensar no ensino “longe da escola e do professor”. Não vou entrar em detalhes sobre o seu processo, mas sabe-se que os alunos lidam com bibliografia recomendada e/ou distribuída para lerem e posteriormente serem avaliados pelos professores que, pela natureza do ensino, não partilham o quotidiano com os seus alunos.

No entanto, tal como escrevemos, em edições anteriores deste matutino, na dificuldade de se colocar professores nas localidades distantes das sedes distritais, ou mesmo dos postos administrativos, o Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano optou em introduzir o ensino à distância, como está a acontecer na localidade de Zinhane, no distrito de Chigubo, no norte de Gaza. À semelhança desta comunidade, acredito que noutros pontos do país pode estar a acontecer o mesmo.

Só que, para mim e de acordo com o que pude verificar, esta medida assemelha-se à tentativa de “tapar o sol com a peneira”, como se diz em gíria popular, pois não traz resultado nenhum, para este país cada vez mais carente de gente amiga de leitura. Já não se encontram jovens que se acotovelam nas tabacarias e outros locais do género, para trocarem romances (lembram-se das séries “Seis Balas”?), porque hoje em dia lê-se muito pouco. Se até ao nível superior o défice de leitura é de níveis assustadores, imaginem o que é entregar um manual a um adolescente que tenha concluído a 7.ª classe e obrigá-lo a ser um auto-didacta!

Não seria melhor que estas medidas fossem antecedidas de um aturado estudo de viabilidade, com uma matriz bem e previamente desenhada, contemplando vários itens sobre a população-alvo, entre eles a localização geográfica de onde se pretende introduzir o ensino, a faixa etária, a língua mais falada (língua materna da maioria)?

É que a insistir-se nesta utopia de ensino à distância para o nível básico continuaremos a mentir para nós mesmos, multiplicando diplomas, reduzindo o “saber fazer” e perpetuando o analfabetismo funcional. Teremos números elevados de população “alfabetizada”, mas baixos níveis de gente competente, para sectores-chave do desenvolvimento deste nosso Moçambique.

Por favor, joguemos limpo(po)!

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