Dialogando: Nós, jornalistas e a política  (Mouzinho de Albuquerque)

 

 

NO dia 11 deste mês, os jornalistas moçambicanos celebraram mais um aniversário da criação do seu sindicato, ou seja, Sindicato Nacional dos Jornalistas (SNJ). De sublinhar que é com grande pena que este ano celebramos o dia com alguns colegas na cadeia. Contudo, tal como noutros anos, o dia serviu para fazermos a reflexão profunda e crítica sobre o exercício do jornalismo com maior rigor, ética, isenção e transparência e mais virado para o interesse público. Submetemo-nos à autoavaliação e introspecção.

Aliás, a data é de relevante importância também para o povo moçambicano, visto que os jornalistas não só informam a ele, como o formam, contribuindo assim para o desenvolvimento multiforme do país e, sobretudo, na afirmação da cidadania.

Até porque vale a pena voltar a dizer que, de facto, para que haja esperança no futuro do nosso país é necessário informar e formar pessoas capazes de pensar ou reflectir, com imaginação, espírito ou capacidade crítica e comportamento ético, e é o que tem feito igualmente o jornalismo moçambicano, apesar da sua incompreensão e outras dificuldades que enfrenta no seu dia-a-dia. 

Já se sabe que em todas as celebrações desta data, os profissionais do jornalismo moçambicano enfatizam, embora não parece estarem a ser ouvidos, o facto de a liberdade de imprensa e o acesso à informação implicar que as fontes de informação estejam disponíveis, não só nos arquivos do Estado, como noutras instituições, segundo consagra a lei de imprensa aprovada no nosso país.

A tarefa de resgatar a liberdade de imprensa, de expressão e do direito à informação, em Moçambique, despindo-os dos seus aspectos retrógrados, criados de propósito por alguns, torna-se ou continua um imperativo também sob o ponto de vista ético, deontológico e cívico, visando a construção de uma cidadania jornalística plena, da qual ninguém seja excluído, por causa do seu pensamento diferente ou suas críticas das incoerências institucionais, passa também pela abertura dessas fontes.

Porém, cada 11 de Abril que celebramos anualmente deveria nos “ensinar” a perceber que não é pelo facto de a lei nos abrir a possibilidade que devemos sair por aí e dizer tudo o que nos apetecer. Aliás, é ilusão a convicção de que a liberdade de imprensa e expressão é absoluta e irrestrita, por isso, cada um deve fazer das suas no jornalismo. E é no dia 11 de Abril que devemos ser mais “iluminados” para a compreensão de que este não é o caminho certo para onde devemos levar a nossa nobre profissão. 

Entretanto, um estudioso brasileiro disse que o relacionamento entre o jornalismo e a política é historicamente polémico e paradoxalmente intercomplementar. Este intercâmbio está permanentemente envolto em circunstâncias de pressões e contra pressões de bastidores, bem como nos interesses económicos, dos empregos jornalísticos ao mesmo tempo em que o imperativo de informar bem é socialmente cobrado.

E por falarmos da política, dizer que é indesmentível que o nosso jornalismo, como acontece com o das outras nações, é feito ou caracterizado igualmente pela luta por protagonismos políticos, em que alguns jornalistas concorrem a cargos de cariz político. É lógico que num país politizado como o nosso isso não faltaria, mesmo que, nalgumas vezes, essa postura ofereça uma dimensão controversa à nossa profissão que se quer isenta e imparcial.

Anuindo o pensamento do brasileiro, diríamos que, de facto, a aparente instrumentalização do jornalismo por parte do poder político instituído, em qualquer país, e Moçambique não é excepção, mesmo onde a democracia é madura, faz com que os seus profissionais reportem assuntos na perspectiva do “politicamente correcto”. É verdade que isso não acontece em todos os órgãos de comunicação social. Porém, não deixa de pôr em causa a seriedade, imparcialidade, honestidade e utilidade do jornalismo para a sociedade.

Todavia, é por isso que se torna também salutar e prestigiante que quando chega o 11 de Abril debatamos ideias, no jornalismo, na base de todas as formas que corporizam efectivamente, à opinião a favor e contrária, sobre determinados assuntos, particularmente de cariz político, para que não se corroam os valores consagrados pela democracia, neste caso multipartidária, em que a classe jornalística é chamada a defendê-los para a boa convivência democrática.

Para que a tradição no exercício do jornalismo culto, incisivo, abarcador e irreverente, no nosso país conte com profissionais da área determinados e comprometidos profundamente com a causa da sociedade em que estão inseridos. Pois, há quem pense que o debate dos temas transcendentais da nação, o retrato coerente da realidade do país, por parte dos jornalistas, deve ser feito através de um jornalismo baseado no “correctamente político”, isto é, que os órgãos de informação trabalhem como “vozes” oficiosas do poder instituído, e daí toca a pressioná-los. É certo que a lógica informativa está subjacente às diferentes práticas do jornalismo, neste caso político, mas o mais importante é que o nosso jornalismo é chamado a contribuir para uma efectiva consolidação da democracia moçambicana e da unidade nacional. Viva o 11 de Abril!

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