NO Búzi, uma mãe conseguiu salvar os seus cinco filhos, ao se empoleirar numa árvore, para onde ia puxando as crianças uma por uma.

A violência das águas era enorme. Os ramos da árvore já eram escassos e debilitados para suportar tanta gente. O marido da senhora, idoso, pesado e doentio, não tinha onde se refugiar. Por duas razões: Devido ao seu peso a mulher não conseguia iça-lo para os ramos mais altos da árvore. Por outro lado, se conseguisse puxar o marido para a árvore, corriam o risco de partir os ramos e perder as crianças, que já se encontravam em relativa segurança.

A mulher não podia fazer nada. O homem limitou-se a abraçar a árvore, suportando o embate dos detritos que eram arrastados pela corrente, à espera que algum milagre acontecesse e salvasse, ao menos, os filhos e mulher. A maioria das pessoas estava no terraço da casa mais alta que ainda se aguentava no centro da vila. Ele, tão debilitado que estava, não tinha condições para nadar e chegar até lá. Limitava-se apenas a gritar pelo socorro, embora o barulho das ondas lamacentas não permitisse que a sua voz chegasse tão longe.

Felizmente, as equipas de salvamento já estavam a circular em Búzi. Um helicóptero descobriu a mulher e os seus cinco filhos pendurados nos ramos frágeis da árvore, e tratou de os recolher e transporta-los directamente para a cidade da Beira.

No centro de acolhimento, aquela heróica mulher encontrou-se com os seus dois enteados, que já viviam na capital da província, mas tinham igualmente perdido quase tudo devido ao ciclone Idai. Contou-lhes como escapara da fúria das águas, concluindo que só conseguira salvar as cinco crianças. Disse que tentou salvar o marido, o pai deles, mas não conseguiu, pelo que não sabia se tinha recebido socorro ou não.

Os dois rapazes, depois de ouvir o relato, ficaram furiosos a tal ponto que, começaram a espancar a madrasta sem dó nem piedade. Acusavam-na de ter sido negligente e impiedosa por não ter salvado o pai. Ela tinha que cuidar daquele homem como cuidara das cinco crianças.

Foi preciso uma intervenção de outras pessoas presentes naquele local de acolhimento, para acalmar a fúria dos dois jovens, e explicar que não deviam menosprezar o esforço que aquela mãe tinha feito para salvar a família. Ela não podia fazer nada fora das suas capacidades humanas. O ciclone Idai apanhou toda gente de surpresa. Ninguém sabia que a situação iria atingir aquelas proporções.

Helicópteros e barcos continuavam a circular no Búzi. Volvidas cerca de três horas de tempo, o nosso homem continuava agarrado firmemente ao tronco da árvore onde se refugiara a mulher e os filhos. Já estava a cair no desespero, ao ver que toda a vila estava completamente engolida pelas águas. Ondas lamacentas e cheias de resíduos sólidos, zurziam no seu pescoço, enquanto o velho lutava com todas as forças para que a água não lhe cobrisse a cabeça. Seria o fim.

Um dos barcos de salvamento, que esquadrinhava todas as árvores e canaviais meio submersas, conseguiu identificar aquela figura humana, quase inanimada, devido ao extremo cansaço, abraçada a uma árvore. De imediato aproximou-se, e os homens de resgate conseguiram salvar a vida daquele idoso. Dado que a violência das águas e da chuva não davam indícios de amainar, todas as pessoas resgatadas no Búzi, eram transportadas para a cidade da Beira. A mesma sorte coube ao nosso idoso doentio, que finalmente, voltou ao convívio familiar.

Para a mulher e os filhos menores, ele parecia um Cristo ressuscitado. Para os dois matulões violentos, o peso da vergonha, quiçá, uma lição de vida.

Forte abraço.

 Sauzande Jeque

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