Limpopo: Se recordar é viver...(Concl.) - César Langa - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

OS primeiros dias de convívio com a realidade de Malehice foram de mera ilusão, levando-me a pensar que tudo era tão lindo quanto parecia, quando, na verdade, havia muito espinho pela frente. Primeiro, quando desembarquei do autocarro das Oliveiras Transportes e Turismo, do famoso Xitonyane, conduzido pelo já finado Bila, vi postes de energia no recinto que contempla escola, igreja e residências dos professores. Fiquei feliz, pois pensei que, apesar de ser bem distante das cidadesdeChibuto e Xai-Xai, em Malehice “havia energia eléctrica”. Era mera ilusão! Quando a noite cobriu a aldeia pela sua sombra, só me sobrou uma lamparina para iluminar o quarto que partilhei com o professor Fernando Frazão Chirrime, que leccionava a disciplina de Desenho.

Aqueles postes haviam sido colocados no tempo colonial, nos tempos do cónego Boavista, para distribuir a corrente eléctrica produzida por um gerador. Entretanto, depois da Independência, durante o período em que a profanação propiciou o vandalismo nas igrejas, sob a alegação da inexistência de Deus, outras infra-estruturas não escaparam à violência, incluindo a instalação eléctrica e o respectivo grupo gerador.  E tudo piorou porque o saber fazer era, simplesmente, escasso, entre as gentes locais.

Nas residências, as casas de banho estavam lá, mas sem água a jorrar nas torneiras, mesmo havendo canalização. A higiene pessoal era feita na zona baixa, onde o agrónomo Julião Mucavele orientava os alunos para a produção de hortícolas, para o melhoramento da dieta dos alunos do internato. Ou seja, para se tomar um banho era necessário descer-se para a “piscina” e dar um mergulho, numa sessão de nudismo gratuito para os transeuntes nos caminhos das proximidades, sob grande exposição a diversas enfermidades, lideradas por esquistossomose(bilhaziose) e seguidas por malária, dada a quantidade de mosquitos que habitam no sítio. Era outro desengano!

Na mesma semana em que cheguei, houve um jantar de despedida do director Lourenço Matsumane. Foi uma grande festa, à luz de candeeiros a petróleo de iluminação. As bebidas eram, abundantemente Ngovu (feito de farelo de milho), xitxitximelane (feito de cana de açúcar), que vinham em grandes recipientes de 210 litros cada, para além de “ten” (aguardente de caju), sem um refrigerante sequer para os não consumidores das marcas referidas. O trio de caloiros (Saveca, Marcolino e eu) não alinhou nestas bebidas, ainda que o professor Cristiano Adriano (já veterano, na altura) tenha feito uma aposta, em tom cómico, dizendo que aquela “frescura” tinha dias contados, pois só havíamos acabado de chegar à terra onde se consome “ten” por excelência. A ideia com que fiquei foi que a carne de vaca era um prato regular, mas cai numa outra falsa realidade. O quotidiano variava entre ervilha e sardinha, com xima amarela, generosamente doados pelo Programa Mundial da Alimentação (PMA).

Perante este cardápio, os 19 jovens que constituíam o corpo docente, partilhavam a grande mesa da “comuna” (é assim que se chamava a nossa sala de refeições), entre piadas, ofensas e outras mais conversas. E num desses dias, antes mesmo de me habituar, procurei uma esquina e chorei que nem uma criança, para depois erguer a cabeça, pois só a mim, apenas a mim e somente a mim cabia tornar os momentos cinzentos e verdadeiramente coloridos. E valeu a pena.

São alguns episódios que achei que valia a pena partilhar, principalmente com a juventude de hoje, que não consegue nem imaginar como uma família vivia sem um televisor. Outros momentos virão, à posteriori, pois tive a sugestão de os sistematizar em forma de livro, através de amigos que, comigo, gostam de jogar limpo(po).  

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