Director: Júlio Manjate   ||  Directora Adjunta: Delfina Mugabe

NAQUELE dia, como cristão devoto, tinha de cumprir com um dever que tal condição lhe incumbe: enterrar os mortos. Acordou, o tempo já fugia e não pôde fazer mais nada, tão pouco medicar-se para a acalmia das suas crónicas doenças, que não ir ao banheiro, passar pelo vestiário e sair disparado para o lugar do velório, que não ficava perto da casa. Chegou, ainda não começou a missa de corpo presente e deu-se por feliz, porque nisto, como em tudo, governa-o a tempestividade. Trazia flores. Colocou-as diante do caixão contendo os restos mortais da senhora que só viu o seu rosto, pela primeira e última vez, durante o velório. Tomou o lugar e abraçou o canto que enchia o espaço da Sagrada Família, até que o oficiante e o seu acolitado deu entrada pela ala esquerda, tomando depois as suas posições no presbitério. Foram aqueles rituais, aquelas coisas de estilo, próprios da Igreja Católica, que as vive ainda dava chutos dentro da barriga da mãe.

A paróquia estava a abarrotar de gente, de individualidades, de crentes, mas todos eles filhos dos homens. Todos eles gozando de um mesmo privilégio: têm uma mãe. Essa poesia, que é a mulher. Era uma mulher, que se tornara mãe dos seus filhos biológicos, mãe de muitos outros filhos de outras mães, mãe de comunidades que habitou durante os pouco mais de oitenta anitos. Todos para render a última homenagem a essa poesia que nesse dia ia a enterrar.

Dela ficariam apenas recordações.

Ele já não se aguentava, tomava-o até um certo desfalecimento, uma sonolência malandra, o que fazia com que já não efectuasse certos rituais. Sabia das razões de tal estado. Orou para que as forças não lhe abandonassem tão rapidamente e de facto ainda escutou algumas leituras de mensagem, como sempre acontece em ocasiões similares. Tinha as mãos bem ferradas no banco e com a cabeça inclinada para baixo. Orava. Orava.

Anunciou-se o início do velório. Estava entre os primeiros. Reuniu forças para o fazer. E fê-lo. Passavam cinco minutos da uma da tarde. Examinou a sua situação/condição e concluiu que não aguentaria até o fim do velório para depois ir-se ao cemitério onde se procederia ao enterro. Foi para casa, não totalmente com o sentimento de dever cumprido, mas de certa forma tranquilo de ter participado do consolo da família da finada.

Chegado á casa, cuidou de comer imediatamente e só quase a meio da refeição se deu conta de que ainda não tomara os medicamentos. Fê-lo de imediato e continuou a comer, de maneira algo gulosa. Ele, que é sempre pela observância dos limites que lhe impõem, já lá vão décadas.

Sentia-se já algo energizado. Tomou uma taça de vinho depois de uma chávena de chá e sentiu-se bem. Ficou a comentar sobre a cerimónia por uns trinta minutos antes de ir sentar-se no sofá, o que é raro, por um tempo contabilizado pela soneca que veio célere. Quando acordou ainda dispunha de quarenta minutos para um encontro a menos de dois quilómetros da sua casa. Tomou mais um chá e depois se pôs a caminho do local.

O encontro, que era de consulta, teve dois momentos: o primeiro para dar uma opinião, que foi acolhida; o segundo, para lhe informarem que tudo havia corrido a contento. Que por isso podia se fazer um brinde. O aconselhado, todo eufórico, pediu dois whisky’s e uma tábua média de tapas. Ele voltava a sentir-se cansado e tratou de se despedir quando já levava três whisky’s desde que saíra de casa, o que não era nada de anormal.

Em tão pouco tempo e com trânsito nenhum, chegou á casa. Andou em conversa com as pessoas que estavam no quintal em muitos afazeres. Foi mesmo por bons minutos. Era apenas por agrado, pois, ele começara com a conversa e interromper do nada não lhe parecia educado, ou então roçaria à arrogância, mas sentia a necessidade da cama. Começou a caminhar para o quarto e ouviu-se um som triste da queda de um corpo. Era o corpo dele.

Viria a recuperar os sentidos mais de trinta minutos depois.

E foram seis dias a ouvir o Evangelho da dor.

E, por conta disso, agradecê-lo pelo dom da vida.

Ele esteve lá!

 

Djenguenyenye Ndlovu

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Já vinha percebendo que alguma coisa não estava bem com a miúda. Por vezes percebia que ela ensaiava dizer alguma coisa que logo a seguir “engolia“.

Mas naquele dia parecia decidida a “botar boca no trombone…”. Abeirou-se de mim com o seu minúsculo  telefone celular que recebeu de presente pelo seu décimo aniversário. Trazia o pequeno aparelho bem seguro na mão, como se não quisesse que alguém  o visse….

- Pai, compra-me outro telefone porque com este “mbawene” no posso entrar no Facebook.

- E para que é que precisas de entrar no Facebook? Tu só tens onze anos, menina!

- Quero conversar com minhas amigas. Fazer como a mana que tem muitas amigas. Quero fazer muitas fotografias e colocar lá… Pai, vai comprar?

- Não, não vou comprar. Tu não precisas nada disso, nem de amigas virtuais como tem a tua irmã.

- Amigas virtuais?

- Sim. Amigas virtuais são aquelas pessoas que tu vais encontrar lá no Facebook. Pessoas que tu não podes ver, dar um abraço, ir com elas à escola ou à piscina, gente sobre a qual, muitas vezes, não vais poder saber mais nada delas além das fotografias e dos textos que colocam lá no Facebook. Na tua idade precisas conhecer amigas de verdade, pessoas que saibas onde vivem, onde estudam, que possas visitar quando estiverem doentes, que possas convidar para a tua festa, etc. Precisas é de amigos verdadeiros,  não  virtuais...

- Então aquelas amigas todas que a mana tem no facebook não existem?

- Algumas existem e são aquilo que dizem que são, mas outras nem sequer usam as próprias fotos para mostrarem as caras. Usam fotos dos outros, até de crianças recém-nascidas. Dizem que são aquilo que, na verdade, não são… Só para impressionar.

- Há pessoas assim?

- Muitas! Infelizmente há muitas. É por isso que as pessoas são cada vez menos amigas umas das horas. Por exemplo, disseste que a tua irmã tem muitas amigas lá no Facebook, mas viste alguma delas vir visitar-lhe agora que estava doente? Não! Não vieram porque não são amigas dela de verdade, são virtuais…

- Huummmm. Eish!! Então não vale a pena entrar no Facebook...

- Por enquanto não, menina. Primeiro tens que aprender a conhecer as pessoas. Ter amigas verdadeiras. Depois de perceberes isso, poderás ir procurar amigos virtuais.

- Está bem pai. Vou fazer isso. Mas não será por isso que terei de continuar com este telefone mbawene, não é? Compra me outro e tranca o facebook. Assim não vou entrar lá porque sei que não preciso de amigos virtuais. Mas não pode ser por não ter um telefone…

Simulei  que estava a entrar uma chamada no meu telefone, só  para poder afastar-me daquela conversa que me estava a encostar às cordas...

Quando voltei à  sala, a miúda já estava entretida com um desses programas virtualizantes que passam nas nossas televisões… mas sei que aquela conversa sobre o upgrade do telefone, há-de voltar a qualquer momento.

Por isso preciso estar preparado para dar uma explicação  convincente. Esta malta está sempre com um argumento na ponta da língua…

Júlio Manjate - (Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

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