O país, particularmente a cidade da Beira e arredores, viveram no passado dia 14 de Março, momentos jamais vistos na sua mais recente história, na sequência da passagem do denominado ciclone IDAI.

Um maldito Idai que fez das suas matando e desgraçando milhares de moçambicanos que não se esquecerão tão já dessa fatídica madrugada pelas marcas deixadas nas suas vidas.

Marcas de desolação, de destruição, de dor e consternação, que faço questão de não voltar a abordar neste espaço. Basta, até porque já estamos todos a procurar reerguermo-nos!

Gostaria então de reflectir sobre o que vou chamar o outro lado dos efeitos do IDAI na vida de alguns de nós.

Para tanto, convoco aqui o escritor moçambicano Mia Couto que, reflectindo sobre as redes sociais, voltou a dizer, numa entrevista recente ao Jornal Domingo que ″quando os jovens me perguntam como tenho tempo eu respondo: eu desligo a televisão. E desligo o whatsApp e a internet, desligo tudo aquilo que me desliga a mim. Prefiro uma boa conversa e qualquer outro entretenimento. Sentimo-nos poderosos porque num simples toque ligamos um ecrã luminoso. Mas não notamos que aquele mesmo gesto nos desliga. Passamos a visitar o mundo pelos olhos de outros. Passamos a ver o mundo por uma janela muito estreita e quase sempre viciada″.

Como sabemos, dois dos efeitos do IDAI foram os apagões na energia eléctrica e nas comunicações. E falar deste último significa falar de Internet e dos seus conexos, tipo whatsApp, facebook, instagram e twitters.

Acontece, pois, que estamos desligados dessas coisas todas. Ou seja, o Idai desligou-nos delas, voltou a ligar-nos e teve o mérito nisso, de voltar a ligar-nos mais uns aos outros, já não via satélite, mas ″face to face″.

Por instantes, já não estamos a ver o mundo por uma janela tão estreita quanto o conceituado escritor denunciava.

Estamos, nos dias que correm, mais disponíveis para conversarmos, inclusive com os nossos filhos e outros parentes com os quais, não raras vezes, apenas partilhávamos o mesmo espaço físico.

Agora, quando anoitece, sem energia eléctrica, recolhemos mais cedo e estamos realmente juntos. Já não estamos cada um no seu canto, ligado ao whatsApp, facebook, instagram e ao twitter como tem sido nos tempos modernos.

Diríamos, para efeitos deste artigo, que o ciclone Idai repôs as verdadeiras redes sociais.

O ciclone Idai restabeleceu as afinidades entre as pessoas há muito desligadas pelas chamadas redes sociais.

Mesmo nas instituições de trabalho, as pessoas, desligadas das ditas redes sociais, e naturalmente das suas actividades laborais, têm mais tempo umas para as outras. A interacção é maior.

Temos agora mais motivos para sentirmo-nos efectivamente poderosos porque, sem qualquer ecrã luminoso, podemos estar mais próximos uns dos outros falando de nós e do que realmente nos une.

E o ciclone, o maldito ciclone, repôs as verdadeiras redes sociais.

Eliseu Bento

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