FICOU-ME na memória uma lição de um livro de leitura dos meus tempos de ensino secundário, cujo autor teima em esconder-se no subconsciente: “Se de braço levantado eu disser que sim, e calar as palavras ao que sinto, estarei destituindo-me a mim mesmo e defraudando a causa de milhões”.

E não é que o ilustre autor deste dito tem razão!? Lembrei-me agora desta frase, quando senti a necessidade de contextualizar os leitores sobre a razão de ser desta coluna, que passará a ocupar este espaço todas as terças-feiras. Mas acredito que, para muitos, seja fácil perceber que esta não é senão uma das formas que nós, jornalistas, temos para “respirar”. Sobre isto, penso que estamos conversados!

Desde ontem que pouco mais de 30 mil jovens disputam menos de sete mil vagas nas universidades Eduardo Mondlane, Lúrio e Zambeze. É um procedimento de praxe, sustentado pela Lei 27/2009, de 29 de Setembro, a Lei do Ensino Superior.

A minha tese é que, hoje, olhando para tudo o que a prática nos tem mostrado, precisamos de repensar estes exames de admissão, procurando ajustá-los a uma realidade que tem muito de diferente e que já nos confrontou com pelo menos três realidades:

Os estudantes chegam a estes testes de admissão com graves lacunas de formação, que vêm desde as classes iniciais. Uma das consequências disso é que alguns deles são absorvidos pelas universidades, de onde acabam saindo com lacunas por preencher, porque parte do tempo que levam na formação universitária é gasto a tentar recuperar o tempo perdido na formação inicial. No fim, é o mercado que se ressente de todos esses “buracos”, porque às empresas e instituições chegam quadros com habilidades muito abaixo das expectativas.

Só isso explica, por exemplo, que até hoje tenhamos médicos e enfermeiros que conseguem atender descontraidamente a um prolongado telefonema trivial, mesmo tendo pela frente uma fila de pacientes por atender; ou um engenheiro civil que, numa “bolada” com o mestre de obra, aceita que o varão de 12 numa viga seja substituído por outro, de dez milímetros, para tirar proveito da diferença no preço entre os dois.

É também por isso que um funcionário bancário se habitua a ir aos ficheiros dos clientes para retirar informação de carácter confidencial, para partilhar com amigos, nas redes sociais ou nas cavaqueiras de final de semana, ou mesmo para alimentar o crime organizado. É assim mesmo que também temos jornalistas que, por exemplo, pontapeiam o conceito de “off de record”, ou que insistem em separar, nos seus textos originais, o sujeito do predicado com uma vírgula… E andaríamos neste atalho, com muitos mais exemplos.

A proposta que não quer calar é que as nossas universidades devem reformar o actual formato de exames de admissão, em que basta uma dose de boa sorte nos exames (múltipla escolha) de Português e História ou outras disciplinas para se estar inscrito num curso superior de Jornalismo, Direito, Engenharia, Enfermagem, Economia, Contabilidade ou de qualquer outra área de conhecimento. É preciso que haja mecanismos para aferir aspectos mais profundos como a moral e a habilidade para a profissão, sem as quais dificilmente se podem cultivar atitudes éticas no futuro profissional. O segredo está na selecção, pelo que se impõe rigor em todo esse processo. E não me parece que isso se possa resolver com detectores de metais nas portas das salas de exame, porque aí estamos apenas a adiar o problema, para se manifestar noutra ocasião. É preciso examinar os candidatos de acordo com as especificidades do curso a que cada um se candidata. Até porque os candidatos são muitos, e as universidades têm muito por onde escolher, a bem da qualidade.

Júlio Manjate - Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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