À HORA em que traço estas linhas pode ser que Filipe Nyusi, o Presidente da República, esteja a entrar ou a sair das instalações de mais um ministério do seu governo. É que faz hoje a segunda semana que o estadista resolveu abandonar o seu gabinete de trabalho para ir ver “in loco”  a quantas anda a prestação da sua máquina governativa.

Ele que já veio a terreiro manifestar a sua aversão aos relatórios floreados, mais do que ser fiel ao seu paradigma de governação, de ver para crer, está assim a emitir sinais de exigência, empenho e seriedade no trabalho, sabido que o tempo vai escasso e há metas por cumprir. Haverá, pois, que prestar contas ao povo. Ou melhor, para usar a sua expressão tão cara, ao seu “patrão”, que vai-lhe cobrar pelo seu desempenho no fim do mandato.

Já o dizia, em tom irónico e com forte dose de humor, Lula da Silva, antigo estadista brasileiro, que para quem está no exercício governativo, o tempo é sempre pouco e até corre a velocidade de cruzeiro, acontecendo o contrário para o que está na oposição, pois para esse, o tempo vai a passo de camaleão, uma vez que nunca mais vê chegar a hora de alcançar o poder.

Ainda bem que Filipe Nyusi apercebeu-se da urgência desta necessidade. É de encorajá-lo, porque aceitou ser o timoneiro. Mesmo consciente das dificuldades que iria enfrentar, assumiu a governação num ambiente atribulado, porque prenhe de sequelas de um fardo pesado que herdou. Entendeu todavia que, como patriota, era também sua a missão de pegar no leme e conduzir o barco que uma vez jurou levá-lo a bom porto.

Por outras palavras, mesmo ciente de que os cofres estavam vazios não abdicou da causa. Pelo contrário aceitou o desafio, pois muito bem sabia que dos fracos não reza a história e que a frente é o caminho.

O Presidente não poderia ter começado esta sua cruzada de outra maneira. Foi pela agricultura. Porque ainda vai longe a solução de garantir comida ao povo.

O entendimento é de que num pais abençoado por extensas terras férteis e rios para irrigar os campos não deveria haver espaço para a fome. Não faz sentido.

Mesmo tendo em conta todas as adversidades conjunturais, contínua difícil, por exemplo, admitir que um país que chegou a ser um dos melhores produtores de chá, hoje as suas crianças cresçam com “Five Roses” à hora do pequeno almoço, uma marca importada. É um pequeno reparo de como deixamos de produzir para a satisfação das nossas necessidades básicas. Outros tantos exemplos desta índole que até ferem com o nosso orgulho como um povo poderiam ser aqui trazidos.

Vaí daí que à agricultura, o Chefe de Estado recomendou para que cada sector tivesse uma matriz clara de acções visando dinamizar a produção. Tudo deve ser feito para que a fome deixe de constar no vocabulário corrente dos moçambicanos.

No quadro desta mesma acção, o Presidente foi ao Ministério das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos. Deslocação oportuna. Numa altura em que a capital do país está a enfrentar grave crise de fornecimento de água dos últimos 30 anos. Aqui também, Nyusi ouviu e questionou. Manifestou-se agastado. Com toda a razão. É que desde a independência nacional a esta parte foi negligenciada a questão de edificar infraestruturas sustentáveis de água para abastecer Maputo. Avizinham-se dias difíceis, senão não chover o suficiente nos próximos tempos!  Faltou-nos o sentido de visão a longo prazo. Pagaremos muito caro por termos só pensado no presente.

A água sem a qual não há vida tornou-se num recurso escasso. Disputada na sua trajectória por nós, suázis e sul-africanos.

Por isso, o estadista recomendou o recurso a soluções alternativas que possam a ajudar a minorar os efeitos da crise. É um conselho de saudar que peca somente por acontecer tardiamente. Mas mesmo assim, e neste caso, julgo que vale a pena correr atrás do tempo perdido. De contrário morreremos de inanição!

Das obras públicas, o Presidente exigiu qualidade e controlo efectivo dos projectos.

E não foi por acaso. Lembrados estamos todos da queda duma parede inteira na piscina da vila olímpica que levou consigo vidas humanas. Dos maus exemplos este terá sido o mais recente. Em ocasiões anteriores, houve até desastres em que ruíram edifícios inteiros. É mesmo coisa para não tolerar, quanto mais não seja para defender a imagem da prestigiada classe dos engenheiros moçambicanos.

Mas como o disse o Presidente, esta sua ofensiva para além de apontar os erros, visa encorajar os quadros a buscarem soluções para os problemas. E se o acto de receber encorajamento para quem trabalha há-de funcionar como o insuflar de um balão de oxigénio nos pulmões, melhor será se esse mesmo balão de oxigénio vier do Chefe do Estado.

Por isso, Nyusi assegure o leme, mesmo que a proa e a maré onde te encontras se apresentem tão difíceis como está à vista de todos nós!

ALFREDO MACARINGUE

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23.05.2017   Banco de Moçambique

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