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EU viajava no “chapa” com destino a Matutuíne - a terra dos “mandjolos” e santuário do xigubo. Ia “curtir” e admirar o Festival de dança Xigubo.

Naquele “minu-bus” eu estava sentado no banco do meio. No último assento estava uma família constituída por tias, tios, padrinhos. Bem entendido, eles viajavam para uma cerimónia familiar em Matutuíne.

No meio de uma stressante espera para lotar o carro, finalmente chegou um par de namorados. Era “fogosamente” apaixonado. Parecia “casado de fresco”. Preencheu os dois últimos lugares. Partimos deixando para trás a Baía de Maputo e ponte-cais da Catembe.

Na estrada terraplanada, percorremos uns 30 km e, de repente, os passageiros do último banco- ocupado pela família alargada- entra em agitação. Sussurravam sobre um assunto confidencial, de cariz familiar. Mesmo no meio de todo o sigilo, os ânimos de alguns membros da família começavam a exaltar-se.

E foi uma ligação telefónica, que abriu o véu sobre o conteúdo “confidencial” da conversa: - Olha, e o “tipo” está aqui com uma vagabunda qualquer. Uma gaja que não é de nada…cheia de ranho! O pior é que o gajo nem sequer tem gostos! Teve coragem de trocar-te por uma “nantcheka”…uma “pirua” qualquer da rua!

- Mas isso é  a sério, tia? Eu não acredito! Vocês não estão a sonhar? Tem certeza que é mesmo o meu Pedrito?

- Claro que é o Pedrito! Olha, ele nem imagina que estamos a viajar juntos no mesmo “chapa”…está abraçadinho com a tal desgraçada! Mas quem diria, hein?

-Mas é já na próxima semana que ele vem “lobolar” aqui em casa! E tudo já está organizado! Não, isso não pode ser verdade, juro!

Logo após desligar a chamada ecoou uma voz: “cobrador, pára o carro. Queremos fazer “xixi”. O carro encostou.

O cobrador abriu a porta. O “genro infiel” e sua “outra” namorada, sentados à entrada, desembarcaram para dar passagem a quem desejasse “aliviar a bexiga”. 

A primeira “mamana” que desembarcou atacou: “- Menina, este mafioso e aldrabão é noivo de nossa filha Tininha. Ele vem “lobolar” próxima semana na nossa casa!”

Um “madoda” entra em cena e com o dedo em riste: “Molwene”! Como pode atrever-se a trocar a nossa filha por essa vagabunda aí? Cara sem vergonha, você nunca deveria ter entrado na nossa família!”.

O jovem apanhado totalmente de surpresa ficou assustado e “molhado” ao ver a família dos seus sogros ali no mesmo carro. Nunca se imaginara a lidar com uma situação tão embaraçosa como aquela. Não reagiu. Assumiu a culpa.

A viagem prosseguiu no meio de um grande “vuku-vuku”. O “casal” recebia um amontoado de “bocas” vindas de todos lados, incluindo de passageiros intrometidos, os de língua afiada sempre disponíveis a intervir em tudo o que não lhes diz respeito.

O “casal” já não aguentava mais. Para acabar com tudo aquilo, pediu para descer do “chapa”. Com os rostos deprimidos e bastante envergonhados, desembarcaram no meio de um ciclone de vilipêndios. O “mini-bus” deixou-os em lugar nenhum…mas pareceu que sentiam-se mais bem atirados ali à sua sorte, no meio do nada, que continuar a ouvir aquele festival de bocas.

O “chapa” arrancou e passavam uns 10 metros, o cobrador exclama, “Yú, vejam lá aquilo!”. Viramo-nos. Vimos uma cena que se parecia com um final feliz de um belíssimo filme de amor…. Era uma imagem poética e delicada: agarrados, eles beijavam-se na boca “forte e feio”…como se dissessem: agora fazer o quê? Só nos resta “morrer mesmo com razão”.

- “Xiça! Yá, mas esse rapaz tem mesmo abuso pá!”, explodiu o “chapa”.

A sogra sentiu-se diminuída com aquele gesto “indecoroso”. E visivelmente desesperada abriu a janela e tirou a cabeça e gritou aos “apaixonados”: “- futseka! Mbuianguanaaaaa…” O motorista viu no retrovisor uma cabeça ao sabor do vento e, pediu que esta “devolvesse” a bordo. E antes de obedecer a ordem do condutor, vociferou: Vocês vão-me conhecer, juro! E tu aí, prepara-te, porque vais “lobolar” bem mesmo “a minha filha Tininha…senão eu não me chamo de tia Rosa da Catembe!”. E para selar a sua jura, uniu os dedos indicadores em forma de uma cruz. De seguida beijou-os e sacudiu-os energicamente!

Albino Moisés: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

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