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DURANTE quatro dolorosos dias esteve de cama sem que os médicos pudessem descobrir as causas. Tudo lhe doía e o corpo recusava-se a pôr-se de pé. As crianças choravam a sua presença. Choravam o seu ausente convívio. Há pouco mais de um mês houvera um infortúnio e as crianças diziam “vovó não pode morrer”.

De tempos a tempos faziam-se ao seu quarto, com a porta semifechada para não o perturbar em casos de apanhar sono, para lhe perguntar se podia passar uma sopa, uma fruta ou outra coisa qualquer que alimentasse. Normalmente adiava para mais tarde essa actividade, acabando por passar boas horas sem a ingestão de alimentos de espécie alguma.

Foi assim durante cada um desses dias. Cada uma dessas noites. Cada um desses minutos por esse tempo passados. Pouca ou nenhuma era a vontade de comer, fosse o que fosse.

Num dos quartos do bloco sul da casa estava a mãe inspirando cuidados passavam anos. O quarto dia ia, mais uma vez, deitar-se (a crer no relógio já que durante esses dias não permitiu um feixe de luz exterior) sem que ele pudesse visitá-la e com ela orar, quando ela pudesse, ou rezar por ela. Fez um esforço para se levantar. Debalde.

Passado pouco tempo chegou-lhe a notícia de que a mãe dizia-se em grandes melhorias. Que nos próximos dias acreditava que podia andar sozinha. Que tinha comido muito bem, um pouco mais do que era seu hábito. Sorriu. Lia-se, na sua cara, a alegria que tal notícia lhe trouxera. Desocupou a mente, se bem que em situação de doente esta funciona quase nada, até pouco mais das onze horas da noite. A casa estava a dormir e ele entrava em vigília do sono dela. E assim seria até às quatro da manhã, hora em que voltou a repousar a mente. Às sete horas ouviu um “vou a consulta e não vou demorar. Vou passar pelo quarto da velha”. Depois ouviu o som do tacão de cada vez que golpeava o chão de mármore que se ia reduzindo à medida que mais se distanciava do quarto até que se tornou completamente inaudível.

Continuou na cama, como já se tornara hábito, de olhos abertos e fixos no branco do tecto. Sentia que o seu corpo estava a ser energizado. Ouviu uns passos no corredor. Era o chá de limão e uma maçã verde, sua primeira e única refeição antes do almoço. Tomou o chá. Comeu a maçã. Voltou a entregar-se ao sono, mas perto das nove horas despertou. Sentia-se com energia suficiente para se levantar. Fez um banho de chuveiro e sentiu-se ainda melhor. Foi então que pensou em ir ao serviço. Arrumou-se e desceu com essa intenção, mas, uma vez lá em baixo, deixou-se estar na varanda a contemplar o movimento das viaturas rolando pela estrada. Vendo os “my love” ao compasso lento da fila que vai dar à zona baixa da cidade.

Estranhamente, não lhe deu para passar pelo quarto da mãe. Ficou ali na varanda a contar os “my love” que iam passando vindos da zona pobre da cidade.

A empregada, que estava a fazer o seu trabalho, encontra-o na varanda e fica assustada. Contrariamente ao que tem sido hábito, cumprimentá-lo, disse apenas que “a vovó não está bem”. Ele lembrou-se de que não a foi ver e perguntou: “como assim, se ontem estava bem?” e ela disse “sim patrão. Ela ontem estava bem. Até as dez da noite estava a conversar com os netos e as sobrinhas. Falava com eles sobre Deus, respeito etc., mas hoje acordou muito mal. Não conseguiu comer mais do que duas colheres de papas. Nem água nem sumos conseguiu beber. Não fala e está de olhos fechados”.

Ele foi a correr para o quarto da mãe. Estava sentada numa cadeira com os braços dormentes nos braços da cadeira, de olhos fechados e a boca aberta. Chamou por ela, mas ela não reagiu. Pegou no ombro dela. Tentou fechar a boca, mas esta voltava a abrir-se logo que tirasse a mão. Pediu para que chamassem uma ambulância, mas disso já tinham tratado. Feita a articulação com o hospital, quando lá chegaram, foi conduzida, de imediato, para a sala onde a esperava uma bateria de médicos. Meio-dia e quarenta minutos. Ele regressa à casa completamente debilitado. Com dificuldade sobe as escadas que o levam ao quarto. Deita-se e fica à espera do sinal do hospital.

A filha regressa da consulta e os empregados dizem-lhe que ele tinha descido. Ela sobe a correr para dizer como foi a consulta e felicitá-lo pelas melhorias. Ele diz-lhe que a mãe está no hospital e não acrescenta mais nada. Era dia de consulta da mãe, por isso não se preocupou muito. Foi comer. Depois voltou ao quarto. Foi então que ele contou-lhe o quadro em que levou a mãe para o hospital. Preparou-se e foi ao hospital. Quando ela chegou a mãe tinha morrido vinte minutos antes.

As dores desapareceram. Não se manteve na condição de enfermo até levar a mãe para a casa dela.

Melhorar para se despedir.

Djenguenyenye Ndlovu

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