VOU levar emprestadas, com a devida vénia, as palavras de João Lourenço, Vice-presidente do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), ele que esteve em Maputo no último fim-de-semana: “… se não estivermos unidos, os malandros vão nos vencer… Eles estão unidos, e não dormem…

”. João Lourenço não podia ter sido mais claro, profundo e certeiro na sua reflexão em torno de um assunto tão sério como é a unidade e compromisso nas organizações.

Na verdade, em partidos com a dimensão da Frelimo e MPLA, a questão da unidade não deve, nunca, ser negligenciada. A unidade, ou se quisermos, a coesão, é fundamental para a sobrevivência das organizações. No caso dos dois partidos, a questão torna-se ainda mais relevante nesta fase, considerando que ambos estão envolvidos em delicados processos de transição geracional nas suas lideranças.

A conversa sobre unidade e coesão não é nova nas hostes da Frelimo mas, a referência feita pelo governante angolano, meio na desportiva e à guisa de apelo, soou-me a uma chamada de atenção para uma situação que precisa ser encarada com frontalidade e discutida com responsabilidade no seio do grupo.

Na verdade, este é um exercício que, de certa forma, já vem acontecendo mas, o que eu penso é que nenhum esforço bastará se o empenho em “pregar” o ideal de unidade e coesão for apenas da liderança do partido, e não houver, da parte dos membros, a responsabilidade e lucidez necessárias para assumir que essa é a única maneira de ser que convém a um partido maduro como a Frelimo.

Aqui, permito-me a chamar uma parábola do então presidente Joaquim Chissano que, tentando explicar a uma audiência jovem sobre a importância da reunião e participação, elucidou que não se pode cobrir uma casa se, enquanto por um lado uns levantam as chapas, outros, do outro lado, penduram-se nelas…

Em processos de transição geracional como este a que estamos a assistir no seio da Frelimo, a coesão do grupo é determinante para que a passagem do testemunho seja o menos turbulenta possível, e permita a estabilidade interna necessária para a manutenção dos objectivos do processo. Acredito nisto mesmo aceitando que é inevitável a existência, no seio do grupo, de vozes divergentes em relação à maneira como o processo segue a sua trajectória.

Aliás, segundo escreve Manuel Castells em “Poder da Comunicação”, as mudanças, sejam elas evolucionárias ou revolucionárias, são a essência da vida; ou seja, são, também, a essência das organizações. Elas mudam para se adaptar aos contextos, mas nunca devem perder o foco em relação ao objectivo que determinou a sua criação.

Isto exige a tal união; exige coesão no seio do grupo, uma espécie de renovação constante do compromisso colectivo com os objectivos; o respeito pelas normas internas de acção e de convivência.

Entendo, pois, que o recado de João Lourenço chegou em momento oportuno, pois, hão-de concordar que tem havido, no seio do Partido Frelimo, alguma falta de rigor no compromisso de alguns membros em relação à organização. Não encontro outra explicação para todo o desfile a que vimos assistindo no espaço público, de ideias desencontradas sobre questões delicadas da vida do partido. Isto, tanto quanto me parece, é indicador de falhas na coesão do grupo, um problema que precisa ser encarado com frontalidade e discutido e resolvido tempestivamente, com a maturidade que é característica da Frelimo.

Eis, pois, uma oportunidade para a organização provar, mais uma vez, a sua maturidade na solução de questões delicadas, não permitindo que o grupo se fragmente em momentos como este, em que se espera dela uma solidez que sirva de exemplo para o país e para o mundo.

Conforta-me compreender que o alerta de João Lourenço não é válido apenas para os seus camaradas da Frelimo e do MPLA. Imagino que seja aplicável para muitas organizações do meu país, e até para as nossas famílias, porque há sempre quem espera por uma oportunidade para desconstruir o que levou anos e muito esforço para ser construído.

Muitas vezes é mesmo por falta de unidade que organizações desmoronam e famílias desagregam. Os malandros não dormem, e estão sempre à espreita da menor oportunidade para destruir.

Mas, por vezes, e como dizia Samora Machel, “…se o feiticeiro entra em nossa casa, é porque alguém lhe abriu a porta…”.

Júlio Manjate

Câmbio

Moeda Compra Venda
USD 60,74 61,93
ZAR 4,59 4,68
EUR 71,31 72,71

21.08.2017   Banco de Moçambique

Opinião & Análise

AS más práticas são para serem desencorajadas e as boas ...
2017-08-21 07:19:38
“OLHA, está aqui na portaria um senhor que pede para falar com um ...
2017-08-20 23:30:00
COMO comuns mortais, andamos condenados a ver tudo e mais alguma coisa que nos leva ...
2017-08-20 23:30:00