SENTEI no computador sem vontade de escrever. Mas porque tenho obrigações, comecei a escrever. Contabilizava as palavras, pois tenho metas, não poderia escrever algo com apenas 200 palavras, tinha de ter 500 ou 600 palavras. Então escrevi.

Elaborei a primeira questão do exame, a segunda… Sem me dar conta, já havia terminado a tarefa. Entrei na Internet e abri o meu email. No meio das mensagens, encontrei de uma estudante, a mais esforçada da turma.

A mensagem era emotiva, ela escreveu com coração, o texto misturava mágoa, raiva, ternura e ódio. A estudante teve 13 valores e não dispensou. Na verdade, teve 13,4 e não dispensou. Na mensagem reclamava e dizia que se tinha esforçado, fizera de tudo para ser a melhor, participou em todas as aulas, batalhou para dispensar.

“Não é justo, estudantes turistas, que nem participam das aulas, tiveram notas superiores e dispensaram”, terminou a mensagem.

Procurei no meu email, para ver se ela havia enviado outra mensagem, pedindo algo, um encontro ou o acréscimo de 0,1 para que pudesse dispensar, mas nada.  

Pensei em responder o email, mas faltaram-me palavras. Naquele dia senti-me injusto. Senti-me vilão. As palavras da mocinha foram balas que acariciaram as minhas entranhas e fizeram-me viver sensações estranhas.

Deixei a avaliação no flash, à espera do dia para o exame.

O tempo vestiu a pele de Bolt e correu, bateu todos os recordes mundiais e olímpicos para a minha infelicidade. Tenho coragem, não sou uma barata para temer um frente a frente, mas temi ver as lágrimas da estudante no dia do exame.

Dentro de mim arranjei uma explicação: “Sou docente, tenho que seguir os números. Os números é que contam. A sua participação, dedicação não podem contrariar os números. Conforma-te miúda”, repetiam minhas vozes interiores em coro.

Imprimi e contabilizei os exames. Na sala estavam 13 alunos. Sentados juntos, como o lodo, a lama da água de um charco num dia sem ondas. Levantei a minha voz e separei-os.

“Dispersem, dispersem, dispersem! Você senta ali. Dispersa senhora, quem tu és para estar colada a ele, são gémeos siameses?”.

Enquanto organizava a turma, a estudante dos 13,4 valores, sentada na primeira fila da sala, olhava para mim, de cima para baixo e de baixo para cima. Era um olhar radiográfico, por instantes senti frio e pensei que estivesse sem roupas.

Comecei a distribuir os exames, um a um. Entreguei a todos, menos ela. Depois de entregar os 12, respirei fundo, peguei nos testes que sobraram e deixei na minha mesa. Depois, subtrai um, peguei com mais firmeza e coloquei na carteira da estudante.

Ela roçou as extremidades do teste com os dedos, olhou para minha face. Os nossos olhares colidiram. Eu perdi a fala, fiquei sem palavras. Até movimentei os maxilares, meus lábios por instantes pensaram que estava a discursar, mas a voz não saiu. Desviei o olhar e no meu interior gritei: o que queres que eu diga?

GLÓRIA MARIA-Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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