NO âmbito da minha actividade profissional, fui ao Malawi numa visita presidencial, já lá vão alguns anos. Talvez nunca teria a oportunidade de contar este episódio aos leitores do “Poder da Palavra” pois, quase todos os dias, os jornalistas, em qualquer parte do mundo, acompanham os Chefes do Estado dos seus países, nas suas viagens de trabalho. Porém, esta teve uma particularidade. Aconteceu na altura em que Bakili Muluzi era Chefe do Estado.

Ele convidara o Presidente da República moçambicano e, como era costume, Joaquim Chissano fez-se acompanhar por ministros, vice-ministros, entre outras entidades. Depois da jornada de trabalho, já ao fim do dia, a ilustre visita foi obsequiada com uma recepção que ocorreu ao ar livre, num jardim, na cidade de Blantyre, em forma de self-service. Os digníssimos entes malawianos e moçambicanos também deviam perfilar para degustar das iguarias deste país africano. Apenas os dois Chefes do Estado tinham um espaço privado para este jantar. Eu e outros colegas da profissão fomos convidados a juntar-nos aos ilustres na fila. Dois vice-ministros moçambicanos encontravam-se à nossa frente. Um deles, que por questões de ética vou omitir o nome, quando se apercebeu de que havia jornalistas e outras pessoas no mesmo local onde os insignes iam tomar a refeição, preferiu retirar-se, dizendo ao seu colega: “Acho que nós vamos jantar lá dentro…”

Infelizmente, para eles, era aquele o lugar onde deviam saborear os manjares malawianos, com todos os outros membros dos governos dos dois países que acompanhavam os respectivos Chefes do Estado, incluindo jornalistas. Mais tarde, vi os dois distintos na cauda da fila. Duvido que tenham conseguido alguma coisa para comer pois, quando nós alcançámos o buffet, já pouco restava nos recipientes. Como disse, trata-se de um episódio antigo, que não o traria para este espaço se não fosse para ligá-lo à grande lição de humildade que o Presidente da República, Filipe Nyusi, deu aos moçambicanos, domingo último, numa postura que nada tem a ver com a manifestada pelos meus ilustres compatriotas no Malawi, que por falta de modéstia, acabaram ficando numa situação desconfortável, como muitos ainda ficam hoje, por essa razão.

Um desconforto que não sentiu Filipe Nyusi ao se deslocar à Gorongosa, à busca da paz efectiva para Moçambique, depois que, segundo se diz, o líder da Renamo mostrou indisponibilidade de ir a um outro lugar para encontrar-se com o Chefe do Estado, invocando questões de segurança.

A sua viagem à Gorongosa ficará assim registada, com tinta indelével, na história deste país, pois nenhum outro dignitário teve a mesma atitude antes, no âmbito do diálogo pela paz em Moçambique. Pelo que ouvi (e outros moçambicanos também), repetidas vezes, os outros Chefes do Estado que antecederam o actual se mostraram abertos ao diálogo com Afonso Dhlakama, mas na condição de que o encontro para o efeito se realizasse em Maputo, a capital.

Sem querer tirar mérito aos outros, pelo que fizeram por este país, é de realçar que Filipe Nyusi não olhou para o local onde a conversa iria decorrer, mas o fim último: a paz para Moçambique. Aliás, ele esteve recentemente em Machipanda, província de Manica, onde teria reiterado a necessidade de os moçambicanos vencerem o orgulho para conversarem livremente, uns com os outros, acarinharem-se e terem sempre presente que o país é de todos os moçambicanos e eles constituem uma única família, apesar das suas diferenças ideológicas.

Para mim, a ida do Presidente da República às matas de Gorongosa, mais do que uma demonstração da vontade de trazer a paz efectiva é um ensinamento de que, se necessário, devemos enfrentar todas as adversidades para alcançarmos os nossos propósitos.É nesta perspectiva que o encontro reacende a confiança e esperança da reconquista de uma paz duradoira e permanente em Moçambique, para além de abrir uma nova página nos anais do diálogo.

Diz-se que na sua deslocação, Nyusi terá em algum momento palmilhado a região de Gorongosa a pé, porque já não havia acesso à viaturas. Mesmo assim não desistiu, enfrentou tudo até chegar ao local, para conversar com o líder da Renamo. Parabéns, Sr. Presidente. Aprendi muito com esta atitude... Faço votos para que haja colaboração de todos, continuemos a progredir e que no final do ano, o processo de paz seja selado. Aliás, como ele próprio costuma dizer, o assunto da paz não pode ser, apenas, de uma pessoa. Todos temos de trabalhar nesse sentido. É daí que estendo as minhas felicitações ao líder da Renamo, Afonso Dhlakama.

Só me resta dizer, Alea jacta est (A sorte está lançada)! Que continuemos a caminhar em direcção à paz efectiva.

Delfina Mugabe

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