EU ia a descer a pé, pela Avenida Vladmir Lénine em direcção à baixa da cidade de Maputo. Seguí por aquela via depois de descer do “my love”, onde fui maltratado até à  exaustão em todos os sentidos. Física e espiritualmente.

Na verdade gosto de conversar, e gosto também de ouvir as conversas dos outros. Muitas delas verdadeiras ao ponto de nos rebentarem com a alma. Outras, muitas também, são resultado da criatividade de quem as conta para matar o tempo. E eu estou ali no meio dos meus concidadãos, conversando numa boa, suportando as intermináveis paragens e o “anda-pára-anda”, criado pelos engarrafamentos rodoviários cada vez mais sufocantes.

Mas o pior de tudo são os apertos dentro da carroçaria, onde parecemos gado, que é rejeitado no matadouro por ser magro demais.

Agora estou livre. Vou descendo despreocupadamente a “Vladmir Lénine” abaixo com cheiro à catinga contaminado no meu corpo pelos meus concidadãos no “my love”. Este odor incomoda-me, apesar da minha liberdade, mas não posso voltar para casa tomar um banho e mudar de roupa. Para fazer isso tinha que apanhar outro “my love” para aumentar o “perfume”. E depois voltar, ainda noutro “my love”, com outro perfume de outra marca, mas com os mesmos sinais da transpiração dos homens e mulheres que se apinham diariamente na procura da vida. E isso seria trabalho interminável de um doente mental. Graças a Deus eu ainda “bato cem”. Penso assim. Porém, pode  ser que esteja equivocado!

Estou a cheirar o cheiro dos outros. Estou com dor na alma e não tenho como me livrar desse castigo. Não tenho carro próprio no qual viajaria sozinho como um verdadeiro egoísta, como está na moda. Lembrei-me do Jardim Tunduru. No lugar de continuar rectilineamente até à “25 de Setembro”, achei por bem passar pelo Tunduru, onde pelo menos iria respirar um pouco de ar puro e procurar esquecer isto. Entrei por ali e o que senti, realmente, foi uma lufada de ar fresco. Até certo ponto frio por causa das árvores vivas e verdejantes. E dos lagos artificiais que nos fazem esquecer a desordem da nossa cidade. Sem a copa das acácias.

Não me espantei quando vi jovens sentados nos bancos do Tunduru, conversando em plena manhã que devia ser de trabalho. Lembrei-me logo que estamos num país em que a juventude atravessa um momento difícil. Sem emprego, mesmo tendo concluído a formação superior ou tendo formação profissional. E eu estou a atravessar este jardim botânico renovado. Bonito. Acolhedor. Com todas as condições para renovar o espírito. E eu sinto uma lufada de ar fresco na minha alma ao descer para apanhar do outro lado, a Avenida Samora Machel, antes de chegar ao jornal Noticias, a  minha machamba.

Já agora, aproveito aqui para endereçar os meus parabéns ao Conselho Municipal por ter reabilitado o pulmão de Maputo. Já era sem tempo. Eu nunca tinha ido para ali desde que foi renovado porque o tempo, com este “corre-corre”, cada vez mais apertado, nunca sobra para relaxar. Foi a primeira vez que passei por ali e fiquei gratificado. É coisa bonita. Que deve orgulhar todos os moçambicanos, em particular os moçambicanos que vivem em Maputo. Estando aqui, a alma esquece tudo. Como agora, que já me esqueci dos perfumes do “my love”.

Aquele abraço!

Alfredo Macaringue

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