A MINHA imagem no espelho é prova de que o tempo é um grande pugilista, que maltrata a face, dá golpes lentos e suaves às articulações, até que os anos passem e as dores venham à tona. Por mais que o relógio avance, o despedimento do professor Marcos ainda me faz reflectir sobre a condição humana.  Encostado na sala dos professores, escutei a conversa dele com o director Saraiva. Recordo e como recordo.

- Estás despedido!

- Mas o que fiz de errado?

- Tiveste gula, não controlaste os apetites e o resultado foi esse.

- Perdoem-me, a escola deve perceber que o salário não chega para satisfazer todas as minhas necessidades.

- Cala-te, Marcos! Se todos os que recebem salários míseros fizessem o que fizeste, o mundo estaria perdido.

- Não é isso.

- Reconheça o teu erro e não tente te justificar.

- Director Saraiva, tente entender a minha parte.

- Entenda a nossa, somos uma escola secundária com princípios. Não podemos tolerar professores corruptos como o senhor.

- Não foi corrupção, foi fome e imprudência.

- Homens com juízo no lugar não aceitam as manipulações, as alucinações que o estômago cria.

- Os meus filhos, meus cinco filhos, precisam destas moedas. Meu casamento, minha esposa não vai aceitar ver o seu Homem a ler jornais à procura de emprego, enquanto as panelas rogam por comida.

- Que pensasses nisso antes de cometer os seus actos.

- Não foram actos, eu aceitei o dinheiro de um só estudante, despistei a pauta e deixei ele passar.

- Não és despedido por este acto, mas por seres o líder do esquema. Conversámos com vários estudantes e percebemos que existe um sistema paralelo.

- Que sistema?

- Não negue, encontrámos o senhor em flagrante. A bicha dos encarregados de educação que vêm pagar a aprovação dos filhos era longa.

- Quem disse que a bicha era para isso? Era para aconselhar os pais. Eu, como bom professor, criei essa reunião para isso. Para fornecer um atendimento personalizado, ouvia a eles, um por um.

- Pare com essas mentiras, devias te envergonhar. Encontrámos os envelopes na sua secretária. Logo que entrámos na sala, até tentaste esconder, mas era inevitável. Não tente argumentar, as mães dos seus estudantes confirmaram.

- Director Saraiva, tem de entender, sou um ser humano, preciso de um extra, um valor a mais para alimentar os meus filhos. Por favor, não tire o meu pão.

- O senhor já não trabalha nesta escola.

- Não, não, não!

- Pode sair da sala.

- Não faça isso, senhor Saraiva.

- Saia, Marcos.

- Meus filhos.. tenha piedade!

Nesse momento, Saraiva respirou fundo, até senti o fôlego do homem, encostado na porta. Depois de alguma hesitação, ele disse:

- Fale com o Mário da Primária do Livramento, anote o número... Mas quando o senhor tornar a fazer das suas, não terá mais oportunidade.

Depois de ouvir isso, saí do corredor da sala dos professores e perdi a oportunidade de ver o prof. Marcos pela última vez. Recordei-me dele hoje, Glória, quando me reparei no espelho e vi algumas das rugas que aquele senhor tinha em partes localizadas da minha face.

Glória Maria-Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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