NA próxima quarta-feira os angolanos vão a voto, naquilo será o fim de uma era, a era de José Eduardo dos Santos (JES) no poder desde 1979. O próprio  JES, como é conhecido no seu país, disse na hora de despedida aos membros do seu Governo que as sementes lançadas à terra estão a germinar e que o povo angolano vai, de certeza, colher bons frutos, a médio prazo.

Deste cantinho só me resta desejar que o vaticínio do líder angolano se concretize. E este sonho está nas mãos do povo angolano, em primeiro lugar. Independentemente das escolhas, os angolanos têm de saber que o desenvolvimento do seu país depende unicamente do trabalho de todos.

Nas vésperas das eleições, como de costume, há um nervosismo e incertezas entre as pessoas. As sondagens  mantêm o MPLA no poder. Claro que isso não agrada  os apoiantes da UNITA, de Isaías Samakuva, e  da CASA-CE, de Abel Chivukuvuku, que acham que os resultados dessas sondagens são uma encomenda do regime.

Esse debate é natural. A  UNITA deve estar cansada de ser  oposição, mas nunca deve se esquecer que tem pecados antigos de que dificilmente se vai livrar. Um desses pecados  é o facto de ter recebido apoio directo do regime segregacionista do “apartheid”. O apoio financeiro à UNITA  até era incorporado no Orçamento do Estado sul-africano no tempo do regime racista.

O antigo líder da UNITA, Jonas Malheiro Savimbi, gabava-se muito disso e até  zombava com a RENAMO, afirmando que o partido da oposição cá da nossa terra, que também beneficiou do apoio do “apartheid”, não era quase nada. Claro que isso minou as relações entre os dois movimentos armados que combatiam  os respectivos governos.

Voltando às eleições angolanas. Não me agrada nada a propaganda anti-eleitoral vinda de Portugal. Como de costume, certos sectores da política portuguesa, usando, sobretudo, a comunicação social, querem assumir atitudes  paternalistas em relação às ex-colónias.

De Portugal chovem notícias de que as eleições angolanas vão ser uma fraude. Vão ser fraude se ganhar o MPLA e  o seu candidato às presidências, João Lourenço. Um dirigente político português disse publicamente que, em Angola, as eleições nunca foram limpas e decentes. E as eleições gerais de 23 de Agosto continuariam no mesmo modelo, que não há observação eleitoral internacional, não há cadernos eleitorais decentes, não há presença dos partidos de oposição nas estruturas da direcção do processo eleitoral, etc., etc.

Tudo isso são mentiras grosseiras, propositadas para descredibilizar o processo angolano. A SADC, por exemplo, vai  observar as eleições angolanas, mas para esse dirigente político português os países-membros deste bloco não são comunidade internacional. Comunidade internacional é a União Europeia.

Nós, cá em África, temos de chamar sempre os europeus para observarem as nossas eleições, mas os mesmos nunca se recordam de chamar os africanos para o mesmo efeito. Isso não tem outro nome se não paternalismo e megalomania.

Felizmente, os angolanos têm sabido se defender das investidas dos tais certos sectores da política portuguesa. Em Angola eles não brincam como o fazem em alguns países da chamada África lusófona. Angola proibiu, por exemplo, os sinais abertos da RDP e  RTP-África.

Quando as autoridades portuguesas negociaram as transmissões destes dois canais públicos portugueses com os PALOP, Angola foi claro: se querem transmitir em  sinal aberto, em Angola, deixem também que em Portugal se transmita em sinal aberto a TPA (Televisão Pública Angolana) e a  Rádio Nacional de Angola.

Os portugueses  recusaram essa pretensão porquê? O resultado é que até hoje em Angola não há RDP-África, nem RTP-África em sinal aberto, contrariamente ao que acontece  em Moçambique, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Só muito recentemente Guiné-Bissau decidiu romper com o acordo cancelando as transmissões daquelas duas estações, porque entende que interferem clara e negativamente na governação local. Bem haja ao processo eleitoral angolano.

Lobão João

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