HÁ alguns anos, o Governo do ex- presidente moçambicano, Joaquim Chissano,  decidiu  autorizar o transporte de passageiros com o uso de carrinhas de caixa aberta, chamadas actual e pejorativamente de “my love”.

Antes dessa autorização governamental, as carrinhas transportavam pessoas perigosa e desumanamente, como se faz hoje na capital moçambicana, Maputo, numa actividade que  já provocou acidentes, causando mortes, feridos e  danos materiais.

Os habituais utentes deste tipo de transporte público argumentam que estão fartos de averbar faltas de comparência ao serviço ou à escola, ou  de se atrasarem  a  diversos outros compromissos, e por isso optam por arriscar as suas vidas empoleirando-se na bagageira  como se de carga inútil ou de gado se tratassem, quer faça frio, ventania, chuva ou sol.

Embora não seja oficial, a  Polícia de Trânsito (PT), aparentemente, foi instruída a  “fechar os olhos” e  deixar que esta  situação prevaleça e perdure  até que, um dia desses, numa solução milagrosa, haja transporte público de passageiros decente e  eficaz. Gostaria de viver muito para ver isso acontecer no meu país.

No entanto, a pergunta que se coloca é: por que antes de autorizar os proprietários deste tipo de carrinhas a  transportar passageiros não se exige que pelo menos se coloquem bancos e  lonas, como no tempo do Governo de Chissano?

Será que é vergonhoso agora assumir que o Estado não tem capacidade de transportar os seus cidadãos em carros fabricados  para o efeito? Não nos esqueçamos que o transporte público de passageiros é responsabilidade do Estado.

Há dias chegaram as automotoras, que segundo os mentores, poderão revolucionar o sector, pelo menos a  nível das cidades de Maputo e Matola, mas não tenhamos ilusão. As duas cidades são grandes em número de residentes e em tamanho geográfico. Seria criancice pensar que teremos de repente o problema de transporte público parcialmente resolvido com as tais automotoras que se prevê sejam conectadas aos autocarros.

Os “my love” vão continuar a  ser parte importante da solução do problema. Temos que assumir que o seu surgimento foi espontâneo e  a sua morte não deve ser por via administrativa. Tem que ser uma morte natural.

Mesmo no sector dos transportes semi-colectivos  de passageiros, vulgo “chapas”,  a situação não é nada boa.

Num autêntico paradoxo, no lugar de passageiros vemos diariamente mercadorias “sentadas”. Fardos de hortícolas, roupa usada e outro de tipo de mercadorias, ocupam lugares reservados aos passageiros.

O motivo é muito simples: com esses fardos os cobradores dos “chapas” colectam relativamente mais do que o preço por  cada utente deste tipo de transporte. Neste caso a PT e  a Polícia Municipal  também vêm o que se passa, mas igualmente “fecham os olhos”, não se sabe bem autorizados por quem.

No nosso país o transporte público privado de passageiros aparentemente não é olhado com seriedade, tanto pelo Estado, como pelos próprios operadores e  mesmo pelos respectivos trabalhadores. Mas, é exactamente este mesmo sector que transporta o maior número de pessoas e causa também maior número de mortes, feridos e  deficientes físicos.

Não se conhece sindicato nenhum de motoristas e  cobradores dos “chapas”. Não acredito que esses trabalhadores estejam interessados em se inscrever  no Instituto Nacional de Segurança Social (INSS).

Nunca os vi a  marchar no dia 1 de Maio e a reivindicar seja o que for, ou a manifestarem  orgulho do que fazem. São trabalhadores marginais, mas são aos milhares. Desculpem-me, mas esta é  a minha percepção.

Quando morrem ou ficam incapacitados no exercício da sua profissão os seus dependentes  permanecem a “ver navios”, ninguém olha por eles. É  difícil conceber que  esta situação se mantenha por muitos e longos anos, quando o aparelho do Estado tem  pessoas que são pagas para pensar em soluções sustentáveis em relação aos problemas desta área muito importante para a  economia nacional.

O “chapeiro” recebe salário, mas sobre esta renda o Estado moçambicano não cobra nenhum imposto. Seria interessante saber quanto o erário público perde só de impostos que deviam ser pagos por esta classe de trabalhadores.  Alguém tem cor agem de pegar numa máquina de calcular e fazer as contas?

P.S. A-propósito, quem mandou acabar com o transporte público e colectivo de passageiros a partir do Aeroporto Internacional de Maputo para o centro da capital do país?

LOBÃO JOÃO

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