FRETILIN é nome de um dos movimentos que lutaram pela independência de Timor-Leste. Teve uma acção diplomática forte, com muito apoio de Moçambique, para onde se exilou um dos seus co-fundadores, Mari Alkatiri, quando o território foi ocupado pela Indonésia, na altura em que se preparava para ascender à independência de Portugal, em 1975.

Alkatiri viria a estudar em Moçambique e em Angola.

Estarão alguns recordados do apoio dado no global por Moçambique à causa timorense. Aliás, foi assim que muitos outros seus compatriotas, no geral, receberam apoio do país de Samora. Onde quer que estivessem. Um desses jovens da então resistência do povo maubere exilados que beneficiou do apoio é José Ramos Hora, que até se confundia com funcionários de algumas das embaixadas moçambicanas no exterior.

Anos mais tarde, lembro-me ter ouvido Ramos Horta, numa conferência internacional realizada na segunda metade da década de 90, em Maputo, a pedir desculpas, por entre risos, ao Governo moçambicano por não ter, até então, devolvido o passaporte moçambicano. Como Horta, no evento estavam presentes tantos outros timorenses que, segundo o Prémio Nobel da Paz, tinham essa dívida. Era o reconhecimento, pela diáspora timorense, de uma acção de solidariedade dispensada de forma incondicional ao longo de anos pelos moçambicanos.

Em vários fóruns internacionais, em que Moçambique estivesse presente, nunca faltava a referência à causa maubere e os apelos para a independência do território que viria a acontecer só em 2001, uma vitória que foi, diga-se de passagem, também de Moçambique por tudo o que mencionei anteriormente.

Esta referência sobre a solidariedade moçambicana à causa timorense não é, na verdade, o propósito deste “À Lupa”. Surge como uma espécie de “Kuxa kanema”. O que me leva a escrever estas linhas são os acontecimentos em curso em Timor, este país da CPLP, onde parece estar iminente a repetição da história: a queda do governo da FRETILIN, mesmo sendo o mais votado nas eleições legislativas, passando, as coligações pós-eleitorais, a governar. Foi assim em 2007, e ao que tudo indica pode voltar a acontecer, a menos que a figura do Presidente da República evite este cenário, através da aproximação de posições entre as principais forças políticas. Trata-se de uma missão que não se afigura fácil devido à uma aparente inimizade visceral de uma das principais formações políticas, o Congresso de Reconstrução Nacional (CRNT), de Xanana Gusmão, em relação à FRETILIN.

Em 2007, o partido de Alkatiri foi o mais votado, obtendo 21 assentos, num Parlamento de 65 membros, seguido do CRNT, com 18, e em terceiro lugar a coligação ASDT-PSD, com 11.

Estes últimos se recusaram então, a formar uma coligação com a FRETILIN, e por essa razão não conseguiu ser Governo, tendo na altura o Presidente da República, Xanana Gusmão, convidado uma coligação pós-eleitoral formado pelo segundo e terceiro partidos mais votados para constituírem o Executivo. E assim Ramos Horta foi incumbido de formar a equipa governamental.

Alkatiri e a sua FRETILIN espernearam-se inutilmente. Acontecia o que, sob ponto de vista legal, era o caminho a seguir, mas talvez noutras dimensões não. Um Executivo de unidade, como pedia o mais votado, teria sido a melhor alternativa para este caso.

Nas eleições legislativas de Junho deste ano, os timorenses voltaram a dar mais votos à FRETILIN, mas, à semelhança de 2007, não suficientes para um Executivo estável. Este partido obteve 23 deputados e formou Governo coligado com uma pequena formação política com sete deputados no Parlamento de 65 assentos.

O segundo, terceiro e o quarto mais votados, num grupo que inclui o CRNT, declinaram a abertura da FRETILIN para um Governo de base alargada, com o partido de Xanana a argumentar que não pretendia entrar no Governo, mas sim fazer uma oposição construtiva. 

O mesmo CRNT, semanas depois, admitia coligar-se com uma outra força política da oposição, que também declinara o convite da FRETILIN, a fim de formar um Governo estável, se o actual não sobreviver, como parece que vai acontecer.

Isto significa que dez anos depois, o cenário pode volta a acontecer. Na semana passada, o bloco da oposição, que inclui mais uma vez o CRNT, chumbou o programa do Governo da FRETILIN, cujo líder diz não estar disposto a voltar ao Parlamento para defendê-lo.

Se a coisa se mantiver assim e o Presidente da República não conseguir aproximar as partes no sentido de um Governo de base alargada ou de união, como se queira dizer, o Executivo da FRETILIN, investido mês passado, cairá.

Alkatiri foi primeiro-ministro entre 2002 e 2005, e teve que deixar o poder antes do término do mandato, devido a uma crise política em que o então Presidente exigiu a sua demissão, sob pena de ele próprio abandonar a Chefia do Estado. E em nome da estabilidade do país, o ex-representante da FRETILIN em Maputo deixava o Governo. Triste sina, esta de Alkatiri e sua FRETILIN!

 

LÁZARO MANHIÇA- Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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