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DE mim ninguém estava a espera, porque sendo originário de Micaúne, Chinde, não era ainda destino final. Aliás, por essas alturas, nem mesmo Micaúne deveria ser destino, porque estava-se em plena guerra civil e aquele posto administrativo tinha sido tomado pelos então “governantes do mato”.

Desci do barco com a minha mochila semi-vazia, sem ninguém do lado de fora para me receber e dizer um alô. Os conhecidos eram agarrados pelas mãos para facilitar o salto do barco à terra, mas eu não tinha este privilégio, não porque não pudessem fazê-lo, mas, para eles, eu era pessoa estranha com quem não poderiam logo à partida se simpatizar.

Dirigi-me ao centro da vila, através da rua que dá acesso ao Porto de Chinde, para quem vai em direcção ao Agripino, um dos comerciantes mais famosos de então e cuja loja se localizava defronte da curva que vai dar ao mercado, passando pela Escola Secundária 24 de Julho, onde lá para os anos 80 e 81 “marara” o 1.º e 2.º anos do ciclo preparatório do Ensino Secundário.

As luzes que emanavam dos candeeiros eléctricos pendurados em postes ainda robustos, herdados do colonialismo, clareavam a rua, lado a lado riscada de acácias de uma espécie rara, que nunca cheguei a conhecer seu nome, que fazia de Chinde uma vila-cidade, pelo menos aos olhos de quem chegasse pela primeira vez àquela ilha, ido de Micaúne, bastião dos Maindós.

Fui contemplando, estabelecendo comparações de Chinde do tempo de estudante e aos olhos de quem já tinha sido quase uma década, funcionário. O que notei de diferente foi a idade das acácias que nesta altura, raramente, eram podadas, como acontecia dantes, nas vésperas da independência.

Já tinha passado das disnas, casas exagonais de paredes de cimento e cobertas de capim, que outrora serviam aos trabalhadores da então Câmara Municipal de Chinde e que lá para os anos 80 e 81, com o advento da independência, eram “nossas”, eu e meus colegas estudantes de então. Eu era residente da disna 6, nome que eu próprio atribuí, retirado de um dicionário velho, sem capa, mas ilustrado que havia apanhado nos escombros de uma vivenda de um colono já ido, em Micaúne.

Era único estudante na altura que tinha dicionário próprio e que, por isso, andava sempre na mão para consultar e decorar palavras difíceis, que serviam para exibir vocabulário a colegas e, sobretudo, aos estudantes ainda primários e que não tinha sido “cozinhados” com Delfim Dias dos Santos Muhamad, um mulato nampulense que me abriu os horizontes da língua de Camões.

Por essas alturas, frequentar o 1.º e 2.º anos do ciclo preparatório do Ensino Secundário não era para menos e, por isso, os que ainda frequentavam o Ensino Primário, que na época terminava na 4.ª classe, cobiçavam. Outros até mesmo invejavam, para não dizer que este era motivo bastante para estar na mira dos mestres locais de feitiçaria.

Meus colegas que estivessem sedentos e quisessem descortinar algumas palavras, entenda-se vocábulos difíceis de língua portuguesa, dirigiam-se ou a mim ou a biblioteca distrital, que ficava do outro lado da principal avenida da vila, mais a norte, defronte do Conselho Executivo, um edifício de um andar, de arquitectura similar a do actual Governo Distrital de Mocuba.

Era viagem de passagem a Quelimane, para onde se haviam refugiado os meus pais, então deslocados de guerra, que foram afixar-se em Madal. Tinha de esperar alguns dias para tomar o barco, o único meio de transporte então existente e que era usado por quem quisesse viajar daquela vila à cidade capital da província da Zambézia.

VICTOR MACHIRICA

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