O FACTO de termos ido eu e o meu irmão mais novo ao ensino oficial e não à missão católica, no início da década de 70, foi graças a um primo do meu pai que nessa altura percebeu que não devíamos enveredar pelo ensino rudimentar e arranjou padrinhos para conseguir nos matricular.

O ensino rudimentar era, na prática, de adaptação, uma cadeia geralmente dedicada ao “ensino dos indígenas”, que dava depois para as escolas de artes e ofícios. Não era o que o nosso progenitor desejava, pois já tínhamos três irmãos mais velhos na missão católica, dois quase a sair do ciclo.

O meu tio conseguiu enviar-nos para lá, porque tinha passado por um processo de humilhação e negação, que a “assimilação” comportava, mas mesmo assim tinha que ser, para poder se beneficiar de direitos que a muitos outros eram vedados.

Apesar de em 1971, a guerra de libertação estar já numa fase muito avançada, e muita coisa ter sido mudada, como, por exemplo, a questão da nacionalidade, que era abrangente, mas portuguesa, ainda se notava grande discriminação. Estudávamos com filhos de lojistas, de donos de estaleiros, de donos das grandes machambas, de criadores de suínos e galinhas e de funcionários, que ali habitavam e que nos tratavam como autênticos moleques, por causa da nossa origem.

O mais duro dos tratamentos eram os “carolos” e pontapés recebidos ao recreio e à socapa sem podermos reagir e os insultos para não “falar a língua de cão”, referindo-se à nossa língua materna, que na prática nem usávamos na escola.

Em 1972, jubilámos quando tivemos os primeiros professores da nossa cor na classe. Todos com o estatuto de “assimilados”, mas para nós era melhor tê-los ali do que eles não existirem. Em 1974, aconteceu uma pequena “revolução” na classe. Foi a vinda de um miúdo matsua transferido de Inhambane, que nos recreios falava a sua língua com tanta vernaculidade que parecia um adulto. Nós percebíamos as falas, riamos e lhe admirávamos a coragem. Outros ficavam encabulados por ele atravessar a “zona do proibido” sem consequências. Era duro, que os habituais colegas mauzãos temiam-no.

É que, no tempo em que o “Estatuto dos Indígenas” figurava, havia três divisões: os próprios indígenas, os assimilados e os brancos. Para a passagem de indígena para assimilado era necessário demonstrar um conjunto de requisitos, como ter 18 anos ou mais, saber ler, escrever e falar bem português, vestir bem e professar a religião católica. Manter padrões de vida e costumes semelhantes aos dos europeus, por exemplo, ter uma construção convencional, podia ser casa de madeira e zinco e saber comer a garfo e faca; calçar sapatos ou sapatilhas e outros aspectos que o estatuto de "assimilado" exigia. Como tudo, também saber ler e escrever português era uma aberração, um contra-senso do sistema, porque muitos brancos eram literalmente analfabetos.

Mais ainda, era um processo de aculturação violenta que te obrigava a vergar, renegando a tua cultura para assumir a cultura do outro, que te oprimia. Tu ficavas civilizado e os outros “baixos”, sem categoria e não valiam nada. Ademais, o colono aplicou o mecanismo de dividir para reinar, sobrevalorizando e subvalorizando os clãs, criando supérfluos ódios entre si. Estes são mainatos, aqueles marceneiros, aqueles outros cozinheiros. Esta tribo carrega o lixo e aquela vai às minas, por aí em diante.

O sistema queria que as pessoas se desprezassem mutuamente, desprezassem as suas origens e cultura, a sua língua. Rebaixasse o que é teu e tomasse a cultura do colono.

Hoje, por isso, vemos gente que tem muita dificuldade em falar em público na sua própria língua, a língua materna, a língua aprendida na família. Mesmo conhecendo-a, acham-na “baixa”, indigna de ser falada. Menosprezam-na, na mesma esteira da “assimilação. Muitos não se identificam segundo a etnia, pelas mesmas razões.

Têm dificuldades de se identificar com muganda, ngalanga chigubo, chigovia, timbila, com o nyau e muitas manifestações deste nosso rico mosaico cultural.

Assim, construímos uma sociedade sem identidades e nem referências. Sem cultura. Os nossos netos agora nem sequer vão à terra natal dos país ver os avós, porque nem se entendem com eles. Vivem na cidade entregues a vídeo-games e televisão, criando no imaginário, heróis violentos, e não gente simples, humilde, cheia de moral, que no fim, as fábulas narradas pelas avós, nos incutem. Normal 0 false false false EN-GB X-NONE

Alfredo Dacala-Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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