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ESTÁ mais do que claro que a agricultura é a base do desenvolvimento, factor essencial no combate à pobreza e promoção do progresso económico e social. Todos os habitantes da terra, desde os países do Primeiro Mundo, o chamado mundo da abundância e bem-estar, até as pessoas que habitam as paupérrimas nações terceiro mundistas, vivem com base em produtos agro-pecuários.

Partindo dos ricos que povoam os países mais abastados e industrializados deste mundo, até aos viventes da esquecida e saqueada África, têm a agricultura como suporte não só para gerar riqueza, como também para garantir a sua sobrevivência como seres vivos merecedores deste nome.

O arroz, a farinha de seja qual for o cereal, o trigo, a soja, as batatas de todas as espécies comestíveis, a carne, o ovo, o leite, as frutas e toda uma série de géneros alimentícios que dão o prazer e povoam as nossas mesas em tempo das refeições, são derivados de produtos agro-pecuários.

Para que esses produtos apareçam nas nossas refeições, há pessoas que dia e noite se empenham na agricultura e pecuária: os agricultores, os camponeses e os criadores. Isto é equivalente a dizer que, seja em que nível social estivermos, se queremos continuar vivos, temos que nos alimentar de produtos saídos das machambas dos camponeses e agricultores.

É assim que eu defendo que, em vez de ser a base de desenvolvimento, a agricultura deve também ser considerada a base da sobrevivência da humanidade. Sem ela, acredito que não estaríamos na face desta terra e sem agricultura jamais prosperaríamos e, quaisquer das nossas intenções e planos de desenvolvimento cairiam por água abaixo.

Podemos ter abundância em dinheiro, este seria sem valor se não houver nada para comprar, proveniente da produção dos camponeses e operadores agrícolas. O dinheiro em si não seria nada. As boas práticas de nutrição que propalamos só são exequíveis com a ingestão de produtos vindos da machamba e dos currais dos camponeses ou agricultores.

Desde as lindas raparigas e mulheres, cuja beleza fascina as cidades e dão valor acrescentado à nossa existência e a alegria das nossas almas, fazendo dos aglomerados urbanos, centros de beleza, limpeza e urbanidade feminina até aos mais altos dirigentes das nações pobres ou ricas, vivem da agricultura.

Se não comermos nada, não teremos força para trabalhar e pensar em nós mesmos, o nosso próximo e o nosso país. O sorriso que acresce a beleza das mulheres, a boa governação e os bons negócios são feitos de barriga cheia. Todos lutam pela abundância na mesa e é por este desiderato que todos trabalham e tem o prazer de viver.

Há pessoas que chegam a pegar em armas para combater um determinado regime não só porque tal regime não esteja a corresponder com às expectativas dos seus governados, mas porque há interesses de sobrevivência e de melhoria das condições de vida que estão por detrás disso.

Maior fatia do bolo salarial de todos os trabalhadores acaba na aquisição de géneros alimentícios que são produzidos pelos incansáveis, laboriosos mas famintos e andrajosos camponeses. É o trabalho dos camponeses que nos dá a vida e a alegria de viver, daí que devemos reiterar a importância da agricultura no nosso projecto colectivo de desenvolvimento económico, social e cultural.

É pensando nisto que o Governo de Moçambique tem vindo a desenhar e desenvolver programas voltados a melhoria dos indicadores de produção e produtividade. O extinto Programa Nacional de Desenvolvimento Agrário (PROAGRI), depois o PEDSA, o PNMA, FDA, entre outros, têm como objectivo, levar a cabo uma estratégia que permita impulsionar a agricultura no sentido de promover o desenvolvimento e combater a pobreza e a fome.

Porém, os programas são desenhados mas a nossa agricultura nunca melhora. Os nossos níveis de produção e produtividade continuam muito aquém de satisfazer as reais necessidades do nosso povo. Como consequência, enquanto por um lado, continuamos a acreditar que fazemos muito, por outro, continuamos a nos socorrer das importações para cobrir o crónico défice em produtos de origem agrícola.

Se importamos mais do que exportamos e consumimos, significa que as nossas estratégias estão a falhar. Os nossos solos dão para tudo, mas não produzimos tudo quanto necessitamos, em quantidade e qualidade e, para cobrir o défice, derivada da nossa “preguiça estratégica, técnica e física”, importamos.

Víctor Machirica

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