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Apesar de todo o horror que o mundo assistiu, de todo o sangue derramado não apenas na Líbia, Iraque e Síria, como na Europa e África, o Estado Islâmico (EI) parece ter chegado ao fim. Pelo menos do ponto de vista de força militar. A tentativa de replicar o califado medieval parece ter falhado. Os territórios conquistados na Líbia, no Iraque e mais recentemente na Síria estão irremediavelmente perdidos. Quase todos os dirigentes do topo foram mortos. Estamos, portanto, perante uma realidade que legitima a seguinte pergunta: e agora?

Tentando responder a esta questão, começo por aventar a possibilidade de muitos militantes da organização extremista tentarem “desmaterializar-se” e de seguida integrarem-se nas comunidades. Por outro lado, há que considerar a possibilidade de muitos deles optarem por “exportar” as acções para outras paragens. Como se sabe, na região do Médio Oriente ainda temos a Somália, um país em processo desagregação acelerada. Portanto, um porto seguro para grupos sem controlo. Já cá entre nós, temos, para além da Nigéria, onde actua o Boko Haram, o gigantesco deserto de Sahara, algumas regiões de Mali, Níger e Chade, onde há notícias da actuação de grupos sem comando centralizado e organizado. Não esquecer o caso de Mocímboa da Praia, aqui no nosso país…

Outro aspecto a considerar tem a ver com a adopção de novas formas de luta que temos vindo a assistir nos últimos tempos. Refiro-me aos ataques que abalaram recentemente vários países europeus, tendo como arma, não as tradicionais bombas ou homem/mulheres bombas, mas camiões utilizados para atropelamentos em regiões de grande aglomeração populacional. Estas novas formas de ataques que o EI adoptou indicam-nos que a derrota militar não significa necessariamente o fim daquela famigerada organização. Sim, porque a sua ideologia continuará a ser propagada e defendida por muitas gerações. Lembremo-nos, de resto, que a filosofia do califado não é de hoje.

O califado é definido como a forma islâmica monárquica de governo. Segundo os seus mentores, ele representa a unidade e liderança política do mundo islâmico. A posição de seu chefe de “estado”, o califa, baseia-se na noção de um sucessor à autoridade política do profeta islâmico Maomé. Reza a história que, de acordo com os sunitas, o califa deve, idealmente, ser um membro da tribo dos quraysh eleito pelos muçulmanos ou por seus representantes. Já para os xiitas, ele deve ser um imã que descenda directamente da família do profeta Maomé.

Desde o advento do islão, no século VII, até 1924, diversas dinastias alternaram-se sucessivamente no califado (autoridade governamental), nomeadamente os omíadas, que foram expulsos de Damasco, Síria, para Córdoba; na Espanha, no al-Ândalus (Ibéria muçulmana); os abássidas, que governaram a partir de Bagdade, Iraque; os fatímidas que governaram a partir de Cairo, Egipto; e, finalmente, os otomanos. O califado é considerado a única forma de governo que tem a total aprovação na teologia islâmica tradicional. É também considerado o conceito político central do islamismo sunita, por consenso da maioria muçulmana nos primeiros séculos.

Esta filosofia de governo foi resgatada e implementada por um grupo de jovens, perante as facilidades oferecidas com o surgimento dos movimentos democracistas lançadas pelo Ocidente, especialmente no Iraque, Líbia, Síria, Egipto, Tunísia, entre outras regiões. Para a sua concretização, os seus mentores criaram, em Outubro de 2004, o Estado Islâmico a partir de bases criadas pela Al-Qaeda no Iraque.

A expansão rápida do EI, que se assistiu no Iraque, resultou do aproveitamento da situação conflituosa entre curdos, árabes sunitas, cristãos e xiitas - grupos que normalmente formavam os governos naquele país. Para a concretização dos seus objectivos, o EI contou com a simpatia dos sunitas, que estiveram no poder durante as décadas do Governo de Saddam Hussein. Reza ainda a história que a desestabilização do Governo xiita no Iraque, que não teve arte para concertações com os sunitas e os curdos, foi aproveitado pelo EI para se estabelecer.

Para terminar. O fim militar da organização não significa necessariamente o seu desaparecimento total. A sua ideologia poderá perdurar por muitas e muitas gerações. Temos, pois, que estar atentos e vigilantes perante as novas formas de actuação, que seguramente iremos assistir.

Marcelino Silva

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